27.6.15

ENTREVISTA: OBRA DO ESCRITOR ROBERTO MONTEIRO PINHO APONTA AS CAUSAS DA MOROSIDADE NA JUSTIÇA

DA REDAÇÃO - 

(...) Os movimentos sociais foram às ruas em junho de 2013, para dar um basta nisso tudo que ai está, e o recado também serve para o judiciário brasileiro – “vocês não nos representam” – gritou a comunidade.

Editora Topbooks.
Livro: Justiça Trabalhista do Brasil - “o fenômeno social agoniza” 

A obra é resultado de um estudo sério e profundo nas entranhas do judiciário trabalhista, subsidiada de forma fiel com dados do programa “Justiça em Números” do Conselho Nacional de Justiça – CNJ, e aborda de forma crítica, questões pontuais sobre a má prestação jurisdicional da justiça laboral como topografia das injunções discricionárias de seus juízes e serventuários. Monteiro aponta com convicção as praticas anômalas dos atores da Justiça do Trabalho, a violação de preceitos elementares de leis e institutos, com reflexo na morosidade entre outros.

O autor ainda expõe comentários sobre temas ligados ao trabalhismo e revolve toda estrutura do judiciário, trazendo surpreendentes situações, injunções e atos até aqui, guardados entre as paredes da justiça laboral. Aponta a existência de tribunais nanicos, o alto custo para manutenção das ações e as alternativas extrajudiciais para por fim ao suplicio de milhões de trabalhadores que esperam até 12 anos para solução de seus processos.

De acordo com o autor, o livro Justiça Trabalhista do Brasil pretende derrubar alguns mitos e dogmas em torno da imagem produzida de que essa justiça se atrela tão somente ao social, priorizando o trabalhador, quando na verdade, serve a dois senhores: seus integrantes que recebem os maiores salários e gratificações do planeta e do governo neste caso, ou é autor ou é acionado e por essa razão demanda 83% das ações existentes neste judiciário.

A lentidão da justiça tem solução? 

- Os números indicam um total atrofiamento do judiciário, e vários fatores levaram a isso, o mais grave, a leniência, a falta de comprometimento com o Estado, a sociedade, nenhum dos judiciários poderiam focar objetivos priorizando o status do juiz e do servidor. Na medida em que abandonaram esses princípios, se estabeleceu um hiato, autoridade/juiz, e a lentidão foi consequente. Esta latente que os administradores dos tribunais, não são afetos a área, o julgador, não está apto a enfrentar questões administrativas que envolvem seus pares devido o corporativismo. Esse é outro grave senão.

Onde está exatamente o gargalo?

- Em 2005 com a EC 45/04 a justiça trabalhista passou a ser cobradora de luxo da União, executando entre outros tributos, os créditos da Previdência Social e da Fazenda. Registro aqui o fato de que os juízes negociaram no Planalto para que a extinção da Justiça do Trabalho, não ocorresse e com isso a União, migrou as ações fiscais para essa justiça. Então contrário de priorizar as ações dos trabalhadores, a Justiça do Trabalho acabou se constituindo num “cartório de luxo”, com estrutura onerosa para cobrar tributos federais. A partir daí, o monocracismo fincou pé na sua imaginária importância política (mais governo, menos trabalhador), já que para barrar a extinção deste judiciário, repito, a moeda de troca foi exatamente à especializada operar a cobrança desses tributos, e ganhando com isso o fortalecimento a blindagem deste judiciário.

Então existe a tal blindagem?

– O judiciário é blindado, existe de fato a cultura do corporativismo, as rusgas que assistimos na TV por assinatura é “jogo de cena”, vemos ali a “fogueira da vaidade”, as divergências sob o ponto de vista do direito, segue uma cultura centenária, colonial de justiça vetusta. A sociedade está muito afastada do judiciário, ele opera como uma casta, o mundo exterior para eles não existe, e isso causa ressentimento nas pessoas, até mesmo aqueles que admiraram os grandes julgadores e juristas estatais, mas não aceitam a pompa, soberba e distanciamento social. A prova disso é que lideranças da cúpula do judiciário vêm se manifestando a favor da democratização e simplicidade do judiciário, tendo como objetivo recuperar o apoio da sociedade.

A demora na solução do processo do trabalho tem solução?

- O Brasil tem uma longa tradição de nação pacificadora. O número de ações trabalhistas cresceu de 2001 de 9 milhões para 15 milhões em 2012, (fonte CNJ). Hoje em dia tudo gera Dano Moral, o advogado do reclamante pede se levar tudo bem! se perder nada acontece, fica por isso mesmo, até porque nessa justiça advogado de hipossuficiente é hipo juridicamente, não sofre punição por enriquecimento sem causa. Prevalece aqui o preciosismo, sentenças que são autenticas obras literárias, rebuscadas, modelão incipiente, decisões conflitantes, avessas às normas legais, execuções eivadas de vícios e nulidades, leilões, praças, arrematação, entendimentos de servidores que se prestam a fazer sentenças para juízes TQQ (que só comparecem nos tribunais terça, quarta e quinta), em flagrante violação a regra administrativa dos tribunais e também da vetusta Lei da Magistratura a Loman. Tudo gera recursos e recursos, e com isso, a ação ganha sobre vida e seu tempo de solução estende por mais anos. Em suma: o que era para ser simples se tornou complexo, judicialização é a palavra de ordem nessa justiça. Diante disso tudo só uma solução, a realização de acordos extrajudiciais através da arbitragem Lei 9.307/04 em turmas compostas por leigos e advogados, que verse sobre temas de natureza indenizatória.

E no futuro você acha que teremos solução?

- O meu filho recém-formado já advoga, ele é o futuro, mas a exemplo dele e aqueles que enfrentam o dia a dia nos tribunais do trabalho e na justiça num todo, padecem e muito. Inúmeras são as queixas, na subseção da OAB Barra onde sou Assessor Especial da Presidência, elas são constantes, desde a violação das prerrogativas dos advogados (art. 133 da CF), a falta de esmero no trato social, e interação com as partes. O caos reinante é nacional, em todas Seccionais temos casos que até “Deus duvida”. As serventias e os juízes do trabalho, “se acham acima de tudo e de todos”, as reclamações dos profissionais são muitas neste sentido. É desconfortável trabalhar num ambiente onde predomina a soberba e a prepotência. Uma simples petição demora meses para ser despachada, e quando o advogado quer falar com o juiz, até menos para exigir a liberação do alvará, que é a sua mais valia, não consegue, tamanha a barreira desumana que se estabeleceu entre judiciário e advocacia.

Seu livro denuncia o tratamento dispensado aos advogados nos tribunais?

- Nos tribunais advogados são advertidos até mesmo por reivindicar o seu direito na defesa do paciente, que se negam a recebê-los. Tudo de forma acintosamente por desembargadores e ministros, numa clara demonstração de desajuste e ausência de humanismo no que tange as relações dos poderes. O resultado é estressante, o autor dificilmente entende que a culpa não é do profissional da advocacia e sim do sistema caótico que ai está. Com boa vontade, digo volenti nihil difficile, fazendo leis fortes e punindo aqueles que as violam, colocando o juiz na condição de servidor, um cidadão a serviço da sociedade, despindo-o da exagerada proteção estatal, engessada, colonial e agressiva aos olhos de todos, creio que em médio prazo teremos um judiciário lapidado a realidade democrática do Estado de Direito, uma verticalização dos princípios, nos níveis que sejam suportáveis. Os movimentos sociais foram às ruas em junho de 2013, para dar um basta nisso tudo que ai está, e o recado também serve para o judiciário brasileiro – “vocês não nos representam” – gritou a comunidade.

*ROBERTO MONTEIRO DE PINHO - Foi diretor de Relações Internacionais da Confederação Geral dos Trabalhadores (CGT), editor do Jornal da Cidade, subeditor do Jornal Tribuna da Imprensa, correspondente internacional, juiz do trabalho no regime paritário no TRT DA 1ª Região (Rio de Janeiro), tendo composto a Sétima e Nona Turmas e a Seção de Dissídios Coletivos - SEDIC, escritor, jornalista, radialista, cursou sociologia, direito, é consultor sindical, no setor privado é diretor de RH, especialista em Arbitragem (Lei 9.307/96). Membro da Associação Sulamericana de Arbitragem - ASASUL, Membro do Clube Jurídico do Brasil, titular da Coluna Justiça do Trabalho do jornal "Tribuna da Imprensa" do RJ, (Tribuna online), subeditor da Tribunaonline, no judiciário brasileiro, através de matérias temáticas, defende a manutenção, modernização e a celeridade na Justiça do Trabalho, e o fim da morosidade, é colunista em 48 dos principais sites trabalhistas e sindicais do País.