Via Outra Palavras -
O novo livro "Windfall", do jornalista Mckenzie Funk, explica como a
catástrofe climática "não será uma catástrofe para todos", e mostra como
há quem lucre, e muito, com as alterações climáticas no planeta,
enquanto aumenta o número de refugiados do clima. Artigo de Bary Olson,
publicado no portal Outras Palavras..
Uma manchete recente da Agência Bloomberg alerta: “Lucre com o Aquecimento Global ou fique para trás”. No seu novo livro, Windfall [“Sorte
Grande”, ou “Vento a Favor”, em tradução livre] (Nova York, Penguim,
2014), o jornalista veterano Mckenzie Funk relata como viajou pelo mundo
por seis anos, para traçar o perfil das “centenas de pessoas que
perceberam que as alterações climáticas iriam enriquecê-las”.
Numa investigação à parte, Funk realça que “em Wall
Street, já não há um grande número de pessoas que neguem as alterações
climáticas”. Quase sempre indiferentes às causas do fenómeno, os seus
entrevistados tomaram a decisão de não investir em tecnologias limpas,
por verem em tal gesto perda de dinheiro. Em vez disso, “quanto mais
aquecido o mundo, quanto menos habitável ele se tornar, mais forte o
vento a favor”…
Em 2008, a Shell desenvolveu dois cenários sofisticados de riscos relacionados ao clima. Denominou-os Blueprints [“Perspectivas”] e Scramble [“Escalada
Acidentada”]. O primeiro projetava um futuro mais limpo, ao passo que o
segundo previa – devido a paralisia dos governos – um futuro de secas,
inundações, ondas de calor e supertempestades. Por volta de 2012, os executivos da empresa confidenciaram a Funk:
“Entramos no cenário scramble. É
este o tipo de mundo em que viveremos. É ele que nos orienta”. Outro
executivo da Shell afirmou: “Serei um dos que brindará a chegada de um
verão sem fim no Alaska”…
A mensagem do autor é que, no curto prazo, haverá
vencedores e perdedores definitivos, porque a catástrofe ecológica “não
é, necessariamente, uma catástrofe financeira para todos”. E enquanto os
leitores deste site poderão evitar, por algum tempo, as piores
consequências do aquecimento global, um bilhão de outros seres humanos
não serão poupados.
Neste período de transição, a frase “uma maré em alta levanta todos os barcos” será mais que uma metáfora:
Muitas pessoas veem a água como uma necessidade e um
direito humano básico. Mas os consultores de investimentos e seus
bem-aventurados clientes enxergam o recurso como “ouro azul”, ou “o
petróleo do novo século”, cujo valor como ativo irá superar todas as
outras commodities físicas. O dinheiro está a correr para o
“hidrocomércio”, inclusive para os fundos financeiros que negociam
“direitos sobre a água” e “ativos de água”.
A Arcadis, uma empresa holandesa de engenharia que
oferece proteção contra enchentes afirma que a sua faturação cresceu 26%
em 2013. Por 8 mil milhões de dólares, eles prometem murar Manhattan de
um furacão como o Sandy.
Os bombeiros privados da seguradora AIG estão a
postos para proteger as propriedades dos ricos, nos subúrbios de Los
Angeles, com novíssimas tecnologias. Enquanto isso, os cidadãos menos
abonados verão as suas casas reduzidas a cinzas.
Barney Schaulbe, executivo da Nephia, um enorme fundo de hedge, está
convencido de que “um clima mais volátil provoca mais riscos e mais
apetites para proteção contra os ricos”. Daí vem, ele explica, a
introdução de algo chamado “derivativos do clima”.
Um investidor com base em Londres está a colocar
dinheiro em propriedades rurais na Rússia e em redes globais de
supermercado porque as secas, incêndios, desertificação e enchentes
relacionadas às alterações climáticas irão afetar negativamente as
colheitas. E, como diz outro analista, “as pessoas sempre estarão
dispostas a pagar para comer”.
Um gestor de fundos, interessado em empresas de
seguros, disse a Funk, confiante, que as enchentes causadas pelas
alterações climáticas tornarão este tipo de proteção mais caro. Por
isso, “a estação de furacões é, de facto, algo muito positivo”.
Embora o facto não seja mencionado no livro, o
senador norte-americano James Inhofe, do Partido Republicano, quer
direcionar ainda mais dinheiro para Wall Street, através de “contas de
socorro a desastres”. Graças a delas, famílias ricas poderão receber até
5 mil dólares de redução de impostos, para investir na mitigação de
eventos climáticos extremos. Ampliando os limites de sua audácia
política, Inhofe escreveu há pouco O grande boato, um livro segundo o qual o aquecimento global é uma conspiração gigante, criada para estimular as regulações estatais.
Um mundo mais aquecido significa a expansão de
doenças como a dengue, para além das zonas tropicais. A solução? A
empresa britânica Oxitec prevê que um remédio patenteado, para conter a
doença transmitida pelo mosquito, é uma máquina segura de fazer
dinheiro.
A elevação do nível dos mares faz do Bangladesh uma
espécie de “marco zero” para as alterações climáticas. A resposta da
Índia é uma barreira elétrica de 3300 quilómetros, a “cerca da
vergonha”, erguida para impedir que cerca de 25 milhões de refugiados
climáticos de Bangladesh cruzem a fronteira, quando um quinto de seu
país ficar sob as águas.
Prevejo que Centros de Finanças Ambientais, de nível
académico, revejam o enforque atual, ligado à proteção ambiental, para
posicionar vantajosamente estudantes dispostos a enxergar as vantagens
da crescente crise ecológica.
Curiosamente, Funk procura não julgar as pessoas que
entrevista. Prefere vê-las como gente de bem, “em sintonia com seu
próprio sistema de crenças”, que agem para preservar seu auto-interesse.
Ele concede: “Não podemos esperar que o capitalismo reveja nada disso”.
Mas afirma que “não há nada de fundamentalmente errado em tirar
proveito do desastre" e lamenta que os leitores possam, de modo injusto,
transformar os homens de negócio em vilões.
Num sentido estrito, ele está correto. A responsabilidade
essencial é do sistema e de sua lógica interna fatalmente fracassada.
Qualquer executivo-chefe que introduzisse em suas decisões considerações
sobre justiça climática seria rapidamente substituído por alguém mais
em sintonia com a pressão para produzir sempre por menos.
Num artigo anterior, caracterizei muitos dos que estão
verdadeiramente preocupados como o futuro do planeta como “negacionistas
do capitalismo”. Eles ainda não estão dispostos a perceber que a
responsabilidade pela degradação ambiental repousa no nosso sistema de
crescimento e lucro a qualquer custo. Os defensores do sistema existem
dentro e fora dos Estados e nunca serão a solução.
*Por Bary Olson, no Common Dreams | Tradução: Antonio Martins.



