Via DW -
Monopólio do esporte, sistema "um país, um voto" e o amor dos
torcedores, que "toleram o que acontece fora dos estádios porque o que
interessa a eles é o jogo", criam condições para a corrupção, diz
cientista político.
“O futebol, mais do que um esporte, é um patrimônio cultural da
humanidade”, afirmou o cientista político Andrei Markovits, da
Universidade de Michigan, especialista na relação entre esporte, cultura
e sociedade.
Para ele, não importa o que faça a Fifa ou o quão corrupta ela seja,
as pessoas continuarão amando esse esporte. E é justamente essa
circunstância – o amor incondicional do torcedor pelo futebol – que
alimenta a corrupção.
“Os torcedores amam esse esporte e toleram o que acontece fora dos
estádios porque o que interessa a eles é o jogo, e não o negócio”,
explicou, em entrevista à DW.
A outra explicação para a corrupção na federação está nas suas
próprias estruturas internas. “O monopólio dela no futebol é um convite
aos funcionários para serem corruptos”, afirmou.
Ele também criticou o modelo “um país, um voto”, afirmando que é “esse mecanismo que sustenta o sistema corrupto da Fifa”.
DW: Depois das detenções, há um mês, em Zurique,
o escândalo da Fifa parece ter esfriado. Isso aconteceu porque só os
funcionários presos da Conmebol e da Concacaf eram corruptos?
Andrei Markovits: Na Fifa, todos são corruptos! As
próprias estruturas da Fifa geram a corrupção, o monopólio dela no
futebol é um convite aos funcionários para serem corruptos. Tenha
certeza de que isso não terminou, de que as investigações apenas
começaram e que, sem dúvidas, virão mais revelações e detenções.
Mas o futebol continua funcionando como antes. Por quê?
O futebol, mais do que um esporte, é um patrimônio cultural da
humanidade. Não importa o que faça a Fifa ou o quão corrupta ela seja
como organização, as pessoas continuarão amando o jogo, entusiasmando-se
com o que acontece nos gramados, e seguirão admirando os jogadores.
Essa circunstância – o amor do torcedor pelo futebol – é o que permite à
Fifa ser corrupta.
Então os torcedores, em parte, têm culpa quanto à existência de um sistema corrupto no futebol?
Só de maneira indireta. Os torcedores amam esse esporte e toleram o
que acontece fora dos estádios porque o que interessa a eles é o jogo,
não o negócio.
Mas o futebol não é, primeiramente, um negócio?
Certo, mas o que move o torcedor é a emoção de ganhar ou perder, e
todos querem ganhar. Vamos ao caso de Arturo Vidal na Copa América. O
normal é que qualquer outro cidadão vá preso por dirigir embriagado, mas
todo o Chile vê nesse jogador a possibilidade de ganhar o torneio e,
por isso, trata-no diferente. O futebol tem uma dupla moral.
E os torcedores não deveriam assumir sua responsabilidade em meio a todo esse esquema de corrupção?
Talvez sim, porque, sendo sincero, você teria toda a razão se
decidisse me apontar como cúmplice da corrupção por apoiar um sistema
corrupto cada vez que vejo uma partida de futebol. Mas, e daí? Eu, como o
resto dos torcedores, seguirei vivendo o futebol, divertindo-me com
esse esporte que tanto nos diverte, mesmo que gere corrupção.
Isso não seria legitimar a corrupção?
Essa corrupção é o resultado da falta de alternativas à Fifa, cujo
poder reside, em grande parte, na importância das seleções nacionais. No
dia em que as grandes estrelas, como Messi ou Cristiano Ronaldo,
decidirem que basta a eles jogar apenas pelos clubes, e não por seus
países, a Fifa perderá o monopólio e terá que aceitar regras diferentes
para o jogo.
A Alemanha propôs um plano de reforma da Fifa com dez pontos. Como o senhor vê a ideia?
O plano da Alemanha contém quase todos os pontos que são importantes
para acabar com a corrupção: transparêndcia, limites aos mandatos de
presidentes e funcionários, um teste de integridade, controle das
finanças… Ainda assim, há aspectos da proposta que vão encontrar
resistência, como o do fim do princípio “um país, um voto”. Os alemães
têm razão ao afirmar que esse mecanismo não reflete o verdadeiro
equilíbrio de poderes no futebol, mas é esse mecanismo que sustenta o
sistema corrupto da Fifa.
A proposta alemã é, então, uma tarefa muito complicada?
A Alemanha não vai conseguir, sozinha, todas as mudanças que a Fifa
necessita. Os alemães devem buscar o apoio de outras federações fortes,
como a inglesa, e influentes, como as sul-americanas. Com alianças e
negociações, é possível tocar a reforma adiante.
E se as tentativas de reforma falharem?
Aí a Uefa poderia se tornar independente. No fim das contas, é na
Europa que as ligas têm o melhor futebol e o melhor modelo de negócio. É
no Velho Continente que jogam as estrelas de todo o mundo, é lá que o
futebol funciona. Ainda assim, não creio que a Uefa chegue tão longe.
Uma separação da Fifa é um passo demasiadamente drástico para a Europa,
que tem o poder, mas não a coragem.
E o que acontecerá com o futebol?
Nada! O futebol que se joga nos estádios não tem nada a ver com o que
se faz nos escritórios. O público seguirá assistindo às partidas, os
torcedores continuarão apoiando seus clubes. O que acontecer com a Fifa
não terá nenhum efeito sobre o consumo do futebol. Os torcedores
sofrerão e vibrarão com cada gol, independentemente da honestidade ou da
corrupção dos funcionários.



