Via Animal Político -
"Melhor jornal de baixa tiragem do mundo”, o semanário “Penguin News” registra o que acontece nas Ilhas Malvinas.
"Melhor jornal de baixa tiragem do mundo”, o semanário “Penguin News” registra o que acontece nas Ilhas Malvinas.
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| Fachada da sede do “Penguin News” em Stanley:: o jornal tem tiragem de 200 exemplares semanais. |
Estamos na Ross Road, em Stanley, a capital das Ilhas Malvinas, onde
vivem 2.120 pessoas de um total de 3.000 que habitam todas as ilhas
(duas principais e mais de 700 ilhas menores, algumas desabitadas).
Você atravessa uma porta branca. Chega então a um escritório de 100 metros quadrados, montado com mesas de todos os tamanhos e um montão de papeis. Sobre uma delas, água, café e chá.
No fundo, um espaço com uma mesa comum, onde estão instalados três computadores e uma lousa na qual se pode ver o esboço da próxima edição do “Penguin News” (http://pnews.falklands.info/), “o melhor jornal de baixa tiragem do mundo” e o único das Ilhas Malvinas.
Trata-se de um semanário, criado em 1979, que atinge uma tiragem de 200 exemplares por semana. Aqui não se fala dos prêmios de melhores filmes do Oscar, do furor do Twitter ou de improváveis festivais, então sobre o que se escreve neste lugar tão remoto?
Aqui, em notas de oito linhas, dominam assuntos sobre mudanças propostas pela Assembleia (integrada por oito deputados) para a proteção dos filhos de pais que não são casados ou divorciados (6% da população), assim como a proposta para que o governo das ilhas assuma novas obrigações legais para prestar apoio às crianças necessitadas e suas famílias.
A página três, da edição de 29 de fevereiro de 2014, era dedicada ao caso de Kevin Derek Charles McLaren, acusado de 14 casos de abuso sexual contra menores de idade; o abuso sexual é um dos principais crimes nas ilhas.
Como informação complementar, uma notícia sobre o primeiro festival de música nas ilhas, o Falkstock, com bandas e músicos locais que buscam arrecadar dinheiro para o Stephen Jaffray Memorial Fund [entidade beneficente local de ajuda para viagens de moradores carentes das ilhas para tratamento médico].
Tipos de notícia
As entranhas do “Penguin” são feitas das “questões locais que surgirem”, explica sua editora, Lisa Watson (@Lisafalklands): cobertura de eventos, colunistas, reuniões do comitê do governo, uma página dedicada à jardinagem, palavras cruzadas (cada semana, além disso, você encontra a resposta da edição anterior), programação de rádio e televisão, horários de chegada dos cruzeiros que atracam em Stanley e a página de cartas do leitor.
Então qual foi a notícia mais importante que o “Penguin” cobriu? Lisa diferencia dois tipos de notícias. Uma são as que geraram vendas, como em 2013, quando aconteceram as eleições gerais ou o plebiscito, no qual os eleitores foram consultados sobre o status político das Ilhas Malvinas: de 1.518 participantes, 1.513 votaram por permanecer como território britânico de ultramar, dependentes do Reino Unido, porém não administrados diretamente por ele (no caso das ilhas, a Grã-Bretanha lhes “empresta”, como eles mesmo dizem, seu Exército, que se encontra a postos de forma permanente desde a época da Guerra das Malvinas, em 1982).
Sobre como os ilhéus veem as pretensões da Argentina para recuperar as Malvinas, Lisa assinala que isso “sempre” existiu, mas que “elas mudam de acordo com estilo do governo argentino. A política do atual governo argentino atual é considerada agressiva devido a seu alto perfil de gestão internacional e suas tentativas de pôr em xeque a economia das ilhas Malvinas. Isso fez com que os ilhéus se sentissem mais afastados da Argentina e mais próximos do governo das ilhas e determinados a resistir às tentativas argentinas”.
A outra diferença à qual Lisa se refere são as coberturas importantes do “Penguin”, em seus 35 anos de vida, sobre as notícias que causam “grande impacto”. Ela se lembra do caso de três pescadores estrangeiros que foram presos há alguns anos por posse de cocaína em um valor estimado em 35 milhões de libras. A droga confiscada foi armazenada na delegacia de polícia em uma cela junto à ala dos detentos, que criaram uma engenhoca para levar a droga até eles assim que eles apertassem o botão do vaso sanitário. “Penguin News” colocou um saco de farinha, simulando a cocaína, e o fotografou em frente à delegacia de polícia. “Isso teve muito impacto, além de causar algumas gargalhadas”, comenta Lisa.
“Penguin News” é basicamente um jornal feito por garotas. Além de Lisa, trabalham Sharon Jaffray, como editora adjunta; Teslyn Barkman, como jornalista; e Fran Biggs, responsável pela administração e publicidade.
Teslyn tem 27 anos, estudou arte em Londres e trabalha no “Penguin” há três anos: “Quando acabei a faculdade, não achei nada aqui relacionado à minha profissão, mas isto está relacionado. Sou interessada por política, e este trabalho me permite estar vinculada a esta área”, diz.
O “Penguin News” custa 1,50 libra, e a edição semanal é finalizada às quintas-feiras. Assim que as notícias são apuradas e editadas, elas são diagramadas no Adobe InDesign. Em seguidas são mandadas a uma oficina de impressão e montagem; as páginas são enviadas para impressão ao longo da semana para chegar ao público toda sexta-feira: “A seção de programação é enviada para impressão na terça-feira; as páginas coloridas, na quarta-feira; e o restante, na quinta-feira”, explica Teslyn.
A equipe
Lisa Watson editou o “Penguin News” de 1996 a 2003, ano em que foi promovida a gerente na estação de rádio das Ilhas Malvinas. Voltou ao “Penguin” em 2011. Lisa estudou literatura inglesa e publicou um livro voltado para adolescentes sobre suas experiências durante a Guerra das Malvinas de 1982.
Logo após trocar ovelhas por jornalismo, Sharon Jaffray é editora adjunta no “Penguin News” há alguns anos. Sharon foi a primeira mulher a representar as Ilhas Malvinas durante um torneio de golfe, em 2003. Além disso, é cantora de música country.
Fran Biggs é a veterana do staff do “Penguin”, onde trabalha há 16 anos. É considerada o “rottweiler da redação”, porque pode passar de uma dócil mãe a uma agressiva cobradora de notas fiscais. Às vezes é considerada a memória corporativa da publicação, principalmente quando é preciso identificar os habitantes das ilhas nas fotografias.
Teslyn Barkman deixou as ilhas em 2004 para estudar em Londres. Assim que voltou, assumiu o cargo de jornalista no “Penguin News”. Gosta de correr e, em 2010, ganhou a maratona Stanley. Também é paramédica. Estudou na Universidade de Artes de Londres e vende e faz exposições de seu trabalho.
*Texto de Paola Morales. Tradução de Mari-Jô Zilveti.
Você atravessa uma porta branca. Chega então a um escritório de 100 metros quadrados, montado com mesas de todos os tamanhos e um montão de papeis. Sobre uma delas, água, café e chá.
No fundo, um espaço com uma mesa comum, onde estão instalados três computadores e uma lousa na qual se pode ver o esboço da próxima edição do “Penguin News” (http://pnews.falklands.info/), “o melhor jornal de baixa tiragem do mundo” e o único das Ilhas Malvinas.
Trata-se de um semanário, criado em 1979, que atinge uma tiragem de 200 exemplares por semana. Aqui não se fala dos prêmios de melhores filmes do Oscar, do furor do Twitter ou de improváveis festivais, então sobre o que se escreve neste lugar tão remoto?
Aqui, em notas de oito linhas, dominam assuntos sobre mudanças propostas pela Assembleia (integrada por oito deputados) para a proteção dos filhos de pais que não são casados ou divorciados (6% da população), assim como a proposta para que o governo das ilhas assuma novas obrigações legais para prestar apoio às crianças necessitadas e suas famílias.
A página três, da edição de 29 de fevereiro de 2014, era dedicada ao caso de Kevin Derek Charles McLaren, acusado de 14 casos de abuso sexual contra menores de idade; o abuso sexual é um dos principais crimes nas ilhas.
Como informação complementar, uma notícia sobre o primeiro festival de música nas ilhas, o Falkstock, com bandas e músicos locais que buscam arrecadar dinheiro para o Stephen Jaffray Memorial Fund [entidade beneficente local de ajuda para viagens de moradores carentes das ilhas para tratamento médico].
Tipos de notícia
As entranhas do “Penguin” são feitas das “questões locais que surgirem”, explica sua editora, Lisa Watson (@Lisafalklands): cobertura de eventos, colunistas, reuniões do comitê do governo, uma página dedicada à jardinagem, palavras cruzadas (cada semana, além disso, você encontra a resposta da edição anterior), programação de rádio e televisão, horários de chegada dos cruzeiros que atracam em Stanley e a página de cartas do leitor.
Então qual foi a notícia mais importante que o “Penguin” cobriu? Lisa diferencia dois tipos de notícias. Uma são as que geraram vendas, como em 2013, quando aconteceram as eleições gerais ou o plebiscito, no qual os eleitores foram consultados sobre o status político das Ilhas Malvinas: de 1.518 participantes, 1.513 votaram por permanecer como território britânico de ultramar, dependentes do Reino Unido, porém não administrados diretamente por ele (no caso das ilhas, a Grã-Bretanha lhes “empresta”, como eles mesmo dizem, seu Exército, que se encontra a postos de forma permanente desde a época da Guerra das Malvinas, em 1982).
Sobre como os ilhéus veem as pretensões da Argentina para recuperar as Malvinas, Lisa assinala que isso “sempre” existiu, mas que “elas mudam de acordo com estilo do governo argentino. A política do atual governo argentino atual é considerada agressiva devido a seu alto perfil de gestão internacional e suas tentativas de pôr em xeque a economia das ilhas Malvinas. Isso fez com que os ilhéus se sentissem mais afastados da Argentina e mais próximos do governo das ilhas e determinados a resistir às tentativas argentinas”.
A outra diferença à qual Lisa se refere são as coberturas importantes do “Penguin”, em seus 35 anos de vida, sobre as notícias que causam “grande impacto”. Ela se lembra do caso de três pescadores estrangeiros que foram presos há alguns anos por posse de cocaína em um valor estimado em 35 milhões de libras. A droga confiscada foi armazenada na delegacia de polícia em uma cela junto à ala dos detentos, que criaram uma engenhoca para levar a droga até eles assim que eles apertassem o botão do vaso sanitário. “Penguin News” colocou um saco de farinha, simulando a cocaína, e o fotografou em frente à delegacia de polícia. “Isso teve muito impacto, além de causar algumas gargalhadas”, comenta Lisa.
“Penguin News” é basicamente um jornal feito por garotas. Além de Lisa, trabalham Sharon Jaffray, como editora adjunta; Teslyn Barkman, como jornalista; e Fran Biggs, responsável pela administração e publicidade.
Teslyn tem 27 anos, estudou arte em Londres e trabalha no “Penguin” há três anos: “Quando acabei a faculdade, não achei nada aqui relacionado à minha profissão, mas isto está relacionado. Sou interessada por política, e este trabalho me permite estar vinculada a esta área”, diz.
O “Penguin News” custa 1,50 libra, e a edição semanal é finalizada às quintas-feiras. Assim que as notícias são apuradas e editadas, elas são diagramadas no Adobe InDesign. Em seguidas são mandadas a uma oficina de impressão e montagem; as páginas são enviadas para impressão ao longo da semana para chegar ao público toda sexta-feira: “A seção de programação é enviada para impressão na terça-feira; as páginas coloridas, na quarta-feira; e o restante, na quinta-feira”, explica Teslyn.
A equipe
Lisa Watson editou o “Penguin News” de 1996 a 2003, ano em que foi promovida a gerente na estação de rádio das Ilhas Malvinas. Voltou ao “Penguin” em 2011. Lisa estudou literatura inglesa e publicou um livro voltado para adolescentes sobre suas experiências durante a Guerra das Malvinas de 1982.
Logo após trocar ovelhas por jornalismo, Sharon Jaffray é editora adjunta no “Penguin News” há alguns anos. Sharon foi a primeira mulher a representar as Ilhas Malvinas durante um torneio de golfe, em 2003. Além disso, é cantora de música country.
Fran Biggs é a veterana do staff do “Penguin”, onde trabalha há 16 anos. É considerada o “rottweiler da redação”, porque pode passar de uma dócil mãe a uma agressiva cobradora de notas fiscais. Às vezes é considerada a memória corporativa da publicação, principalmente quando é preciso identificar os habitantes das ilhas nas fotografias.
Teslyn Barkman deixou as ilhas em 2004 para estudar em Londres. Assim que voltou, assumiu o cargo de jornalista no “Penguin News”. Gosta de correr e, em 2010, ganhou a maratona Stanley. Também é paramédica. Estudou na Universidade de Artes de Londres e vende e faz exposições de seu trabalho.
*Texto de Paola Morales. Tradução de Mari-Jô Zilveti.



