HELIO FERNANDES –
Exatamente há 50 anos, João Goulart fazia o discurso da
suposta “reforma de base”. Na verdade era a tentativa de continuar no Poder, sem
reeleição. Acreditavam que conseguiriam politicamente. Ou pela força. Nem uma
coisa nem outra.
Reeleição não estava na pauta de ninguém desde a
República. FHC, esperto mas pusilânime, comprou e continuou no Poder, 35 anos
depois do fracasso de Jango.
Quando acabou de falar, o general Assis Brasil, Chefe
da Casa Militar, sussurrou para o presidente: “temos 95 por cento das Forças
Armadas”.
Dentro
de 15 dias, 50 anos de outro comício chato e fracassado
Dia 28 do mesmo março, mudou o cenário: em vez de ser
na rua, em frente ao comando do Exército, usaram a sede do Automóvel Clube.
Edifício clássico e “tombado”. Jango, muito distante de ser clássico, em vez de
ser “tombado”, foi derrubado, mergulhou o país numa ditadura de 21 anos.
Dia
30 de março, o vexame do apelo a Kruel, pela televisão
Desesperado, já sem destino e sem rumo, 24 horas antes
de ter que deixar o Poder, já não existia nem exercia mais nada, telefonou para
o comandante do II Exército, Amaury Kruel. Caiu sem “gloria nem honra”, pediu a
um dos líderes da sua derrubada, “para mantê-lo como presidente”.
Com o maior desapreço, desprezo e desinteresse, Kruel
respondeu: “Se livre dos comunistas que dominam seu governo, que vou mantê-lo
como presidente”. E desligou. Na verdade, o projeto de Poder de Jango era
pessoal. Se existiam alguns comunistas “por perto”, eram apenas coadjuvantes,
seriam enganados, logo, logo.
Os
erros colossais de Jango
Esse “diálogo” na TV está todo nos arquivos, foi
travado ao vivo. Mas é preciso lembrar, resumidamente, que Jango e Kruel, já
haviam se confrontado em 1952, 12 anos antes.
Jango,
Ministro do Trabalho, deposto por um Manifesto de coronéis
Desinformado e ávido de poder, dobrou o salário mínimo.
Era da sua competência, isso nem se discute. Mas estabanado, estouvado,
isolado, divulgou o aumento no Diário Oficial. 48 horas depois, os jornais
publicavam o que entrou na História como o “Manifesto dos coronéis”.
69 deles, a primeira assinatura era do próprio Amaury
Kruel: “Exigiam a demissão do Ministro”. Jango e o presidente Vargas, já em
plena crise, decidiram que o ministro devia deixar o cargo. Deixou.
Jango
promove Kruel
Em 10 anos, desses 69 coronéis, 18 se tornaram
importantes generais na ativa. 20 ou 25 tiveram relativo sucesso, chegaram ao
posto de general, por pouco tempo. Os outros “desapareceram”, a vida é assim,
para civis ou militares.
Chegando a presidente em 1960, Jango já encontrou Kruel
como general. Mas não percebeu que nomeá-lo seguidamente Chefe da Casa Militar,
Ministro do Exército, general de quatro Estrelas, comandante do importante II
Exército, era o mesmo que antecipadamente, fortalecer e se render ao inimigo.
Foi o que aconteceu.
A
vida com convicção
Mas diante de tantas primarices, não podia “apelar”
para esse mesmo Kruel. Preso com Carlos Lacerda, ele apelou através dos filhos
para 3 amigos. O Cardeal Don Eugênio, o general Sizeno Sarmento, que foi seu
secretário de Segurança, e o “governador” de São Paulo, Abreu Sodré. Tudo isso
para ser solto, o que aconteceu.
Mas antes de ir embora no dia 21 de dezembro, teve que
me ouvir: “Carlos, quem está preso, não pede nem concede nada”. Não gostou mas
era verdade. Eu, Mario Lago e Osvaldo Peralva, diretor do Correio da Manhã,
passamos o Natal e o Ano Novo na prisão. Os generais, quase todos torturadores
ou adeptos da tortura mas muito católicos, nos libertaram em 6 de janeiro, “Dia
dos Reis”.
Café
Filho, pediu ao Supremo para mantê-lo
Terminando, por hoje, apenas hoje, um episódio
fascinante, elucidativo e definitivo. Vice de Vargas, quando este “deixou a
vida para entrar na História”, assumiu mas sem força nenhuma. Habilíssimo, mas
numa situação insustentável, foi para o hospital. Seu brilhante (depois
excelente presidente da OAB) advogado, entrou com Mandado de Segurança, (perdeu
antes o Habeas-Corpus, para voltar à presidência).
O relator, Nelson Hungria, de pé e de improviso num
fundamentado voto, negou o pedido. Eu estava na primeira fila, (o Supremo ainda
estava no Rio) sentado entre duas notáveis figuras: Dario de Almeida Magalhães,
que 24 anos depois assinaria a ação da Tribuna contra Médici e contra Geisel, e
Milton Campos, governador, senador, Ministro.
Como Café Filho, presidente afastado do cargo, pedia ao
Supremo, um Poder desarmado, para mantê-lo no Poder, Campos comentou: “se eu
fosse relator, negaria porque pediu”. Lucidíssimo.
O
PMDB não quer romper, apenas hostilizar Dona Dilma
No sábado escrevi uma nota-comentário sobre a
mobilização do partido, com o seguinte título: “Eduardo Cunha tem poder? Ou estão
usando apenas seu nada santo nome em vão?”.
O líder do PMDB não foi chamado para nada nas reuniões
de domingo e segunda feira. Terminei, dizendo, “ele nem se aborreceu”.
Era parte da farsa, que respondeu na terça feira, bem
tarde. E o plenário da Câmara tão cheio, que Eduardo Cunha, sem conversar com
ninguém do Senado obteve 267 votos, derrotou Dona Dilma. Só precisava de 257
votos, esses 10 a mais, “gozação” com a presidente.
Dona
Dilma: “Essa votação não significa derrota”
Foi derrota para ela, não faz mal. Só que atingiram
mais uma vez a Petrobras. Iam criar uma CPI, acharam melhor e “mais turístico”,
mudar o nome, ficou, “Comissão Externa para investigar a Petrobras”. Com
simples mudança de nome, quanta gente viajará para a Europa.
A denúncia do pagamento de “comissão” ou “propina” a
altos funcionários, veio da Holanda, que até Eduardo Cunha sabe, fica na
Europa. Não sou contra a investigar suposta corrupção. Mesmo sobre a Petrobras.
Mas alguns desses investigadores, mais perigosos do que a denúncia.
O
Supremo tenta examinar a questão da aviação comercial
O presidente abriu a sessão às 14h40 e como relator,
começou a falar. Às 16h, portanto tendo falado por mais de 1 hora e 20 minutos,
continuava às 16h10 concluiu contra o direito da Varig. Disse que a Varig passou a ser importante em 1985, com
Sarney no governo. Ora, em 1955, Varig e Panair as maiores empresas de aviação
do Brasil, ou as únicas. Quando o presidente eleito e não empossado, JK,
resolveu, viajar pelo mundo, Varig e Panair, quiseram transportá-lo. JK, “deu
uma de Salomão”, decidiu: “Vou numa empresa e volto na outra. Vocês decidem”.
Votou depois Cármen Lúcia, relatora que voltou como já
votara em 2013. Os ministros
examinarão três “embargos infringentes”, terminando o mensalão. Isso se tiverem
tempo.
Todos os Ministros votaram, sendo que contra a Varig,
só o presidente Joaquim Barbosa e o Ministro Gilmar Mendes. A sessão foi
encerrada as 18h15 com uma vitória espetacular, que terá certamente repercussão
e consequência nos próximos julgamentos, das três outras empresas de táxi aéreo
que pretendem a mesma coisa: Panair, Transbrasil e Vasp.
Hoje
termina o julgamento do mensalão
O Supremo marcou reunião extraordinária para esta
quinta feira: examinará os três últimos embargos infringentes dos condenados do
mensalão.
PS
–
Parabéns, Pedro Ricardo Maximino pela análise sumarizada, entrelaçando
Brasil-Rússia. “Não podem ser ignoradas na sequencia mitomaníaca ou sucateamento,
enriquecimento ilícito, ilusão messiânica, encarecimentos oportunistas
sucessivos e eventuais, mágica numérica e desvio de foco”. Tudo textual.
PS2 –
Rigorosamente iguais, embora Brasil e Rússia, depois União Soviética e
novamente Rússia, jamais estiveram perto. Nem governo de lá com o de cá, ou
vice versa. E o povo brasileiro, jamais tomou conhecimento de que “havia
comunismo”.
PS3 –
Basta ver o fracasso da “intentona” de 1935, fortalecimento dos “vencedores”.
PS4 –
Disputando eleição em 1945, elegeram míseros 14 deputados à Constituinte e um senador,
Luiz Carlos Prestes.
PS5 –
Desaparecido o “partidão”, anões expulsando Prestes, veio o PC do B.
Carreiristas, com 12 deputados, mas sempre em cargos importantes. Que maravilha
viver.
PS6 –
Em 1º de abril de 1964, confusão total, os generais ambiciosos e degenerados, a
“marcha com Deus pela família”, as passeatas e as torturas, generalizadas, eram
generais.
PS7 –
“Venderam” a ideia de que estavam “salvando o Brasil do comunismo”. Ajudados
pelos EUA, que “generosos”, ajudaram não apenas o Brasil, mas quase toda a
América do Sul. Houve a passeata com “Deus pela família”, assustaram a muitos,
os jornalões confundiram ainda mais a opinião pública.
PS8 –
Durante 21 anos apoiaram o golpe, enriqueceram suas contas bancárias, elevaram
seus patrimônios pessoais e empresariais de forma astronômica.
PS9 –
Agora, depois de 50 anos de interrupção democrática e a prorrogação da falta de
credibilidade e representatividade, prometem revelar o quanto combateram. Por
modéstia e sem exibição ou demonstração de orgulho, mostrarão, todos, que
cometeram apenas equívocos editoriais.
PS10 –
Cúmplices e apaniguados dos generais em 1964, agora 50 anos depois, se
transformam em heróis deles mesmos. “Autoendeusados”, com heresia, hipocrisia,
autofagia, que só atingiu o povão.


