Por RICARDO BRANDT e JÚLIA MACEDO - Via AE -
A força-tarefa da Operação Lava Jato
encontrou indícios que ligam o esquema criminoso de Alberto Youssef e do
ex-diretor de Abastecimento Paulo Roberto Costa à Transpetro, em obras
do Terminal da Bacia de Ilha Grande (Tebig), em Angra dos Reis. São
cinco registros de propostas de intermediação de negócios que
envolveriam a subsidiária da Petrobrás, datados de 2009, e que integram a
lista de 750 contratos alvos de propina aprendida na casa do doleiro,
em março.
Na planilha de computador, Youssef registrou entre 2009 e 2012 os
negócios que tentou fazer intermediando contratos entre empresas do
cartel chamado de “clube” – alvo da Lava Jato – e órgãos públicos, em
especial a Petrobrás. Nele, eram registrados o cliente, o contato, o
telefone, o objeto da contratação, data de entrega da proposta, número
de proposta e valor.
As cifras são para a força-tarefa da Lava Jato a propina nos
negócios, caso fossem efetivados. Quatro deles registram como “Projeto –
referência” obras de adequação do sistema de tratamento de esgoto do
terminal de Angra e como “cliente final” a Transpetro.
Nesta quinta-feira, 4, vence o prazo para que o presidente licenciado
da empresa, Sérgio Machado, decida se fica ou o cargo, depois de 12
anos no posto por indicação do presidente do Senado, Renan Calheiros
(PMDB-AL). Sua possível saída do cargo se deve ao envolvimento de seu
nome no escândalo. À Justiça, ele foi acusado pelo ex-diretor de
Abastecimento de ter pago R$ 500 mil em propina, por contratos de
navios.
Somados, os contratos de intermediação de Youssef em nome da
Transpetro podem ter rendido R$ 9,1 milhões ao esquema. Para confirmar
se houve desvios nas obras de Angra, os investigadores da Lava Jato vão
cruzar a quebra do sigilo bancário de empresas usadas na lavanderia com
os pagamentos feitos pelas “clientes” do portfólio de negócios do
doleiro com os respectivos valores registrados e nomes.
A apuração envolvendo o esquema em Angra e a Transpetro faz parte das
novas etapas das investigações, que abrangerão subsidiárias da
Petrobrás e outras áreas. Ontem, o juiz federal Sérgio Moro afirmou em
despacho que a tabela dos 750 contratos é “perturbadora” e ilustra “os
indícios que os crimes transcenderam a Petrobrás”.
“Embora a investigação deva ser aprofundada quanto a este fato, é
perturbadora a apreensão desta tabela nas mãos de Alberto Youssef,
sugerindo que o esquema criminoso de fraude à licitação, sobrepreço e
propina vai muito além da Petrobrás.”
Contratos cruzados
Para os investigadores, as empreiteiras supostamente representadas
por Youssef podem ter sido contratadas diretamente para a obra ou ter
prestado serviços terceirizados ou sido beneficiada em outro contrato.
É o caso da Construcap-CCPS Engenharia e Comércio S.A. Ela aparece em
dois registros tendo como “cliente final” a “Transpetro”. O que chamou a
atenção dos investigadores da Lava Jato é que há valores similares
efetivamente pagos para uma empresa usada pelo doleiro pela empreiteira
por obras no terminal, mas não o registrado na lista – um indicativo de
obras cruzadas.
O primeiro registro em nome da Construcap, no valor de R$ 4 milhões,
teria sido entregue em 18 de junho de 2009, tendo como “referência de
projeto” a anotação “Transpetro-Sistema de Tratamento de Afluentes do
Terminal Aquaviário de Angra dos Reis”. O segundo, que teria sido
entregue no dia 17 de julho, tem o valor de R$ 21,1 mil. O baixo valor
seria por se tratar de um complemento do primeiro.
A Construcap não participou das obras do sistema de afluente. Ela,
porém, executou dois contratos no Tebig, em Angra, pelos valores de
R$11,6 milhões e R$ 9,5 milhões. Os objetos eram substituições das
linhas 3 e 5 de petróleo, no trecho interno da Área de Tancagem da Área
Principal (AP). Os dois assinados em 2007 e executados a partir de
então. A Construcap confirmou ter comprado materiais da Sanko-Sider em
um deles e pago R$ 20,2 mil.
“Nesta obra, a Construcap adquiriu da empresa Sanko Sider, 12 metros
de tubo de aço carbono.” O valor foi pago em julho de 2008, com emissão
de nota, informou a empresa.
A Sanko-Sider é uma fornecedora de tubos e dutos para obras da
Petrobrás e suas contratadas que foi usada por Youssef e pelo cartel
para desviar dinheiro da estatal. Ela figura no primeiro processo penal
da Lava Jato que envolve as obras da Refinaria Abreu e Lima, em
Pernambuco, iniciadas em 2007.
No mesmo período, a Construcap foi uma das contratadas para as obras
de terraplanagem da obra, já apontada superfaturada pelo Tribunal de
Contas da União (TCU), e agora foi apontada pelos delatores da Toyo
Setal como parte do “clube” do cartel.
Transpetro e Construcap negam relação com Youssef A Transpetro e o
presidente licendiado, Sérgio Machado, negaram ter relação com tais
contratos ou qualquer esquema de propina. Segundo o órgão, obras no
Tebig são pagas pela Petrobrás, não por ela.
A subsidiária informou que apenas opera o terminal. Negou também ter
pago alguma das três empreiteiras que aparecem na lista de clientes do
doleiro Alberto Youssef.
A Construcap informou que “jamais manteve qualquer relação, negócio
ou transação financeira” com Youssef. A empresa explicou ainda que
quando contratou a Sanko-Sider ela era devidamente cadastrada na
Petrobrás e que moveu em 2012 uma ação contra a empresa por atraso no
fornecimento de produtos.
COM A PALAVRA, A TRANSPETRO
“A Companhia não possui intermediários na realização de nenhum de seus contratos ou pagamentos.
As empresas Schahin Engenharia, Sanko Sider, Construcap CCPS e DM
Construtora não tiveram e não têm contratos com a Transpetro referentes
ao terminal de Angra dos Reis.
O sistema de efluentes do terminal de Angra é um empreendimento da Petrobras.”
COM A PALAVRA, A CONSTRUCAP
“Com relação ao fato de seu nome constar na planilha de obras
apreendida com o senhor Alberto Youssef, a Construcap CCPS Engenharia e
Comércio SA afirma que jamais manteve qualquer relação, negócio ou
transação financeira com tal pessoa.
No tocante às obras que a companhia realizou para a Petrobrás, no
Terminal Marítimo Maximiano Augusto da Fonseca, da Transpetro, no
Município de Angra dos Reis – RJ, esclarecemos que foram realizados 02
contratos, obtidos através de licitação regular, a saber:
1 – Contrato no. 0802.0032310.07.2
” Escopo: substituição da linha 3 de petróleo no trecho interno da Área de Tancagem da Área Principal (AP) do aludido Terminal.
” Valor: R$ 11.647.668,01
” Data de assinatura: 15 de maio de 2007
” Nesta obra, a Construcap adquiriu da empresa Sanko Sider Comércio de Importação e Exportação de Produtos Siderúrgicos Ltda (Sanko Sider), 12 metros de tubo de aço carbono, diâmetro de 36″ API 5L B PSL 2 com costura padrão ANSI B36.10, espessura da parede de 0,375″ com extremidades chanfradas (176,29KG/M). Referida aquisição foi realizada de maneira legal e regular, sendo o material devidamente entregue na obra, através da Nota Fiscal 20657, emitida em 10 de julho de 2008, no valor de R$ 20.264,77 (vinte mil duzentos e sessenta e quatro reais e setenta e sete centavos).
” Escopo: substituição da linha 3 de petróleo no trecho interno da Área de Tancagem da Área Principal (AP) do aludido Terminal.
” Valor: R$ 11.647.668,01
” Data de assinatura: 15 de maio de 2007
” Nesta obra, a Construcap adquiriu da empresa Sanko Sider Comércio de Importação e Exportação de Produtos Siderúrgicos Ltda (Sanko Sider), 12 metros de tubo de aço carbono, diâmetro de 36″ API 5L B PSL 2 com costura padrão ANSI B36.10, espessura da parede de 0,375″ com extremidades chanfradas (176,29KG/M). Referida aquisição foi realizada de maneira legal e regular, sendo o material devidamente entregue na obra, através da Nota Fiscal 20657, emitida em 10 de julho de 2008, no valor de R$ 20.264,77 (vinte mil duzentos e sessenta e quatro reais e setenta e sete centavos).
2 – Contrato no. 0802.0035895.07.2
” Escopo: substituição da linha 5 de petróleo no trecho interno da Área de Tancagem da Área Principal (AP) do aludido Terminal.
” Valor: R$ 9.592.941,48.
” Data de assinatura: 19 de setembro de 2007.
” Nesta obra nada foi adquirido da empresa Sanko Sider.
” Escopo: substituição da linha 5 de petróleo no trecho interno da Área de Tancagem da Área Principal (AP) do aludido Terminal.
” Valor: R$ 9.592.941,48.
” Data de assinatura: 19 de setembro de 2007.
” Nesta obra nada foi adquirido da empresa Sanko Sider.
Nenhum dos contratos realizados guarda relação com o Sistema de Tratamento de Efluentes do Terminal.
Por outro lado, a Sanko Sider, empresa fornecedora de tubos de aço
carbono para o mercado de construção civil e montagem industrial, era
regularmente cadastrada no Certificado e Registro de Classificação
Cadastral – CRCC da Petrobras.
Informamos ainda, que a Construcap move, desde 09/04/2012, ação
contra a Sanko Sider Comércio de Importação e Exportação de Produtos
Siderúrgicos Ltda, no valor histórico de R$ 155.055,22, perante o
Tribunal de Justiça de São Paulo – Fórum Regional VIII – Tatuapé –
Processo 0006286-53.2012.8.26.0008, em razão de atrasos e descumprimento
no fornecimento de materiais adquiridos pela empresa. Desde então, a
Sanko Sider foi retirada do cadastro de fornecedores da Construcap.”
COM A PALAVRA, SERGIO MACHADO
“No Sistema Petrobras, a Transpetro é proprietária apenas de navios.
Ela investe na sua construção e os opera. Dutos e terminais portuários
são de propriedade da Petrobras, que realiza os investimentos de
construção e reforma desses equipamentos. Depois de realizar tais
investimentos, a Petrobras entrega sua operação para a Transpetro, que
se responsabiliza apenas pela manutenção corretiva.
O caso do Terminal de Angra não é diferente. Todos os investimentos
em obras e reformas foram realizados pela Petrobras, que é a
proprietária. Cabe à Transpetro somente operar o terminal e realizar sua
manutenção corretiva. No que diz respeito ao Terminal de Angra, a
Transpetro não firmou contratos nem fez nenhum pagamento às empresas
mencionadas. Todos os investimentos e contratações foram feitos pela
Petrobras.”



