Por LÚCIO FLÁVIO PINTO - Via blog do autor -
A Playboy dos EUA anunciou que em face da
concorrência de sites pornográficos, vai parar de publicar fotos de mulheres
nuas a partir de 2016. De acordo com o diretor de redação da Playboy Brasil, Sérgio Xavier, existe uma liberdade entre as
Playboy de cada país: " Nós não recebemos nenhum informe ainda sobre essa orientação
da Playboy americana. Não chegou nada para nenhuma das licenciadas. Eu tenho
minhas desconfianças de que isso não vai acontecer num primeiro momento aqui no
Brasil. Acho que em um primeiro momento não vamos adotar essa posição".
Quando pegava um exemplar de Playboy na
banca de revistas ou em qualquer outro lugar público, a desculpa vinha
automaticamente com o gesto: o que nos interessava mesmo era a enorme
entrevista publicada em cada edição e os demais artigos “de fundo”.
O máximo de liberdade e sinceridade que nos permitíamos era o
uso dessa expressão ambígua. Para as gerações dos que estão acima dos 50 anos,
a revista americana de mulher nua foi quase uma iniciação, ou a confirmação das
primeiras impressões.
Havia, porém, um componente de sinceridade na brincadeira que
fazíamos. As mulheres americanas, peitudas, lisas como tábua de passar roupa e
explícitas demais, não eram nosso tipo feminino.
Confesso que muitas das minhas leituras realmente se prendiam
às conversas inteligentes do repórter da revista com uma personalidade de
destaque (várias delas sérias e conservadoras) e as longas reportagens. Muito
melhores eram a versão brasileira e publicações nacionais como a primeira Status, Interview e
mesmo Ele
& Ela.
Mas é de tirar o chapéu para a mudança editorial que a matriz
americana vem promovendo desde o ano passado. Primeiro tirou as fotografias de
nudez do seu portal na internet. E agora anuncia que a partir do próximo ano
também na edição em papel as coelhinhas estarão abolidas.
Por mais que as posições se tenham tornado ginecológicas (e
por isso mesmo), a imagem estática não tem a menor condição de competir com a
reprodução real, em carne & osso, da internet. Nem mesmo com o que se pode
ver “ao vivo” pelas ruas, sem sair à caça de um alvo.
As mulheres que forem abrigadas nas páginas da revista a
partir de março estarão em poses sensuais e eróticas, o que, convenhamos, virou
novidade e originalidade num mundo de desbragada falta de pudor e senso de
privacidade.
A nossa blague de anos atrás vai perder o sentido, mas talvez
a revista se salve de um destino que parecia fatal. É o caminho que todas as
publicações impressas precisam seguir: encontrar uma nova identidade e atrair
para ela o público, não todo, mas algum grupo de segmentados. Como, por exemplo,
os que gostam de bate-papos inteligentes ou de longas reportagens sustentadas
por um texto fluente e provocador.
Felizardo é o criador da revista, que a vê sobreviver desde
1953, mudando e se adaptando. E Hugh Heffner, aos 89 anos, para surpresa de muitos,
continua vivo – vivíssimo, aliás.



