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| No surpreendente “O lobo atrás da porta”, Fernando Coimbra explora tensões entre realidade e ficção, em meio a leitura provocadora do Brasil contemporâneo. |
Na avalanche de títulos que estão entrando em cartaz neste último fim
de semana antes da Copa, merecem destaque dois excelentes filmes
brasileiros: Riocorrente, de Paulo Sacramento, e O lobo atrás da porta, de Fernando Coimbra. Sobre o primeiro, escrevi aqui por ocasião de sua exibição no Festival de Brasília. Vamos então ao segundo.
Ambientado nos dias de hoje no subúrbio do Rio de Janeiro, O lobo
pode ser enquadrado, grosso modo, no gênero policial. Há um crime (o
sequestro de uma criança), há suspeitos, há uma investigação para
descobrir o que aconteceu. Sem perder o fio da tensão e do suspense, o
filme transcende os limites e convenções do gênero por vários lados.
O tempo presente da narrativa é o do inquérito policial: um
delegado (Juliano Cazarré) interroga parentes da vítima, suspeitos,
testemunhas. Reconstituem-se então os acontecimentos em sucessivos flashbacks,
a partir dos diversos depoimentos. Só que, embora encenadas sempre com a
mesma densidade realista, nem todas as versões são “verdadeiras” (se é
que alguma é). Resulta daí que temos flashbacks falsos, à maneira do que acontecia no clássico Testemunha de acusação, de Billy Wilder.
A ficção de cada um
Esse, a meu ver, é um dos pontos de maior interesse do filme. É significativo que seu título aluda a uma fábula (aliás, a duas: Chapeuzinho vermelho e Os três porquinhos),
pois é de fabulação que se trata aqui. Todos os personagens, em alguma
medida, inventam, fantasiam, fabulam. É como se não existisse uma
realidade última, mas apenas versões dela. A própria memória, como
sabemos, encerra em si um bocado de ficção.
Mas que não se pense, com base no que foi dito, que se trata de um
exercício de estilo, de uma especulação abstrata sobre a “construção
cinematográfica da mentira” ou coisa que o valha. Pelo contrário. O
Brasil de hoje, ou uma leitura bastante pertinente do Brasil de hoje,
transpira no filme por todos os poros, isto é, por todas as imagens e
falas, ainda que de modo oblíquo e sutil, amalgamado à eletrizante trama
central de sequestro, adultério, aborto, falsa identidade e crime
passional.
Chama a atenção a segurança – surpreendente para um estreante em
longa-metragem – com que Fernando Coimbra mantém vivo o suspense sem
lançar mão dos recursos e muletas mais vulgares do gênero (a montagem
sôfrega, a música enfática, o sangue, os sustos). Em vez de manipular o
olhar e a emoção do espectador com esse tipo de truque, ele aposta na
sua participação ativa. Em vez de apostar nos cortes e no pingue-pongue
rotineiro do campo/contracampo, constrói elaborados planos-sequências
que abarcam a cena em toda a sua riqueza, graças a uma utilização
admirável da profundidade de campo.
Integridade da ação
Um exemplo notável é o plano de três minutos em que uma personagem
(tenho que ser vago para não entregar a história) entra em casa à noite e
caminha até a cozinha, passando pelos pais que estão na sala. Um
espelho na parede divide o quadro em duas partes. Na parte da direita
vemos a tal personagem encher um copo d’água e sentar-se diante dele à
mesa, pensativa. Na metade da esquerda, pelo espelho, vemos seus pais na
sala. Alguém toca a campainha, a mãe abre a porta, aparecem no fundo do
quadro as luzes giratórias de um carro de polícia. Num filme
convencional, essa cena seria retalhada numa dúzia de planos. Em O lobo ela é mantida em sua perturbadora integridade. A câmera se move muito pouco, e com sutileza. O efeito é poderoso.
Entre parênteses: pelo modo como articula o gênero policial com um
estudo de personagens e de emoções, pela construção retrospectiva e
lacunar da narrativa, pela inteligência da mise-en-scène, O lobo se aproxima, de certa forma, do também carioca No meu lugar, de Eduardo Valente. Fecha parêntese.
Cabe uma última palavra sobre a qualidade do elenco, em que a atuação
terra a terra da ótima Fabiula Nascimento alimenta de certo modo a
densidade trágica de Leandra Leal. Entre as duas, Milhem Cortaz, despido
dos excessos histriônicos de outros trabalhos, oscila convincentemente
entre a fragilidade e a energia bruta.
Não há vilões nem heróis em O lobo atrás da porta. O que ele nos mostra de mais terrível é que não é preciso ser um monstro para cometer monstruosidades.



