Via MÍDIA Democrática -
Enquanto o Brasil curtia o seu Carnaval, na área
internacional, a Ucrânia atravessa uma ainda mais grave crise depois da
deposição do Presidente eleito Vicktor Yanukovich.
Em Kiev assumiram o governo setores políticos institucionais
que tiveram apoio da extrema direita local, inclusive do grupo neonazista
denominado Svoboda, que procura reabilitar antigos combatentes ucranianos pró
nazistas, além de forças externas da Europa e dos Estados Unidos.
Acordo descumprido
O afastamento de Yanukovich ocorreu poucas horas depois da
firma de um acordo entre as partes para evitar o agravamento da situação. O
acordo foi descumprido pelos que tomaram o poder à força. O Presidente acabou tendo de fugir de
Kiev para evitar ser assassinado por extremistas, segundo revelou em sua
primeira entrevista depois de deposto.
Para dar o golpe, os governantes de fato da Ucrânia alegaram
que Yanukovich era corrupto e autoritário e não representava o povo. Omitiram o
fato de que Yanukovich foi eleito pela maioria dos ucranianos e, segundo
indicam as pesquisas poderia ganhar uma nova eleição.
A mídia conservadora omite também o fato de que os setores
que derrubaram o presidente constitucional contam com o apoio de grupos
neonazistas. Para se ter uma ideia do que está a ocorrer neste momento em Kiev,
o rabino da capital ucraniana recomendou os judeus a saírem da cidade porque
grupos extremistas, notadamente antissemitas, controlam a situação. Além do
ódio a essa etnia, os extremistas são também anticomunistas e defensores de
heróis nazistas. Ou seja, um retrocesso nos moldes dos anos 30 do século
passado.
Proibições agravam a
crise
O novo governo de Kiev passou a adotar medidas que agravaram
o quadro já bastante complicado, entre os quais proibindo o idioma russo. Na
Crimeia, região autônoma que o então Primeiro Ministro Nikita Kruchev (natural
da Ucrânia) regalou para a Ucrânia, se encontra Sebastiopol, no Mar Negro, onde está
localizada uma base naval russa que abriga 70% da Marinha russa.
Nessa região autônoma, mais de 70% da população é de origem
russa e a língua predominante é, claro, a russa. Por lá, a maioria da população
não aceitou as exigências vindas de Kiev, manifestando-se em várias ocasiões
contra os detentores do poder de fato, que querem se vincular de todas as
formas com a Europa. Ordenaram até a proibição do idioma russo.
Falsa ilusão
Uma parte dos ucranianos que apoiou os golpistas acredita
que ao se vincular a Europa poderá emigrar para o velho continente e lá, como
cidadãos europeus, trabalhar, seja na Alemanha, na França ou onde encontrarem
oportunidades. E mesmo se não trabalharem conseguirem algum tipo de proteção
como prevê a lei.
Tal raciocínio nos dias de hoje, segundo analistas, é
totalmente equivocado. A Europa vive uma crise econômica financeira de extrema
gravidade. O “bolo” está repleto e não dá para todos, como se pensava há alguns
anos. Há claras objeções no sentido de dar guarita a novos contingentes vindos
da Europa Oriental. Nesse sentido, os ucranianos não são bem vindos por lá, como alguns incautos
supõem.
Além disso, a Ucrânia é dependente, não da Europa, mas da
Rússia, cujo governo poderá
deixar de subsidiar o gás. E provavelmente o fará, a persistir o atual
estado de coisas que Moscou considera ilegítimo e perigoso.
A União Europeia, que também recebe o gás da Rússia, cuja
tubulação passa pelo território ucraniano, promete ajudar o governo de fato de
Kiev com algum empréstimo de emergência para o pagamento de dívidas. O governo
de Barack Obama usa a mesma retórica.
Condição imposta
Mas, como aconteceu em países como a Grécia, a medida
emergencial só sairá se o governo de fato se submeter a uma política de
austeridade exigida pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).
E então, em vez de trabalhos na Europa, os ucranianos
sentirão os efeitos de uma política de corte neoliberal, que começa com a
diminuição do Estado e chega até a redução de salários e exoneração de
funcionários públicos.
Como se não bastasse, os apoiadores externos do golpe de
estado querem impor seu domínio sobre a região autônoma da Crimeia, área
estratégica onde a Rússia tem a preferência da população.
Temor da Europa e dos
EUA
No fundo, o objetivo de todo este jogo de xadrez é o de
criar obstáculos para Moscou e ainda pelo temor dos EUA e Europa do
fortalecimento de uma unidade entre as ex-repúblicas soviéticas hoje
independentes. Alguns políticos estadunidenses tornaram público esse receio, entre eles a ex-secretária de
Estado Hillary Clinton e o estrategista Zbigniev Brzezinsky, assessor especial do ex-presidente Bill Clinton
para questões internacionais.
Para alguns analistas, esses posicionamentos podem explicar
o empenho estadunidense e europeu no sentido de na prática ocuparem e se
fazerem presentes na Ucrânia.
Percebendo a manobra que na prática desestabiliza a região
fronteiriça da Rússia, o Presidente Vladimir Putin decidiu agir e conseguiu que o Parlamento
autorize o governo a agir militarmente em caso de necessidade.
Não é propriamente uma invasão, como já querem incutir na
opinião pública mundial os tradicionais meios de comunicação, mas simplesmente
um alerta para o caso de a situação se agravar e persistirem as ameaças à
maioria da população da Crimeia.
A aventura europeia e estadunidense está a colocar em risco
uma área fronteiriça da Rússia. Putin deu o recado e agora se não ocorrer uma
reacomodação no litígio a que está mergulhado a Ucrânia poderá ocorrer uma
guerra e mesmo a repetição de uma luta fratricida nos moldes da que provocou a
divisão e o banho de sangue na antiga Iugoslávia.
Esquema de desestabilização de governos
O analista internacional Luiz Alberto Moniz Bandeira, autor
de um importante livro intitulado, A Segunda Guerra Fria, ao analisar a situação
atual da Ucrânia chamou a atenção sobre a existência de uma estratégia de desestabilização de
vários governos que não aceitam as pressões.
Nesse sentido, Moniz Bandeira lembra que nos dias de hoje
vários governos que não rezam pela cartilha de Washington enfrentam esquemas de
desestabilização através de movimentos de rua, como no caso da Venezuela.
Moniz Bandeira alerta ainda para o fato de que até mesmo
governos moderados que eventualmente não aceitem as imposições também correm
risco de desestabilização com o surgimento, às vezes repentino, de movimentos
de rua.
*Texto de Mario Augusto Jakobskind.



