CARLOS CHAGAS -
Desiludiram-se as mulheres deputadas com a derrota do projeto que
criava cotas na Câmara Federal, nas Assembleias e Câmaras de Vereadores
para candidatas do sexo feminino. Se aprovada, a proposta determinaria
que mulheres menos votadas do que homens ocupassem um certo número de
cadeiras, entre dez e quinze por cento do total. Pela lógica, seria
pouco num país onde 52% dos habitantes são mulheres, mas, no reverso da
medalha, a Câmara teria rejeitado o princípio da representatividade
eleitoral. É complicada a questão, já envolvendo por lei o ingresso de
alunos negros e pardos com direito a cotas nas universidades. Explica-se
por conta da condição econômica superior dos estudantes brancos, fruto
de séculos de dominação da raça.
Seria bom, no entanto, não generalizar, porque daqui a pouco serão
exigidas cotas para jogadores de futebol brancos, tendo em vista que na
maioria de nossos times predominam os craques negros ou pardos, de resto
tecnicamente superiores, como a seleção brasileira está demonstrando no
Chile, esta semana.
Deveriam as deputadas mulheres escolher outras alternativas para sua
luta mais do que justa por maior representação. Que tal sensibilizarem
mais mulheres para ingressar nos partidos e disputar eleições? Claro que
com propostas de aprimoramento social, econômico e político capazes de
sensibilizar o eleitorado, e não apenas o feminino.
ENTRE VOLTAIRE E A PAPUDA
Para os parlamentares envolvidos no escândalo da Petrobras vai uma historinha edificante.
Voltaire, moço ainda conhecido por Jean Marie Arouet, recém-chegado a
Paris, dedicou-se a ferinas crônicas contra a nobreza e os donos do
poder. Certa tarde de domingo, passeando pelo Bois-de-Boulogne, deu de
cara com o Regente da França, alvo permanente de suas críticas. Felipe
de Orleans o reconheceu e dirigiu-lhe a palavra: “Monsieur Arouet, quero
ter o prazer de oferecer-lhe uma visão de Paris que o senhor nunca
privou.” E mandou prender o futuro Voltaire numa cela da Bastilha, de
onde se descortinava a capital. Meses mais tarde, arrependido, mandou
soltar o jovem, dedicando-lhe também razoável soma mensal saída dos
cofres públicos.
Voltaire, que nunca se emendava, escreveu carta de louvor ao monarca,
onde agradecia pela gentileza da quantia que lhe permitiria nunca mais
prover suas refeições. Mas acrescentou que quanto à hospedagem, o
Regente não se preocupasse. Ele mesmo cuidaria dela.
Escusado dizer que a pensão foi revogada e nova ordem de prisão
lavrada contra o escritor, que precisou refugiar-se na Inglaterra por
algum tempo.
Por que se conta essa historinha? Porque certos deputados já
procuraram saber dos condenados pelo mensalão se na Papuda existem celas
com vista para o Plano Piloto, em Brasília...



