CARLOS CHAGAS -
Como mestre Helio Fernandes repete faz muito, “no Brasil o
dia seguinte sempre consegue ficar um pouquinho pior do que a véspera”.
Foi dinamite puro a delação premiada de Ricardo Pessoa, dono das
construtoras UTC e Constran, líder do grupo de empreiteiras que
assaltou a Petrobras. O personagem está preso em casa e mais ficará
depois de condenado, ainda que no papel de delator possa ver reduzida
parte da pena a que fará jus. Seu depoimento ao Ministério Público
começou a ser vazado no fim de semana e envolve nomes ilustres do
governo e do Congresso. Deixa mal muitos potentados,ainda que a
argumentação de todos seja de que recolhiam doações legítimas para
campanhas eleitorais variadas. Como a maior parte dos recursos
distribuídos provenha de contratos superfaturados das empreiteiras com a
Petrobras, quem quiser que tire suas conclusões.
Fosse Itamar Franco presidente da República, como foi, e já estariam
fora de seus cargos ministros como Aloísio Mercadante e Edinho Silva,
com instruções para defender-se fora do governo e a possibilidade
de voltar caso comprovada sua inocência. Itamar não perdoava as dúvidas.
Com o PT no poder tem sido diferente: tanto o Lula, antes,como Dilma,
agora,a estratégia é reunir os acusados para elaborar estratégias de
defesa. Também, até as campanhas eleitorais do antecessor e da
sucessora estão sob suspeição.
Efeitos políticos devastadores estão por acontecer, se é que já não
começaram, envolvendo o PT, o PMDB, o PP, até o PSDB e outros partidos. A
elucidação completa da roubalheira afetará líderes de prestígio
e poderá refletir-se nas próximas eleições, tanto as municipais do ano
que vem quanto as nacionais de 2018. Até a candidatura do Lula está
sendo afetada. Nas últimas pesquisas ele perde por dez pontos para
Aécio Neves. O PT anda em queda livre e perderá em número de prefeitos,
vereadores, deputados, senadores e governadores.
As consequências políticas das sucessivas revelações da corrupção
institucionalizada, porém, são menores do que os efeitos econômicos. A
perda de credibilidade nas instituições virou uma
constante, alimentando o desemprego, a alta de preços, impostos e
tarifas, além da inflação e da supressão de direitos sociais como forma
de o governo enfrentar a crise. Mais do que rejeitar, a população
repudia os que deveriam conduzi-la.
Ricardo Pessoa ficou preso seis meses em estabelecimento penal de
Curitiba, mas já cumpre prisão domiciliar, assim como muitos
outros envolvidos no chamado petrolão, sem esquecer os réus do mensalão.
Não deixa de ser estranha a evidência de que cadeia, mesmo, é para
ladrão de galinha. Essa parece a diferença entre a véspera e o dia
seguinte...



