HELIO FERNANDES -
Cada uma dessas cinco palavras, se não pode ser definida pela distância da eleição, pelo menos revela a perplexidade geral. O clima nem é de pessimismo ou de otimismo e sim de desespero, a última palavra do título, mas a mais elucidativa.
A pesquisa teve um efeito positivo, não para mostrar quem vai ganhar ou perder, quem pode ganhar ou perder, mas sim para definir o clima que domina o cidadão-contribuinte-eleitor. Desespero total expresso na definição ou na indefinição, provocando outra das palavras, desesperança.
Mudanças já, mas como?
68 por cento querem que tudo se modifique, não existe um item positivo, tudo é incerteza. Categóricos, não admitem que as coisas continuem como estão. E mais irrefutável, “dois terços exigem mudanças, SEM A PARTICIPAÇÃO DE DONA DILMA”.
Reprovação inabalável, mas como transferir essa convicção, colocando na urna uma expressão nada representativa? E se dona Dilma erra desde o início, tentou construir imagem de “gerentona”, que ela mesma deixou visível que é apenas doloroso e dolorida? (Outras duas palavras do título). Que no máximo, no máximo, deixa o cidadão dormente pela inexistência de fórmulas mágicas.
Mudanças sem Dilma, mas com quem?
Esses supostos, lentos e sem qualquer credibilidade, adversários, ficaram no limbo, a pesquisa não favoreceu nem de longe Aécio, Campos ou Dona Marina. 36 por cento: “Votaremos em branco, anularemos o voto, não sabemos em quem votar”. A explicação para o veto explícito e implícito a esses três presumíveis candidatos, “é que não conhecem nenhum deles”.
Desconhecidos depois de longa exposição
Aécio foi presidente da Câmara, oito anos governador de Minas, é senador desde 2010 (três anos, quase quatro) e ninguém sabe quem é? Alguns têm certeza de que é neto de Tancredo Neves, que foi reverenciado anteontem, data em que morreu sem tomar posse como presidente.
Aécio vivo e sem posse, idem para Marina e Campos
Como o senador e ex-governador pode se lançar do alto de uma pirâmide que eleitoralmente tem apenas 50 centímetros de altura? Dona Marina e Campos estão na mesma situação. Campos também é neto, é uma candidatura nada nova mas genética. Ninguém acredita que foi deputado federal, quase oito anos governador, aliado de Lula e Dona Dilma. Resolveu se separar dos dois no limite político e eleitoral, considerou que isso seria ótimo na campanha.
No PSB, o segundo na frente do primeiro
Nem sei se com outras pesquisas Campos, sem sair do lugar na preferência do eleitor, pode continuar como “cabeça” de uma chapa que não consegue se afirmar. Dona Marina não é neta, política e eleitoralmente pode até ser avó. Já vai longe o tempo de senadora e de ministra, sob o manto do próprio Lula. Não deixou o lugar marcado.
Dona Dilma: “Ninguém aguenta mais 4 anos disso”
Não é de agora e sim de muito tempo que digo isso. Desde o primeiro ano de governo quando teve que demitir sete ministros. Flagrante do que ela adora identificar com “malfeitos”. Mas todos voltaram por si ou pelos partidos. Cada vez mais medíocre como administradora, essa realidade agravada pela incompetência geral.
Lula à espreita, ele e Dilma, diálogo tórrido
O ex cada vez mais convencido de que pode voltar agora e não em 2018. Daqui a quatro anos e meio é preciso muita confiança e esperança para que tudo aconteça como ele quer. É evidente que sabe disso, mas a chamada “operação de troca”, apresenta dificuldades que não foram analisadas em profundidade.
Querendo ou não querendo, (hoje o “vazamento” é uma instituição nacional), se torna público que é impossível chamar de “diálogos” os encontros Lula-Dilma. São cada vez mais comuns pela fragilidade de Dona Dilma e pela inexistência dos adversários. Assim como está, Dona Dilma pode cair mais, ainda será vencedora.
Caminhos para o segundo impeachment?
Não existe uma possibilidade em um milhão desses 68 por cento que querem mudanças sem Dilma, encontrarem abrigo político ou eleitoral em Aécio, Campos, Marina. E esses todos, multidão que votará em branco ou anulará o voto, difícil que se identifiquem e votem num dos outros três.
Cada uma dessas cinco palavras, se não pode ser definida pela distância da eleição, pelo menos revela a perplexidade geral. O clima nem é de pessimismo ou de otimismo e sim de desespero, a última palavra do título, mas a mais elucidativa.
A pesquisa teve um efeito positivo, não para mostrar quem vai ganhar ou perder, quem pode ganhar ou perder, mas sim para definir o clima que domina o cidadão-contribuinte-eleitor. Desespero total expresso na definição ou na indefinição, provocando outra das palavras, desesperança.
Mudanças já, mas como?
68 por cento querem que tudo se modifique, não existe um item positivo, tudo é incerteza. Categóricos, não admitem que as coisas continuem como estão. E mais irrefutável, “dois terços exigem mudanças, SEM A PARTICIPAÇÃO DE DONA DILMA”.
Reprovação inabalável, mas como transferir essa convicção, colocando na urna uma expressão nada representativa? E se dona Dilma erra desde o início, tentou construir imagem de “gerentona”, que ela mesma deixou visível que é apenas doloroso e dolorida? (Outras duas palavras do título). Que no máximo, no máximo, deixa o cidadão dormente pela inexistência de fórmulas mágicas.
Mudanças sem Dilma, mas com quem?
Esses supostos, lentos e sem qualquer credibilidade, adversários, ficaram no limbo, a pesquisa não favoreceu nem de longe Aécio, Campos ou Dona Marina. 36 por cento: “Votaremos em branco, anularemos o voto, não sabemos em quem votar”. A explicação para o veto explícito e implícito a esses três presumíveis candidatos, “é que não conhecem nenhum deles”.
Desconhecidos depois de longa exposição
Aécio foi presidente da Câmara, oito anos governador de Minas, é senador desde 2010 (três anos, quase quatro) e ninguém sabe quem é? Alguns têm certeza de que é neto de Tancredo Neves, que foi reverenciado anteontem, data em que morreu sem tomar posse como presidente.
Aécio vivo e sem posse, idem para Marina e Campos
Como o senador e ex-governador pode se lançar do alto de uma pirâmide que eleitoralmente tem apenas 50 centímetros de altura? Dona Marina e Campos estão na mesma situação. Campos também é neto, é uma candidatura nada nova mas genética. Ninguém acredita que foi deputado federal, quase oito anos governador, aliado de Lula e Dona Dilma. Resolveu se separar dos dois no limite político e eleitoral, considerou que isso seria ótimo na campanha.
No PSB, o segundo na frente do primeiro
Nem sei se com outras pesquisas Campos, sem sair do lugar na preferência do eleitor, pode continuar como “cabeça” de uma chapa que não consegue se afirmar. Dona Marina não é neta, política e eleitoralmente pode até ser avó. Já vai longe o tempo de senadora e de ministra, sob o manto do próprio Lula. Não deixou o lugar marcado.
Dona Dilma: “Ninguém aguenta mais 4 anos disso”
Não é de agora e sim de muito tempo que digo isso. Desde o primeiro ano de governo quando teve que demitir sete ministros. Flagrante do que ela adora identificar com “malfeitos”. Mas todos voltaram por si ou pelos partidos. Cada vez mais medíocre como administradora, essa realidade agravada pela incompetência geral.
Lula à espreita, ele e Dilma, diálogo tórrido
O ex cada vez mais convencido de que pode voltar agora e não em 2018. Daqui a quatro anos e meio é preciso muita confiança e esperança para que tudo aconteça como ele quer. É evidente que sabe disso, mas a chamada “operação de troca”, apresenta dificuldades que não foram analisadas em profundidade.
Querendo ou não querendo, (hoje o “vazamento” é uma instituição nacional), se torna público que é impossível chamar de “diálogos” os encontros Lula-Dilma. São cada vez mais comuns pela fragilidade de Dona Dilma e pela inexistência dos adversários. Assim como está, Dona Dilma pode cair mais, ainda será vencedora.
Caminhos para o segundo impeachment?
Não existe uma possibilidade em um milhão desses 68 por cento que querem mudanças sem Dilma, encontrarem abrigo político ou eleitoral em Aécio, Campos, Marina. E esses todos, multidão que votará em branco ou anulará o voto, difícil que se identifiquem e votem num dos outros três.
A perspectiva ou a expectativa de um novo impeachment
nem à novidade. Assim com o voto obrigatório, todos terão perdido o tempo indo
votar em 5 de outubro.
E se isso acontecer, QUEM ou O QUÊ virá depois? Nova ditadura ou uma democracia cheia de ASPAS e PAETÊS? Cada vez com mais corrupção e desadministração e a costumeira ambição?
Hoje, feriado no Rio, a Bovespa funciona
Desde 1996, no vibrante escândalo da Bolsa do Rio, esta desapareceu. Era o governo de FHC, um dos seus ministros (dos mais íntimos e comensais, que palavra) foi demitido quando depunha no senado. Não foi excesso de ética do presidente e sim exigência de Pedro Simon.
O Rio praticamente um dos centros importantíssimos do país, não tem mais mercado. Os investidores daqui enriquecem a Bolsa de lá. É que os vereadores do Rio-Capital, muito católicos, criaram o feriado que nem se estende ao estado. Podiam reverenciar o “santo guerreiro”, trabalhando.
A falta de sensibilidade da Ministra Rosa Weber
O país todo gira ao redor da CPI da Petrobras. A discussão é esta: Pode haver CPI múltipla, ou a Constituição determina que haja “fato determinado”, e isso nem precisa de muito estudo.
Além, do mais, nunca houve em toda a História, CPI ampla ou múltipla, como estão rotulando. Mesmo que a ministra considere que pode haver essa CPI-vingança, que trouxesse essa conclusão.
Pelo menos seria uma conclusão, governo e oposição decidiriam como se adaptar. Esconder os fatos, não decidir, não contribuir positivamente para a biografia de ninguém. No caso, data vênia, de Rosa Weber.
PS – Gabriel García Márquez teve a despedida que merecia e conquistou com seu trabalho extraordinário. Colocado justamente como o maior escritor do seu tempo, e sem exagero, de todos os tempos.
PS2 – “Cem Anos de Solidão”, além da história extraordinária, é contada de forma assombrosa, envolvente, fascinante. Confirmando aquilo que o próprio García Márquez confessava: “Sou um contador de Histórias”. Era mesmo.
PS3 – E ensinou gerações a contar histórias, não com a grandeza e a invencibilidade da sua literatura. Embora ele mesmo dissesse “não sou um escritor, nem sei o que é literatura”, suas histórias estavam dentro dele. Mas quando saíam, eram escritas e entregues ao povo, que texto.
PS4 – Saíam e ganhavam o mundo quando ele as libertava. Criava palavras, cidades, mudava nomes. Em “Cem Anos de Solidão”, citou os mais diversos amigos, às vezes com nomes trocados, mas todos sabiam que estavam ali.
PS5 – Seu primeiro livro, e o mais famoso (e comprado) de todos, foi recusado pelas mais diversas editoras. Uma delas, das menores, de Buenos Aires, aceitou, publicou, teve o retorno de 30 milhões de exemplares. García Márquez, simples, sem a menor arrogância, galante e atraente, dominou o mundo, fosse onde fosse. Muito disso foi reconhecido ao ir embora.
PS6 – Fisicamente foi um sofredor. No fim dos anos 70, quase aos 50 anos, teve “câncer linfático”, ficou cinco anos nos EUA se tratando. Os médicos ao libertá-lo, disseram: “Desta o senhor está livre”. Mas não de outras, como a doença degenerativa que o matou.
PS7 – E foi terrível, injusta, deprimente, atingindo-o principalmente no que era toda sua potência: a palavra. Ficou sem voz e sem poder escrever, um fim inacreditável para quem viveu contando as histórias que liberava dele mesmo. Sem falar e sem escrever, o que fazer com essas histórias?
PS8 – A parte triste e até lamentável, praticada principalmente por exibicionistas da televisão e até de grandes jornais, foi o “relato” de sua ideologia. Chegaram a dizer aqui no Brasil, na quinta, na sexta e no sábado, “é bonito ver um homem como García Márquez no Partido Comunista, militando”.
PS9 – Absurdo completo. De tanto insistirem, uma vez declarou: “Jamais pertenci a qualquer partido, nunca pertencerei a nenhum. Minha vida está acima de partidos”. Esqueceram, ou mais grave, escreveram sem ler o que ele escreveu.
PS10 – Conheci Gabriel García Márquez cinco anos depois de ter ganho o Prêmio Nobel. Em 1987, Fidel Castro organizou um Seminário sobre dívida externa, um grande assunto naquela época. Convidou 2 mil pessoas, da América Latina, EUA, Europa.
PS11 – O representante de Cuba no Brasil me procurou no jornal, me convidou. Respondi: “Já estive várias vezes em Cuba, 1960, quando em campanha eleitoral, Jânio esteve lá. Aceito se eu estiver inscrito para falar”.
PS12 – Resposta: “São muitos convidados, tenho que consultar”. Uma semana depois voltou, me disse: “O senhor vai falar 12 minutos, como todos”. Fui, passagem e estadia por conta do jornal, o convite era apenas para participar. Comigo, o grande jornalista Argemiro Ferreira, correspondente da Tribuna nos EUA.
PS13 – Foi um espetáculo. Do Brasil, 51 convidados, incluindo Lula, que ainda não disputara a primeira presidência. Mas ficou numa “residência de luxo, apartado”, onde moravam os ricaços da Cuba capitalista. Dos 51 brasileiros, falaram dois: eu e Luiz Carlos Prestes.
PS14 – A “mesa” era composta de mais de 40 personalidades: Fidel, García Márquez, Isabel Allende, Pérez Esquivel, jamais entendi porque ele ganhou um “Prêmio Nobel da Paz”.
PS15 - García Márquez controlava o tempo com uma campainha. Chegados aos 12 minutos, apertava a campainha. A tribuna era perto da mesa principal, quando eu chegava aos 12 minutos, e García Márquez ia apertar a campainha, Fidel segurou sua mão, “deixa ele falar mais um pouco, conhece mesmo o assunto”. Falei 16 minutos, sabia tudo sobre essa dívida amaldiçoada, que continua.
PS16 – Ficamos lá mais ou manos 10 dias, conversamos com Fidel, o mesmo que acontecia em 1960 com Fidel, Guevara. Um dia, sozinho com Gabriel García Márquez, perguntei: “Desculpe, sou diretor de jornal, mas acima de tudo, repórter, você é comunista?”, não se aborreceu.
PS17 – Resposta tranqüila: “Minha amizade com Fidel é puramente intelectual, só conversamos sobre literatura”. Publiquei, claro, outros fizeram várias vezes a mesma pergunta, obrigatória. Fidel, sem afirmar, alimentava a falsa idéia sobre a suposta ideologia de García Márquez.
PS18 – Posso contar muito mais coisas, como contei em 1960, quando estive lá com Jânio. Nessa época, eu ainda não era da Tribuna, fazia artigo e coluna diária no Diário de Notícias, o primeiro a fazer isso no Brasil e no mundo.
PS19 – O grande escritor era um revoltado contra a miséria, a pobreza, a indignidade praticada contra multidões. Mas também sabia que o comunismo não melhorou nem vai melhorar coisa alguma.
PS20 – Quase 7 bilhões de pessoas no mundo, muito menos da metade recebe o título e a condição de cidadão. São párias, García Márquez sabia disso. E se revoltava. No fim da vida, inapelavelmente silencioso.
E se isso acontecer, QUEM ou O QUÊ virá depois? Nova ditadura ou uma democracia cheia de ASPAS e PAETÊS? Cada vez com mais corrupção e desadministração e a costumeira ambição?
Hoje, feriado no Rio, a Bovespa funciona
Desde 1996, no vibrante escândalo da Bolsa do Rio, esta desapareceu. Era o governo de FHC, um dos seus ministros (dos mais íntimos e comensais, que palavra) foi demitido quando depunha no senado. Não foi excesso de ética do presidente e sim exigência de Pedro Simon.
O Rio praticamente um dos centros importantíssimos do país, não tem mais mercado. Os investidores daqui enriquecem a Bolsa de lá. É que os vereadores do Rio-Capital, muito católicos, criaram o feriado que nem se estende ao estado. Podiam reverenciar o “santo guerreiro”, trabalhando.
A falta de sensibilidade da Ministra Rosa Weber
O país todo gira ao redor da CPI da Petrobras. A discussão é esta: Pode haver CPI múltipla, ou a Constituição determina que haja “fato determinado”, e isso nem precisa de muito estudo.
Além, do mais, nunca houve em toda a História, CPI ampla ou múltipla, como estão rotulando. Mesmo que a ministra considere que pode haver essa CPI-vingança, que trouxesse essa conclusão.
Pelo menos seria uma conclusão, governo e oposição decidiriam como se adaptar. Esconder os fatos, não decidir, não contribuir positivamente para a biografia de ninguém. No caso, data vênia, de Rosa Weber.
PS – Gabriel García Márquez teve a despedida que merecia e conquistou com seu trabalho extraordinário. Colocado justamente como o maior escritor do seu tempo, e sem exagero, de todos os tempos.
PS2 – “Cem Anos de Solidão”, além da história extraordinária, é contada de forma assombrosa, envolvente, fascinante. Confirmando aquilo que o próprio García Márquez confessava: “Sou um contador de Histórias”. Era mesmo.
PS3 – E ensinou gerações a contar histórias, não com a grandeza e a invencibilidade da sua literatura. Embora ele mesmo dissesse “não sou um escritor, nem sei o que é literatura”, suas histórias estavam dentro dele. Mas quando saíam, eram escritas e entregues ao povo, que texto.
PS4 – Saíam e ganhavam o mundo quando ele as libertava. Criava palavras, cidades, mudava nomes. Em “Cem Anos de Solidão”, citou os mais diversos amigos, às vezes com nomes trocados, mas todos sabiam que estavam ali.
PS5 – Seu primeiro livro, e o mais famoso (e comprado) de todos, foi recusado pelas mais diversas editoras. Uma delas, das menores, de Buenos Aires, aceitou, publicou, teve o retorno de 30 milhões de exemplares. García Márquez, simples, sem a menor arrogância, galante e atraente, dominou o mundo, fosse onde fosse. Muito disso foi reconhecido ao ir embora.
PS6 – Fisicamente foi um sofredor. No fim dos anos 70, quase aos 50 anos, teve “câncer linfático”, ficou cinco anos nos EUA se tratando. Os médicos ao libertá-lo, disseram: “Desta o senhor está livre”. Mas não de outras, como a doença degenerativa que o matou.
PS7 – E foi terrível, injusta, deprimente, atingindo-o principalmente no que era toda sua potência: a palavra. Ficou sem voz e sem poder escrever, um fim inacreditável para quem viveu contando as histórias que liberava dele mesmo. Sem falar e sem escrever, o que fazer com essas histórias?
PS8 – A parte triste e até lamentável, praticada principalmente por exibicionistas da televisão e até de grandes jornais, foi o “relato” de sua ideologia. Chegaram a dizer aqui no Brasil, na quinta, na sexta e no sábado, “é bonito ver um homem como García Márquez no Partido Comunista, militando”.
PS9 – Absurdo completo. De tanto insistirem, uma vez declarou: “Jamais pertenci a qualquer partido, nunca pertencerei a nenhum. Minha vida está acima de partidos”. Esqueceram, ou mais grave, escreveram sem ler o que ele escreveu.
PS10 – Conheci Gabriel García Márquez cinco anos depois de ter ganho o Prêmio Nobel. Em 1987, Fidel Castro organizou um Seminário sobre dívida externa, um grande assunto naquela época. Convidou 2 mil pessoas, da América Latina, EUA, Europa.
PS11 – O representante de Cuba no Brasil me procurou no jornal, me convidou. Respondi: “Já estive várias vezes em Cuba, 1960, quando em campanha eleitoral, Jânio esteve lá. Aceito se eu estiver inscrito para falar”.
PS12 – Resposta: “São muitos convidados, tenho que consultar”. Uma semana depois voltou, me disse: “O senhor vai falar 12 minutos, como todos”. Fui, passagem e estadia por conta do jornal, o convite era apenas para participar. Comigo, o grande jornalista Argemiro Ferreira, correspondente da Tribuna nos EUA.
PS13 – Foi um espetáculo. Do Brasil, 51 convidados, incluindo Lula, que ainda não disputara a primeira presidência. Mas ficou numa “residência de luxo, apartado”, onde moravam os ricaços da Cuba capitalista. Dos 51 brasileiros, falaram dois: eu e Luiz Carlos Prestes.
PS14 – A “mesa” era composta de mais de 40 personalidades: Fidel, García Márquez, Isabel Allende, Pérez Esquivel, jamais entendi porque ele ganhou um “Prêmio Nobel da Paz”.
PS15 - García Márquez controlava o tempo com uma campainha. Chegados aos 12 minutos, apertava a campainha. A tribuna era perto da mesa principal, quando eu chegava aos 12 minutos, e García Márquez ia apertar a campainha, Fidel segurou sua mão, “deixa ele falar mais um pouco, conhece mesmo o assunto”. Falei 16 minutos, sabia tudo sobre essa dívida amaldiçoada, que continua.
PS16 – Ficamos lá mais ou manos 10 dias, conversamos com Fidel, o mesmo que acontecia em 1960 com Fidel, Guevara. Um dia, sozinho com Gabriel García Márquez, perguntei: “Desculpe, sou diretor de jornal, mas acima de tudo, repórter, você é comunista?”, não se aborreceu.
PS17 – Resposta tranqüila: “Minha amizade com Fidel é puramente intelectual, só conversamos sobre literatura”. Publiquei, claro, outros fizeram várias vezes a mesma pergunta, obrigatória. Fidel, sem afirmar, alimentava a falsa idéia sobre a suposta ideologia de García Márquez.
PS18 – Posso contar muito mais coisas, como contei em 1960, quando estive lá com Jânio. Nessa época, eu ainda não era da Tribuna, fazia artigo e coluna diária no Diário de Notícias, o primeiro a fazer isso no Brasil e no mundo.
PS19 – O grande escritor era um revoltado contra a miséria, a pobreza, a indignidade praticada contra multidões. Mas também sabia que o comunismo não melhorou nem vai melhorar coisa alguma.
PS20 – Quase 7 bilhões de pessoas no mundo, muito menos da metade recebe o título e a condição de cidadão. São párias, García Márquez sabia disso. E se revoltava. No fim da vida, inapelavelmente silencioso.


