LUIZ ANTONIO SIMAS -
O carnaval é perigoso. O controle dos corpos sempre foi parte do projeto colonial de desqualificação das camadas historicamente subalternizadas como produtoras de cultura.
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| Ilustração: Carybé. Escola de Samba. |
Esse projeto de desqualificação da cultura é base da repressão aos elementos lúdicos e sagrados do cotidiano dos pobres, dos descendentes dos escravizados e de tudo aquilo que resiste ao confinamento dos corpos, transforma território em terreiro e cria potência de vida.
O corpo carnavalizado, sambado, disfarçado, revelado, suado, sapateado, sincopado, pombagirado, dono de si, é aquele que escapa, subindo no salto da passista, ao confinamento da existência como projeto de desencanto e mera espera da morte certa.
Escrevi o seguinte na apresentação do relatório da comissão de carnaval da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, que me convidou para redigir o texto de abertura:
A relação aparentemente amorosa entre o Rio de Janeiro e o carnaval quase nunca foi aceita como um destino sentimental, como certo discurso identitário e falsamente consensual de invenção do carioca quer fazer crer. O carnaval, pelo contrário, se inscreve na história da cidade como um aguçador de tensões. Cariocas amam o carnaval e cariocas odeiam o carnaval. A ideia do que deve ser a festa sintetiza a disputa entre a cidade preta, rueira, subterrânea, pecadora, e a cidade que se quis europeia, civilizada, enquadrada nos ditames da ordem e da redenção pelas luzes, pelo cifrão, pelo terno e pela cruz. A última, para seus defensores, deveria exterminar ou domesticar a primeira para existir. Esse embate entre o corpo em transe e o corpo em pecado estará especialmente aguçado em 2019.
Anotem. (via Facebook)



