Por GABRIEL BONIS - Via Politike -
O que os analistas têm a dizer sobre a droga anunciada pela Coreia do Norte que “cura” Aids, Ebola e Mers.
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| O ditador norte-coreano Kim Jong-un. |
Na última semana, a Coreia do Norte anunciou ter criado um medicamento capaz de curar uma série de doenças, incluindo Aids, Ebola, Mers
(sigla em inglês para Síndrome Respiratória do Oriente Médio) e Sars
(Síndrome Respiratória Aguda Severa). O anúncio do governo ditatorial
liderado por Kim Jong-un, como esperado, causou amplo ceticismo. Segundo
o jornal britânico The Guardian, o país alardeou a mesma droga
durante o surto da gripe aviária em 2006 e 2013. Além disso, o anúncio
ocorre em um momento no qual a Coreia do Sul enfrenta graves problems com a Mers, que vitimou dezenas de pessoas no país nas últimas semanas.
A droga norte-coreana, Kumdang-2, foi desenvolvida a partir de
ginseng cultivado com fertilizante misturado a elementos raros e
“micro-quantidades de ouro e platína”, segundo o site da droga.
O Politike ouviu o que dois dos mais importantes especialistas em Coreia do Norte têm a dizer sobre o assunto. Confira abaixo:
Scott A. Snyder – Diretor do programa de política entre EUA e Coreia no Council on Foreign Relations (CFR), organização sem fins lucrativos e think tank com foco em política externa dos EUA que publica a conceituada revista Foreign Affairs. Ele é co-editor do livro North Korea in Transition: Politics, Economy, and Society e autor de Negotiating on the Edge: North Korean Negotiating Behavior, ambos sobre a Coreia do Norte.
Recentemente, a Coreia do Norte anunciou a criação de uma droga
que, supostamente, pode curar Aids, Ebola e Mers, assim como um outro
medicamento para combater a hepatite. O primeiro anúncio, no entanto,
provocou amplo ceticismo devido à falta de provas sobre a sua eficácia. O
país costuma superestimar suas capacidades militares em uma tentativa
de demonstrar poder. Logo, essa suposta descoberta seguiria uma lógica
semelhante?
É provável que esse anúncio seja superestimado. O que é interessante é
que ele atua em ansiedades públicas e fraquezas reais norte-coreanas,
mas apresenta os cientistas do país como heróis em saúde pública.
O que motivou o interesse em publicizar essa suposta descoberta
médica? A droga foi anunciada em um momento no qual a Coreia do Sul luta
contra um surto de Mers, e não há uma vacina disponível. Parece
estranho que esse anúncio tenha ocorrido agora. Seria uma provocação
norte-coreana?
Muitos anúncios da propaganda norte-coreana são feitos como parte de
uma duradoura competição por legitimidade com a Coreia do Sul. Esse
anúncio parece programado para ressaltar uma relativa vulnerabilidade da
Coreia do Sul. Claro que a probabilidade da Mers entrar na Coreia do
Norte é pequena porque não há muitos norte-coreanos viajando ao exterior
e retornando do Oriente Médio.
O anúncio deste medicamento é mais um esforço do governo para criar uma percepção interna da grandeza do país?
Sim, porque a ideia do Estado como protetor das população, em
especial na óptica da aparente vulnerabilidade sul-coreana, é uma linha
natural para a propaganda norte-coreana explorar.
A droga está disponível online por cerca de US$28,00 (quase R$
87,00), e possui um distribuidor europeu baseado em Moscou, na Rússia.
Você acredita que essa é uma estratégia séria de lucrar com esse
medicamento, mesmo sem comprovação de eficácia? Caso o remédio seja
ineficiente, o que isso pode acarretar para a imagem já pouco confiável
da Coreia do Norte?
A Coreia do Norte se destaca por obter vantagem em atividades
ilícitas ou desonestas com grandes margens de lucros como uma forma de
conseguir moeda estrangeira. Isso inclui a venda de drogas, cigarros com
rótulos falsos, falsificação e o comércio ilícito de pequenas armas e
de marfim. A venda de produtos farmacêuticos falsos é uma área natural
na qual entidades norte-coreanas procuram obter lucros.
Charles K. Armstrong – Professor-associado da Fundação da
Coreia e diretor do Centro para Pesquisa Coreana na Universidade de
Columbia (EUA). Ele é autor de diversos livros sobre a Coreia do Norte,
entre eles Tyranny of the Weak: North Korea and the World, 1950 – 1992, que ganhou o prêmio John Fairbank da Associação Histórica Americana para História do Leste Asiático, em 2014.
Duvido que essa droga possua as propriedades especiais que os
norte-coreanos alegam. A Coreia do Norte costuma exagerar o seu sucesso
em muitas coisas, e esse anúncio é provavelmente mais propaganda
doméstica do que uma notícia séria.
Um objetivo secundário seria conseguir moeda estrangeira ao vender
esse medicamento. Caso compradores estrangeiros descubram que a droga
não funciona, não há muito o que possa ser feito para buscar a
responsabilização dos norte-coreanos.
Entretanto, o momento do anúncio é bem interessante, com o problema
da Mers enfrentado pela Coreia do Sul. Um propósito do anúncio parece
ser mostrar a superioridade da Coreia do Norte sobre o Sul. Há muitos
anos, a Coreia do Norte tem retratado a Coreia do Sul como atormentada
por doenças “estrangeiras” (Aids, Sars, e agora Mers) em contraste com o
“puro” e saudável Norte. Isso pode ser novamente uma propaganda
doméstica, mas talvez as autoridades norte-coreanas esperam ganhar algum
apoio no Sul com essas alegações.



