CARLOS CHAGAS -
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| Natural de Mombaça, interior do Ceará, Antonio Paes de Andrade (88) sofreu falência múltipla de órgãos em hospital de Brasília, onde estava internado. |
Com a morte de Paes de Andrade desaparece a última testemunha de um
encontro que até hoje divide historiadores e políticos. Três dias antes
de ser eleito pelo Congresso, em abril de 1964, o marechal Castello
Branco encontrou-se com a cúpula do PSD, maior partido nacional,
apresentando-se e pedindo votos. Foi num apartamento na rua Constante
Ramos, em Copacabana. Lá estavam Juscelino Kubitschek, Amaral Peixoto,
José Maria Alckmin, Negrão de Lima, o anfitrião, Joaquim Ramos, e
Martins Rodrigues, que se fazia acompanhar do genro, deputado Paes de
Andrade.
Teria Castello prometido que não cassaria JK, conforme versão depois
tornada voz corrente? Até os seus 88 anos o então jovem deputado
cearense sempre negou. Sentado atrás do sogro, ouviu e registrou em sua
excepcional memória todos os lances da conversa. Sua conclusão sempre
foi de que o primeiro presidente militar não tinha motivos para cassar o
ex-presidente, hipótese que nem de longe era admitida. Juscelino
preocupava-se exclusivamente com as eleições de 1965, que Castello jurou
que se realizariam e que passaria o poder a quem fosse eleito. Por
conta disso iria, até mesmo, receber o voto de Juscelino, senador por
Goiás. Como do PSD quase todo. Ficou implícito que as regras do jogo
seriam cumpridas, coisa que não aconteceu, pois depois Castello cassou
JK, prorrogou o próprio mandato e transformou as eleições presidenciais
de diretas para indiretas, tendo também dissolvido os partidos
políticos.
A trajetória de Paes de Andrade na vida política nacional é rica em
episódios que só o engrandeceram. Formava na esquerda parlamentar e mais
de uma vez esteve na lista de cassações. No governo Costa e Silva, às
vésperas de mais uma daquelas violências, recebeu telefonema de um
correligionário do extinto PSD, então ministro da Educação, Tarso Dutra,
que o informou da iminente perda do mandato e dos direitos políticos.
Indagava se queria ser cassado em Brasília, onde se encontrava, ou no
Ceará. Como resposta recebeu um solene palavrão, mas sabendo estar
relacionado, pegou a mulher, Zildinha, e as filhas pequenas, voando para
Fortaleza. Lá receberia a execrável punição.
No dia seguinte, reunido com deputados, numa casa já cercada pela
Polícia Federal, o rádio anunciou a longa lista de cassados. Entre os
primeiros ouviu-se “Antônio Vaz de Andrade”. Era ele, mas não era ele.
Os algozes erraram no primeiro sobrenome e, assim, Paes voltou para
Brasília no exercício do mandato. Os militares teriam ficado com
vergonha do erro?
Quarta-feira, dia de sua morte, um energúmeno comentou, numa emissora
paulista, que Paes de Andrade seria lembrado por haver, no exercício da
presidência da República, que ocupou doze vezes quando das viagens de
José Sarney ao exterior, reunira um grupo de jornalistas e viajara para
Mombassa, sua cidade natal. Foi claro o objetivo de depreciar o morto
ilustre, mas deveria o infeliz locutor conhecer a História. Raniéri
Mazzilli, também presidente da Câmara, na primeira vez em que substituiu
Juscelino Kubitschek, mandou para Caconde, no interior de São Paulo,
onde nascera, nada menos do que o Rolls-Royce presidencial, no qual
desfilou pela avenida principal. E com um adendo: usando a faixa
presidencial...



