ALCYR CAVALCANTI -
O arrastão da
"maior favela da América do Sul" era um arrastão diferente, que
partia de uma favela diferente, não existia nenhuma forma de violência. Possui
também um sentido simbólico, de invasão de um território demarcado por
diferenças sociais de forma inteiramente pacífica. Em nossos dias normalmente é
feito nas praias lotadas por um grupo formado por 20 a 30 jovens que levam tudo
das pessoas que veem pela frente, roupas, dinheiro, calçados, celulares, enfim
tudo o que der para levar.
O termo começou a ser usado pela mídia em outubro de
1992 em que estariam alguns jovens de Vigário Geral e de outras
localidades e foi descrito pelo jornalista Zuenir Ventura em seu livro Cidade Partida. Na Rocinha o
arrastão tem um sentido diferente. Os componentes do G.R.E.S. Acadêmicos da Rocinha
invadem o espaço público, as ruas, bloqueiam as vias de acesso exclusiva de
automóveis e coletivos e procuram atrair as pessoas para seu desfile, que mais
parece o desfile antigo dos "blocos de sujo" que atuam com a maior
espontaneidade. Os componentes descem do morro "invadem o asfalto" de
forma lúdica, inteiramente pacífica, apenas para brincar o carnaval. Após
a sua marcha/desfile os componentes do bloco se dirigem para a quadra onde a
festa atinge o ápice de animação. Embora formado basicamente por moradores do
Morro, procuram atrair pessoas dos prédios suntuosos e do hotel cinco estrelas
de São Conrado. Não há necessidade de fantasia nem destaques ou alegorias, as
roupas são como as de um bloco de sujo, calções e biquínis e saídas de
praia.
O "Arrastão da Rocinha" é um derivado dos antigos banhos de
mar a fantasia, que devido a interesses comerciais e controle social saíram do
calendário carnavalesco, e ao contrário dos desfiles oficiais entra quem
quiser, em ritmo de total liberdade, uma festa sem dono. Participei do Arrastão
uma vez,em um domingo no ano 2.000, a convite do presidente da Acadêmicos da
Rocinha, Ivan Martins que embora fosse o principal componente
participava da festa como "o mais comum dos mortais", sem nenhum
segurança, vestido apenas de uma bermuda e tênis, mas conduzindo o trajeto na
maior paz e harmonia. Não sei se nos dias de hoje, o arrastão diferente
continua a alegrar as noites de domingo de verão em São Conrado, os tempos
mudaram, a cidade ficou cada vez mais partida, as diferenças entre favela e
asfalto aumentaram, e a tão sonhada pacificação ainda não veio.




