Por PAULO PIMENTA - Via Viomundo -
A proximidade com o
carnaval e a dependência econômica que a mídia tem da publicidade de cerveja
levaram o jornal O Globo a
isentar, desde agora, a combinação bebida e direção como uma das causas da
violência no trânsito.
Em matéria deste domingo
(3), o jornal “analisa” a ocorrência dos acidentes em rodovias federais e
aponta suas causas. O Globo “não viu”, em nenhum
momento, o consumo de bebidas alcoólicas com um fator preponderante para as
vítimas das estradas.
Para dar suposta
credibilidade àquilo que O Globo quer esconder, ou
não pode dizer – a relação entre álcool e acidentes com veículos – um
especialista em segurança de trânsito surge no texto para sentenciar que o
“despreparo dos motoristas”, a “falta de manutenção dos veículos” e a “péssima
qualidade das vias” é que são os responsáveis pelas colisões nas estradas.
Nenhuma referência sobre álcool e direção, apesar de constar claramente no site
da Polícia Rodoviária Federal que, nas operações de fiscalização de final de
ano que terminam só depois do carnaval, a “embriaguez ao volante” é uma das
“principais atitudes dos condutores que acarretam acidentes graves”.
No ano passado, a Revista Época,
do grupo Globo, revelou que a Ambev ocupava o sexto lugar entre as dez
empresas que mais investiram em publicidade no primeiro semestre de 2015 no
país.
Não fosse pelas razões
óbvias e conhecidas, seria de se estranhar o fato de uma matéria que dedicou
uma página inteira sobre acidentes em rodovias não ter ouvido nenhum especialista
na área da saúde, por exemplo.
Até porque, se ouvisse,
saberia que a Organização Mundial da Saúde aprovou, em texto assinado por 193
países no ano de 2010, a restrição da publicidade de cerveja como uma solução
estratégica à diminuição da violência no trânsito. Dados da OMS afirmam que o
álcool é o agente causador de 4% das mortes do mundo, vitimando mais do que
doenças como AIDS e Tuberculose. O público jovem, especialmente do sexo
masculino, representa a maior parte das vítimas.
Em outro estudo, a OMS
verificou que países desenvolvidos que acabaram com a propaganda de álcool
reduziram o consumo em 16% e tiveram 23% menos mortes no trânsito que os países
onde não há restrições à propaganda, como o Brasil.
Aqui, o Conar, espécie de
autorregulação da propaganda, é conivente com os recorrentes desrespeitos da
publicidade de cerveja ao seu próprio código. Para modificar essa situação, em
2011 apresentei projeto de lei 701/11 que estabelece restrições à publicidade
de cerveja, como sugere a OMS. Mas, o Congresso Nacional não teve ainda a
coragem necessária para enfrentar o “lobby” dos três setores que impedem a
aprovação de uma legislação sobre esse tema no Brasil: a indústria de cerveja,
as agências de publicidade e a mídia.
Há alguns anos, o
professor Braz de Lima, do Programa de Álcool e Drogas da UFRJ, estimou que o
álcool está presente em 75% dos acidentes de trânsito que ocorrem no país.
Em 1996, o Congresso
Nacional aprovou a restrição de publicidades ao cigarro. Nesses 20 anos, o
número de fumantes no Brasil, que entre a década de 80 e 90 era de
aproximadamente 30%, hoje apresenta índice de 10,8%, segundo o Ministério da
Saúde. Isso fez do Brasil um dos países que mais reduziram o número de fumantes
no mundo nos últimos anos.
Como se sabe, o carnaval é
o período em que os segmentos de bebidas mais lucram, quando milhões e milhões
de litros de cerveja são consumidos, e que também muito investem em
publicidade.
O aumento do consumo de
álcool nessa época faz com que esse seja o período, apontado pela Polícia
Rodoviária Federal, como o mais crítico em termos de acidentes em rodovias
federais.
Mas O Globo não
“descobriu” nada disso. Nem poderia, já que a matéria foi construída para
blindar – ou brindar ? – seu próprios anunciantes de qualquer responsabilidade
sobre os acidentes e mortes no trânsito que ocorrerão durante o carnaval.
*Paulo Pimenta é jornalista e deputado
federal pelo PT-RS.



