Por MARCOS SACRAMENTO - Via DCM -
Nos tempos de jogador de futebol, o técnico Dunga tinha um
estilo de jogo forte, fazia bons lançamentos e era líder em campo. Mas
sendo médio-volante, sua principal missão era destruir as jogadas
adversárias, se necessário com uma botinada. Parece que Dunga sentiu
saudades dos tempos de meio-de-campo e resolveu entrar de sola na
consciência negra ao dizer que seria afrodescendente de tanto que
apanhou e gosta de apanhar.
É verdade que os negros apanharam no passado e continuam
apanhando hoje em dia. Basta analisar as estatísticas de violência para
constatar como elas atingem em maior número a população negra.
Contudo, o técnico Dunga erra feio ao comparar as críticas
inerentes ao trabalho de técnico da Seleção Brasileira que sofre com os
flagelos sofridos pelos negros ao longo da história. Lembrou Pelé e
suas frases equivocadas sobre o racismo.
Ao afirmar que negros gostam de apanhar, Dunga indica que
precisa urgente de umas lições de história. Será que ele acredita que os
quase 4 milhões de africanos vieram trabalhar como escravos no Brasil
por vontade própria? Ou que os escravos provocavam os feitores para
sentirem os chicotes rasgando suas carnes?
Por ser técnico da seleção de futebol de um país onde a
maioria da população é negra, seria interessante que Dunga procurasse
conhecer como a participação dos negros na formaçao do Brasil foi
trágica e dolorosa. Deveria saber, inclusive, que os negros não eram
passivos e promoviam revoltas ou recorriam ao suicídio para escapar da
opressão.
Se negros gostassem de apanhar, como afirmou, não teríamos
personagens históricos como João Cândido, líder da Revolta da Chibata,
motim de marinheiros ocorrida em 1910 pelo fim dos castigos físicos nos
navios. Naquela época, a maioria dos marujos era negra.
Diante da repercussão negativa do comentário, Dunga correu
para dar uma resposta ao mal entendido. “Quero me desculpar com todos
que possam se sentir ofendidos com a minha declaração sobre os
afrodescendentes. A maneira como me expressei não reflete os meus
sentimentos e opiniões”, escreveu no site da CBF.
Uma nota curta e direta, coisa de quem não quer
problematizar a conversa. No jargão futebolístico, daria para dizer que
ele tirou o pé na hora da dividida. Melhor assim que se alongar em um
assunto que ignora e aumentar lista de asneiras, correndo o risco de
igualar-se ao Rei Pelé.



