Por ALBERTO DINES - Via Observatório da Imprensa -
Com apenas uma hora de depoimento numa delegacia no Brooklin nova-iorquino, atraiu o FBI americano, desmontou a FIFA, enfiou no xilindró suíço quase uma dezena de cartolas da periferia futebolística mundial, no meio da qual se exibia, impune e lampeiro, uma estrela de primeira grandeza: o ex-governador do maior e mais rico estado brasileiro, ex-presidente da CBF e agora seu vice, José Maria Marin. Seis dias depois, o terremoto destronou o indestronável imperador do futebol, Joseph “Sepp” Blatter.
O autor desta formidável façanha não é cartola, não é político, não
se esconde na sombra: jornalista esportivo no interior de São Paulo (São
José do Rio Preto) ralou, ralou, ralou, subiu, subiu, subiu, criou uma
empresa de marketing esportivo com o sugestivo nome de Traffic, traficou
favores, intermediou negócios de milhões, converteu-se em baronete da
mídia interiorana e, com o aval do Congresso e do governo federal,
obteve em 2003 uma concessão de televisão (TV TEM, afiliada da
prestigiosa Rede Globo). Segundo a Folha de S.Paulo (5/6), a emissora e
suas repetidoras atendem 318 municípios no rico interior paulista.
J. (de José) Hawilla – Jotinha para os íntimos – “colabora” com o FBI
desde o final de 2013. Réu confesso, um ano depois acertava com as
autoridades judiciais americanas o pagamento de uma multa de 151 milhões
de dólares.
Quando a direção da entidade suíça passou a exigir dos países-sede
das Copas do Mundo estádios, equipamentos e serviços urbanos de
altíssima qualidade, estabeleceu-se o “padrão FIFA”. O megaescândalo
agora revelado tem exatamente este extravagante e formidável padrão e só
começou a ser desmontado graças a uma casualidade: além da mansão de 15
mil metros quadrados em São José do Rio Preto, o exigente Jotinha
reside numa propriedade avaliada em 8 milhões de dólares na exclusiva
Sunset Island, Miami, Flórida, Estados Unidos da América do Norte –
paisinho onde há 241 anos as promiscuidades, por mais extensas e sólidas
que pareçam, costumam ser atalhadas pelas autoridades.
Mar de lama
O segredo que tornou a sucursal brasileira da FIFA invencível e
inexpugnável é exatamente a promiscuidade. Convivência espúria,
conivência despudorada, a CBF é uma traficante de vantagens e
privilégios. Embora conste do artigo 1º de seus estatutos que “goza de
peculiar autonomia não estando sujeita a qualquer ingerência estatal”, a
CBF tem efetivamente mais poder do que o Ministério dos Esportes.
Entidade de direito privado, suas veladas conexões com o Judiciário e o
Legislativo a colocam acima do bem e do mal, imune a CPIs e
investigações do Ministério Público.
Blindagem decisiva para garantir sua imunidade, impunidade e
sobrevida são os laços que a CBF mantém com a mídia, especializada ou
não. A fulgurante carreira de Jotinha Hawilla é paradigmática: em apenas
36 anos, o indomável profissional demitido por participar de uma greve
delirante que tanto prejudicou a categoria, acerta com a Justiça
americana – sem espernear – o pagamento de uma multa de quase 500
milhões de reais.
Por mais animado que esteja o Congresso neste momento, dificilmente
conseguirá identificar, enquadrar e desmontar a promiscuidade que
intoxica a mais importante instituição da vida nacional – quase uma
religião –, o futebol. Para recuperá-la, desintoxicá-la e injetar um
pouco de otimismo neste mar de lama que está tomando conta das arenas
novinhas em folha será indispensável o empenho de outra lendária
instituição que carece de façanhas para tirá-la de uma de suas piores
crises: a mídia.



