MARCELO MÁRIO DE MELO -
DESDITA
Não há nenhuma frase a ser escrita.
O verbo ressecou ante o espanto.
A inércia em atenção aflita
empedra os olhos e congela o canto.
A alma se contorce mas não grita.
É pelos poros que se esvai o pranto.
E no abecedário da desdita
se inscreve na mortalha o desencanto.
As cinzas das exclamações em sal
lavadas na chuva das reticências
e em granizo de interrogações.
Ante o manancial das inclemências
sem releituras e interpretações
só resta espaço ao ponto final.
***
VITÓRIA CINZENTA
O fantasma marcou nova vitória
impondo a ilusão do estandarte.
O amante resvalou na gosma inglória
e com ele dançou em contraparte.
Repete-se assim a mesma história
o mesmo fio outra vez se parte
a mesma teia de triste memória
reconstruída em venenosa arte.
Na outra margem corre um rio de dor
de quem viu toda teia ser tecida
no tear do fantasma sorridente.
Inscreve-se o drama pela vida
em desfecho cinzento e inclemente:
as garras na garganta do amor.



