ALCYR CAVALCANTI -
| Líder comunitário entrevistado por TV canadense. |
A maior área de lazer
da imensa favela, a Praia de São Conrado, onde grande parte de sua população
aproveita as delicias de uma diversão ainda inteiramente gratuita é um esgoto
só. Turistas desavisados e agora os milionários jogadores da seleção inglesa de
futebol vão dividir a areia poluída democraticamente com os moradores, apesar
da intensa repressão policial, tentando driblar as imensas línguas negras que
despejam milhões de dejetos pondo em risco a saúde de todos. Tem dias em que o
cheiro é insuportável, o que não impede os surfistas com suas longas pranchas
de praticar o esporte radical. Protestos têm se repetido ao longo dos anos sem
alcançar na prática nenhum resultado. Desde o verão 2002 empresários,
surfistas, músicos e líderes comunitários têm se unido na tentativa de comover
as autoridades insensíveis ou mesmo incompetentes aos seus apelos. No Governo
Garotinho faixas pediam a solução para o problema: “Respeite a praia Garotinho,
atenção: Praia não é piscinão, essa obra é caô,
chega de cocô”.
Estamos em 2014 em
plena Copa do Mundo, às vésperas de uma Olimpíada e não só São Conrado, mas
toda a Baia de Guanabara está intensamente poluída, uma imensa lixeira, cheia
de coliformes fecais. Obras e mais obras são prometidas, ano após ano.
Governantes se sucedem e a poluição aumenta a níveis assustadores. Os detritos
de todo o morro são despejados em um canal logo na entrada da favela, e daí vai
para a praia. Milhões foram prometidos, milhões foram pelo ralo, ou melhor,
pelo canal. Entre os moradores o canal ficou conhecido como “valão de ouro” um
exemplo de malversação de dinheiro público.
Estamos em época de
eleições, muitas promessas, pouca ação. O PAC-3 promete muitas coisas, embora a
maior parte das obras do PAC-1 não tenha sido concluída. Em 18 de julho de 2013
o Fórum de Mobilidade Urbana no Clube de Engenharia realizou debate sobre as
obras do PAC e a polêmica construção de um teleférico como prioridade da
comunidade. Lideranças comunitárias, engenheiros, urbanistas concluíram que a
obra que teria um custo inicial de R$700 milhões não é uma prioridade, e sim
obras urgentes de saneamento básico. Embora
arquiteto Ícaro Moreno da EMOP tenha defendido a construção do teleférico, grande parte dos moradores é
contra a construção por achar que será uma obra de pouca utilidade para a
localidade, e sim um grande atrativo para as companhias de turismo, os milhões
de reais deveriam ser empregados em outras prioridades. O arquiteto Luís Carlos
Toledo é o idealizador de um Plano Diretor elaborado para a comunidade onde
estava previsto a construção de um plano inclinado, obra bem menos dispendiosa.
Algumas lideranças comunitárias também pensam da mesma forma como José Martins
de Oliveira morador há mais de quarenta anos da Rocinha, que já foi presidente
de uma das associações de moradores. Martins acha a obra do teleférico será tremendamente
invasivo, e vai prejudicar segundo ele mais de cinco mil moradores da
localidade, o que poderia ser evitado com a construção do plano inclinado. Os
recursos poderiam resolver em definitivo as doenças causadas pela falta de
saneamento, que já vitimaram milhares de moradores da Rocinha ao longo dos
anos. O número de vitimas da tuberculose, doenças de pele e, sobretudo a dengue
tem aumentado assustadoramente, exigindo providencias imediatas das
autoridades, que parecem ignorar o problema. Em recente entrevista a uma equipe
de uma emissora de televisão do Canadá, Martins definiu bem a importância da
obra do teleférico: ”Não vai resolver nada. É um tremendo elefante branco”.



