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Para economista e pesquisador, momento de mobilidade social brasileira
vive desconexão entre novos atores sociais surgidos nos últimos anos e
setores que deveriam representá-los.
Em mais um capítulo do embate conceitual
sobre ascensão social no Brasil, o economista Marcio Pochmann acaba de
lançar um livro a colocar água na fervura. Em O Mito da Grande Classe
Média – Capitalismo e Estrutura Social (Editora Boitempo, 140 páginas),
como o próprio título sugere, o professor do Instituto de Economia da
Unicamp, desmitifica a qualificação de “nova classe média” como
designação dos mais de 40 milhões de brasileiros que, desde o início dos
anos 2000, vêm deixando as linhas estatísticas de pobreza para ocupar
um lugar entre o que Pochmann prefere chamar de “nova classe
trabalhadora”.
Do ponto de vista do alcance da renda,
consideram-se estatisticamente de classe média, ou classe C, as famílias
com renda per capita entre R$ 320 e R$ 1.120. Por exemplo, uma família
com quatro pessoas, casal e dois filhos, e renda total entre R$ 1.280 e
R$ 4.480 é integrante da classe C. Pochmann, no entanto, considera um
equívoco essa abordagem, uma vez que a estrutura de gastos na “nova
classe trabalhadora”, fatia da pirâmide na qual hoje se encontram 54% da
população brasileira, tem uma estrutura de gastos e de consumo
diferente da “classe média” clássica.
“É inegável a mobilidade social e
material alcançada pelos brasileiros desde a década de 2000, com criação
de milhões de empregos, redução da miséria, ampliação das políticas
públicas inclusivas, principalmente em educação e habitação, e aumento
do poder de consumo dos trabalhadores”, ressaltou Pochmann, durante
debate realizado nesta segunda-feira (9) pelo Centro de Pesquisas 28 de
Agosto, do Sindicato dos Bancários de São Paulo. Entretanto, segundo
ele, a inclusão de milhões de novos trabalhadores no mercado de
trabalho, cerca de 22 milhões desde 2003, não é sinônimo de “ascensão de
classe”.
“A classe média poupa, investe, viaja,
investe em cultura, lazer e conhecimento. Quer menos imposto e não quer o
Estado”, resume. “A classe média típica se delicia no momento de
declarar o imposto de renda e calcular as deduções que terá com planos
de saúde, escolas particulares, fundos de previdência, enfim, gastos com
serviços que recusou do Estado e foi buscar no setor privado; deduz
até, pasme, despesa com a empregada doméstica.”
Segundo estudo divulgado há dois anos,
essas deduções representaram R$ 14 bilhões que deixaram de ser
arrecadados. “Assim, a principal política social do Estado vem do
Ministério da Fazenda”, ironiza Pochmann, que é ex-presidente do
Instituo de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e atualmente preside a
Fundação Perseu Abramo, órgão de pesquisas e publicações vinculado ao
PT. “A classe trabalhadora, entretanto, precisa do Estado. Sem ele, não
terá acesso a educação, saúde, serviços públicos de qualidade.”
O economista entende que mais importante
do que a questão semântica ou conceitual é entender como o atual
fenômeno da mobilidade social brasileira ainda é mediado por uma visão
predominantemente neoliberal. “Os avanços são analisados por partes, o
pobre, a mulher, o negro, a moradia, a situação de rua... Sem se
observar no todo, no macro, que o surgimento dos novos atores sociais se
dá em desconexão com os setores que deviam representar esses novos
atores”, observa.
Ele exemplifica com pesquisas expostas
no livro: “De cada dez novos trabalhadores que ingressaram no mercado de
trabalho, apenas dois se sindicalizaram. Dos oito que não se filiaram,
quatro apontaram como motivo o fato de o sindicato não os representar e
os outros quatro consideram importante, mas não se associaram por não
saber como e não conhecer a entidade que os representaria. Do mesmo
modo, dos milhões de jovens que conquistaram acesso à universidade, a
maioria não se aproximou de movimentos estudantis."
Marcio Pochmann alerta que o risco dessa
mobilidade sem conexão com os partidos, sindicatos, movimentos e
organizações tradicionais dá margem para um predomínio da visão não
conectada com noção de igualdade e que pode pôr em risco as conquistas
alcançadas nos últimos anos. “Estão surgindo movimentos sem pauta porque
não estão representados por instituições. Não estamos sem futuro nem
sem projeto, mas estamos sem agenda para esses trabalhadores e é preciso
alcançá-los. Na política, não tem vaga. Se a esquerda não souber dar
esses novos passos, outros darão.”



