5.3.14

ASSÉDIO SOBRE A UCRÂNIA SE REPETE EM OUTRAS PARTES DO MUNDO

Via MÍDIA Democrática -

Enquanto o Brasil curtia o seu Carnaval, na área internacional, a Ucrânia atravessa uma ainda mais grave crise depois da deposição do Presidente eleito Vicktor Yanukovich.


Em Kiev assumiram o governo setores políticos institucionais que tiveram apoio da extrema direita local, inclusive do grupo neonazista denominado Svoboda, que procura reabilitar antigos combatentes ucranianos pró nazistas, além de forças externas da Europa e dos Estados Unidos.

Acordo descumprido

O afastamento de Yanukovich ocorreu poucas horas depois da firma de um acordo entre as partes para evitar o agravamento da situação. O acordo foi descumprido pelos que tomaram o poder à força. O Presidente acabou tendo de fugir de Kiev para evitar ser assassinado por extremistas, segundo revelou em sua primeira entrevista depois de deposto.

Para dar o golpe, os governantes de fato da Ucrânia alegaram que Yanukovich era corrupto e autoritário e não representava o povo. Omitiram o fato de que Yanukovich foi eleito pela maioria dos ucranianos e, segundo indicam as pesquisas poderia ganhar uma nova eleição.

A mídia conservadora omite também o fato de que os setores que derrubaram o presidente constitucional contam com o apoio de grupos neonazistas. Para se ter uma ideia do que está a ocorrer neste momento em Kiev, o rabino da capital ucraniana recomendou os judeus a saírem da cidade porque grupos extremistas, notadamente antissemitas, controlam a situação. Além do ódio a essa etnia, os extremistas são também anticomunistas e defensores de heróis nazistas. Ou seja, um retrocesso nos moldes dos anos 30 do século passado.

Proibições agravam a crise

O novo governo de Kiev passou a adotar medidas que agravaram o quadro já bastante complicado, entre os quais proibindo o idioma russo. Na Crimeia, região autônoma que o então Primeiro Ministro Nikita Kruchev (natural da Ucrânia) regalou para a Ucrânia, se encontra Sebastiopol, no Mar Negro, onde está localizada uma base naval russa que abriga 70% da Marinha russa.

Nessa região autônoma, mais de 70% da população é de origem russa e a língua predominante é, claro, a russa. Por lá, a maioria da população não aceitou as exigências vindas de Kiev, manifestando-se em várias ocasiões contra os detentores do poder de fato, que querem se vincular de todas as formas com a Europa. Ordenaram até a proibição do idioma russo.

Falsa ilusão

Uma parte dos ucranianos que apoiou os golpistas acredita que ao se vincular a Europa poderá emigrar para o velho continente e lá, como cidadãos europeus, trabalhar, seja na Alemanha, na França ou onde encontrarem oportunidades. E mesmo se não trabalharem conseguirem algum tipo de proteção como prevê a lei.

Tal raciocínio nos dias de hoje, segundo analistas, é totalmente equivocado. A Europa vive uma crise econômica financeira de extrema gravidade. O “bolo” está repleto e não dá para todos, como se pensava há alguns anos. Há claras objeções no sentido de dar guarita a novos contingentes vindos da Europa Oriental. Nesse sentido, os ucranianos não são bem vindos por lá, como alguns incautos supõem.

Além disso, a Ucrânia é dependente, não da Europa, mas da Rússia, cujo governo poderá deixar de subsidiar o gás. E provavelmente o fará, a persistir o atual estado de coisas que Moscou considera ilegítimo e perigoso.

A União Europeia, que também recebe o gás da Rússia, cuja tubulação passa pelo território ucraniano, promete ajudar o governo de fato de Kiev com algum empréstimo de emergência para o pagamento de dívidas. O governo de Barack Obama usa a mesma retórica.

Condição imposta

Mas, como aconteceu em países como a Grécia, a medida emergencial só sairá se o governo de fato se submeter a uma política de austeridade exigida pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

E então, em vez de trabalhos na Europa, os ucranianos sentirão os efeitos de uma política de corte neoliberal, que começa com a diminuição do Estado e chega até a redução de salários e exoneração de funcionários públicos.

Como se não bastasse, os apoiadores externos do golpe de estado querem impor seu domínio sobre a região autônoma da Crimeia, área estratégica onde a Rússia tem a preferência da população.

Temor da Europa e dos EUA

No fundo, o objetivo de todo este jogo de xadrez é o de criar obstáculos para Moscou e ainda pelo temor dos EUA e Europa do fortalecimento de uma unidade entre as ex-repúblicas soviéticas hoje independentes. Alguns políticos estadunidenses tornaram público esse receio, entre eles a ex-secretária de Estado Hillary Clinton e o estrategista Zbigniev Brzezinsky, assessor especial do ex-presidente Bill Clinton para questões internacionais.

Para alguns analistas, esses posicionamentos podem explicar o empenho estadunidense e europeu no sentido de na prática ocuparem e se fazerem presentes na Ucrânia.

Percebendo a manobra que na prática desestabiliza a região fronteiriça da Rússia, o Presidente Vladimir Putin decidiu agir e conseguiu que o Parlamento autorize o governo a agir militarmente em caso de necessidade.

Não é propriamente uma invasão, como já querem incutir na opinião pública mundial os tradicionais meios de comunicação, mas simplesmente um alerta para o caso de a situação se agravar e persistirem as ameaças à maioria da população da Crimeia.

A aventura europeia e estadunidense está a colocar em risco uma área fronteiriça da Rússia. Putin deu o recado e agora se não ocorrer uma reacomodação no litígio a que está mergulhado a Ucrânia poderá ocorrer uma guerra e mesmo a repetição de uma luta fratricida nos moldes da que provocou a divisão e o banho de sangue na antiga Iugoslávia.

Esquema de desestabilização de governos

O analista internacional Luiz Alberto Moniz Bandeira, autor de um importante livro intitulado, A Segunda Guerra Fria, ao analisar a situação atual da Ucrânia chamou a atenção sobre a existência de uma estratégia de desestabilização de vários governos que não aceitam as pressões.

Nesse sentido, Moniz Bandeira lembra que nos dias de hoje vários governos que não rezam pela cartilha de Washington enfrentam esquemas de desestabilização através de movimentos de rua, como no caso da Venezuela.

Moniz Bandeira alerta ainda para o fato de que até mesmo governos moderados que eventualmente não aceitem as imposições também correm risco de desestabilização com o surgimento, às vezes repentino, de movimentos de rua. 

*Texto de Mario Augusto Jakobskind.