Por LÚCIO FLÁVIO PINTO - Via blog do autor -
Dizem que Napoleão Bonaparte, um dos maiores guerreiros da história,
conhecia todos os seus soldados pelo nome. Era dos raros generais que
iam para a frente de batalha. Numa delas, empunhou a bandeira francesa
ao ver o porta-estandarte ser atingido, cair e largá-la. Quando o viram
correr na direção da tropa inimiga, estandarte desfraldado, os soldados o
seguiram com entusiasmo e fúria. Venceram aquela batalha – e numerosas
outras.
Napoleão só não estava no front na batalha que decidiu o seu destino,
depois da fuga da primeira prisão imposta pelos ingleses, na ilha de
Elba, nos 100 dias da tentativa de voltar ao poder. Doente, permaneceu
na sua tenda. Se tivesse comandado pessoalmente a tropa, como sempre
fazia, o resultado de Waterloo teria sido diferente?
Essa é uma das perguntas que a história jamais responderá
satisfatoriamente. Mas ninguém duvida da rara liderança exercida por
Napoleão. Quem estava na retaguarda do comandante sabia que era ele o
responsável primeiro e final de tudo. Não transferia responsabilidade.
Assumir esse papel é a maior qualidade do líder.
Não é o que caracteriza um dos maiores políticos brasileiros, Luiz
Inácio Lula da Silva. Seu bordão mais célebre, o “não sei de nada, não
vi nada, não ouvi nada”, tem sido sua característica mais triste. Ele
não admite ver-se em risco. Não aceita que o fosso seja transposto e dê
acesso ao seu castelo mitológico, que não resiste a uma checagem
elementar. Sacrifica quantos sejam necessários para que a sua imagem de
grande líder, o novo pai dos pobres, não seja maculada.
Quantos companheiros não deixou pelo caminho, abandonados, entregues à
própria sorte (e às feras), enquanto o comandante foge, assume qualquer
nova vestimenta de despiste, menos a responsabilidade que lhe cabe? Se
Pilatos lavou tragicamente as suas mãos uma vez, aceitando a execução de
Cristo, Lula já repetiu esse gesto diversas vezes. As últimas delas,
entregando sua sucessora, tirada do nada político e colocada por ele no
topo do poder, e, agora, seu próprio partido, o PT – que, acostumado ao
culto do chefe, dele se tornou tão dependente que estraçalhou sua
espinha dorsal. De partido heroico, virou um molusco, um organismo
anaeróbio.
Dado o péssimo exemplo, todos os comandados o seguem, lavando as mãos
(sujas, como na peça de Sartre) e sacrificando os antigos camaradas.
Agora é a vez do ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega, o que por mais
tempo permaneceu no cargo, imitar o ex-chefe. De forma melancólica, ele
disse ontem que o culpado pelas ditas “pedaladas fiscais”, sob a mira do
Tribunal de Contas da União, é não o mordomo, mas o seu braço direito
no ministério.
Era Arno Augustin – apontou o seu ex-superior, dedo em riste – o
responsável pela liberação dos recursos para cumprir com as obrigações
do governo junto ao BNDES e ao Banco do Brasil. Apesar desses
antecedentes, Augustin se tornou secretário do Tesouro no primeiro
mandato de Dilma Rousseff. Mantega acabou ficando de fora.
Por ironia, os atos irregulares do “segundo” de Mantega podem
resultar na reprovação das contas do governo Dilma pelo TCU, cujo
parecer será submetido ao Congresso para ratificação ou não a decisão.
Na primeira hipótese, sendo imponderável o que daí se seguirá.
“O secretário do Tesouro Nacional estabelece o montante a ser
liberado em cada item da programação financeira, determinando que sejam
adotadas as providências para operacionalização das liberações de
recursos por ele autorizadas”, disse Mantega em sua defesa.
O ministro não acrescentou que essas medidas lhe foram submetidas e,
se não o tivessem sido feitas, era do seu dever cobrá-las. Não se trata
de pagamento da conta do cafezinho, que está anos-luz abaixo da altura
na qual Mantega se mantinha enquanto ministro.
Ainda que suas alegações procedessem, ele tinha que pensar se devia
procurar se safar da forma melancólica com que procedeu ou devia cair em
pé, na posição que cabe ao chefe e que, na versão petista, conforme o
seu líder maior, é usada para conquistar cargos e ganhar dinheiro.
Ah, les beaux gens, quelle canaille!, trombeteou o indignado
Émile Zola na Paris do século XIX, por cujas ruas ainda circulavam
homens verdadeiros. Fazendo sua a nossa voz, independentemente de tempo e
espaço.



