Por CARLA LESSA - Via e-mail do site -
A corrupção costuma desenganar nossa brasilidade. Eleitas ao câncer dos mamilos, as instituições não têm mais por onde ser sugadas. Onde a ética resiste pulsar, ainda que convalescente, novos tumores sangram a saúde política e civil.
Estancar o agravo, não há mais como. Avançamos em direção ao topo de esquemas deletérios, enquanto a mídia revela saudáveis sanguessugas, delatando comparsas, em troca dos benefícios amenizadores de agravantes e penas.
Motivados a conter a ação corrosiva, negociamos com canalhas infiltrados nos partidos políticos, nas estatais, nas empresas, nos sindicatos, no futebol e nos poderes.
O desfecho das punições (se e quando houver) não resultará em contenção de danos. Estes já foram lançados e seus efeitos sopram o contágio, há décadas. Como resistentes à poeira nuclear, a quadrilha aprendeu a fortalecer seus esquemas, mantendo-se inócua quanto às medidas judiciais – aplicadas ineficazmente, na tentativa de prevenir deformidades relacionadas aos novos casos.
Como em toda doença hereditária, o Brasil está sob o comando de gerações (de direita e esquerda), especializadas no desvio do dinheiro público. Não será a cassação da Dilma o êxito da cura. Discursar em favor do impeachment, interessa a quem? O caso é crônico e o organismo enfraquece somado aos erros da Presidência. No entanto, até que ponto somos responsáveis por permitirmos que vermes como estes ocupem os espaços, onde legitimados estão a poder decidir por nós?
A ideia de que somos responsáveis por elegermos os nossos próprios algozes é um discurso covarde do modelo liberal para justificar reparte de responsabilidades. Entre o capital e a decisão dos indivíduos, há forças poderosas que influenciam o voto e a capacidade de escolha.
Não é à toa que o investimento das grandes empresas nas campanhas eleitorais ajuda a decidir o resultado. Influenciam no marketing, nas pesquisas, no lobby dos poderes, na composição dos governos, na formação de Ministérios e até nas medidas do Estado. Raras empresas se envolvem por apostar no desenvolvimento da nação e, em sua grande maioria, lá estão para manter os esquemas por onde o dinheiro é destinado aos lucros ou paraísos fiscais.
A reforma política propõe o corte de financiamento - medida que não salva o Estado do vício da corrupção, mas reduz nos processos eleitorais a fixação de acordos envolvendo a compensação dos gastos de campanha, intimamente ligados ao vampirismo das verbas públicas.



