16.4.14

GRAÇA FOSTER: “MIL VEZES PETROBRAS”. MAS NO SENADO, DEPOIMENTO MAGISTRAL. NÃO DESTRUIU AS DENÚNCIAS, MAS MOSTROU COMPETÊNCIA. ONTEM ELA FOI A PERSONAGEM DO DIA

HELIO FERNANDES -

Profissionalmente, Dona Graça Foster foi extraordinária, mostrando que não perdeu tempo nos 33 anos desde que entrou na empresa. Aprendeu tudo, não desconhece coisa alguma. E fala com desembaraço e conhecimento a respeito da Petrobras.

Quase tudo de improviso, tinha documentos e “slides” à disposição, não consultava nada, nem mesmo números, que citava de memória ou de cabeça.

Como em matéria de dignidade, honra, comportamento moral e ético, está acima de qualquer dúvida ou suspeita, foi tratada por todos com respeito e a confiança que merece. Não fizeram favor a ela ou a Petrobras.

E todos os que se inscreveram para debater (inicialmente 26 senadores), não se arriscaram a ficar contra a empresa. Queriam comprometer o governo, sem atingir a empresa, muito difícil de conseguir.

Cada senador tinha cinco minutos para perguntas, impossível manter esse tempo. O primeiro a interrogar foi o senador Rollemberg, que com a herança genética e o brilho pessoal, colocou problemas graves. Depois de perda de tempo com outros, chegou a vez de Álvaro Dias.

Um dos mais ferrenhos defensores da CPI (um mérito) depois do depoimento da presidente, confessou: “As questões que temos levantado não podem ser resolvidas aqui, e tornam mais indispensável a CPI”. Recuo visível, a favor de Graça Foster. 

“Respondeu pela tangente” 

Foi o senador Flexa Ribeiro (PSDB) que fez essa frase duvidosa e sem sentido. Dona Graça explicou tudo, com dados e números, não ficou nunca na “tangente”.

Cabia a ele, destruir o que ela mostrou, não tinha e não tem o mínimo de condições. Advertido de que “seu tempo se esgotara”, continuou falando por falar. 

Graça contesta as primeiras cinco perguntas 

Respondeu tudo. Sobre Pasadena, já havia reconhecido que o que parecia um “bom negócio” em 2005 e 2006, 1 ano depois já não era mais. Culpou a crise que atingiu o mundo, mas essa só começou em 2008.

Mas ficou de pé, diante das explicações, a realidade de que a Petrobras, com excesso de óleo pesado, precisava de mais refinarias. Quanto ao preço pago, contestado, não pode ser eliminado ou explicado num simples depoimento. (Por isso defendo a CPI, que não atingirá a Petrobras como empresa). 

Graça textual 

A Petrobras aprovou a compra da refinaria de Pasadena, sem maiores informações. Na época ainda estava longe da presidência da empresa. Deixou em má ou péssima situação: Dona Dilma, o Conselho (presidido por Dona Dilma), o presidente Gabrielli, e o assessor internacional Diretor Cerveró (sem citar seu nome), que não completou as informações. E mais os 18 conselheiros da Petrobras, que apoiaram a compra assim mesmo. 

“Comprem Petrobras, ou mantenham as ações” 

Fez essa afirmação, baseada em relatórios de 15 bancos. 10 recomendam: “não vendam ações da Petrobras”. 5 vão mais longe. “Comprem ações da Petrobras”. É a posição pública deste repórter, sem conhecer o relatório desses bancos.

Randolfe Rodrigues, decepção 

Candidato a presidente da República e de um partido tradicionalmente de oposição, uma pena. Botou a mão no peito, “quero falar sobre o meu orgulho de brasileiro, com a Petrobras”. Depois patinou, patinou, desperdiçou o tempo, não fez nenhuma pergunta que já não fosse do domínio público. 

Agripino Maia, pergunta sólida 

Foi o primeiro a tocar no assunto, de forma direta: “Por que a Petrobras era a 12ª empresa do mundo, passou a ser colocada como a de número 120? “Essa é uma grande questão que precisa ser minuciosamente explicada. Mas impossível de ser resolvida num depoimento de horas, reforça a necessidade da CPI exclusiva. 

Aloysio Nunes Ferreira fala sobre “apadrinhamento”
 
Estava faltando isso, não é segredo que cargos de direção na Petrobras, são os mais requisitados no encontro de contas entre partidos e o Planalto. A própria Dona Dilma já disse publicamente: “A presidência da Transpetro vale mais do que muitos ministérios”.

O senador de São Paulo tocou no assunto, importantíssimo. Só não pode dizer quem “apadrinha” o homem da Transpetro, é um senador como ele. Já revelei várias vezes: “Sérgio Machado, depois que não se reelegeu senador, foi indicado para esse altíssimo cargo por Renan Calheiros”. Não podem citar o nome do presidente do Senado?

Aníbal Diniz-Delcídio Amaral 

Os dois primeiros do PT, foram também os primeiros a defenderem a política de administração da Petrobras. Embora sem brilho ou sem contribuir para elucidar coisa alguma, tentaram mostrar que o partido irá longe na defesa, por ordem do Planalto.

Não mostraram convicção, mas pertencem ao PT. O que fazer, a não ser defender Pasadena, que a própria Graça Foster disse várias vezes, “é um mau negócio”.

Delcídio Amaral foi diretor da empresa. E de Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, um dos meus desterros e seqüestros em 1969. Devia ter ido mais longe, senador. 

Às 13,30, mais de 4 horas depois, Dona Graça responde a mais cinco senadores 

Contrariando “todo mundo” e ressalvando que nessa época não tinha cargo de direção, defendeu textualmente, “o zelo da operação de compra da refinaria de Pasadena”.

Embora não concorde de maneira alguma, nem a respeito do “zelo” ou dos “números” mirabolantes desperdiçados na operação, ela justificou: “A Petrobras precisava com urgência de refinaria. E com as características, localização e forma de operação, Pasadena era indicadíssima”. 

“Pasadena é uma operação terminada” 

E já não dói? Dona Graça não falou, mas deixou o plenário assombrado, com capacidade de exposição, a clareza da explicação, o torrencial de dados oferecidos aos senadores, citando a todos pelos nomes nas respostas. 

Fala sobre o ex-diretor preso 

Ninguém perguntou sobre Paulo Roberto Costa, na época diretor internacional da Petrobras. Disse que na época não tinha nada a ver com ele. Mas não tentou se refugiar, disse, textual: “Não era do meu âmbito, mas eu devia ter tomado conhecimento dos fatos”. Lamento não culposo, mais do que sincero.

Dona Graça terminou às 13,55, usou vinte e cinco minutos nas respostas. O presidente, às 14 horas levantou os trabalhos por cinco minutos. Senadores os mais oposicionistas e veementes, foram cumprimentar Dona Graça. Haja o que houver até o final do depoimento, Dona Graça é a grande personagem do dia. 

A interrupção durou mesmo cinco minutos 

Recomeçou com Pedro Taques. Pegou a afirmação dela, “Pasadena não foi um bom negócio”, e foi por aí, uma estrada pedregosa, não ajudava a caminhada.

Ex-promotor, conhece o assunto. Mas não ajudou quando resolveu “decodificar” os números da compra, realmente estranhos. Mas o senador não teve sucesso, o que ele afirmou já foi afirmado por todos. Taques tinha 5 minutos, desperdiçou 11. E queria mais. 

Eduardo Braga, inacreditável 

Líder do governo, quis fazer média, jogando fora o tempo de quem estava lá ou do público interessado. Não disse nada a não ser criar uma frase nova, e que na certa vai pegar: “Precisamos separar o joio do triigo”. Bestial, senador, o amazonas, orgulhoso. 

Graça Foster, às 14,45: “A Petrobras não é uma quitanda” 

Foi a primeira vez que elevou a voz. Respondendo a bobagem do senador Taques, que perguntou se a “Petrobras é uma quitanda”, respondeu enérgica mas educadamente: “A Petrobras não é uma quitanda”. E deu as razões.

O senador Taques, irritado, quebrou o estabelecido para o depoimento: perguntas e respostas, sem interrupção. Mas o senador tentou interromper deseducadamente. O presidente Lindberg Farias, disse que não era possível. Aliás, o senador que pode se transformar em governador, foi excelente presidente. Sério, compenetrado, até de bom humor. 

Todos, principalmente oposicionistas, elogiam Dona Graça e seu depoimento 

Pedro Simon, que começou às 15 horas e seis minutos, do alto do pedestal conquistado, elogiou abertamente Graça Foster. O que outros não quiseram fazer, Simon fez tranquilamente. Citou nominalmente os “apadrinhadores” para altos cargos.

E o que outros senadores tentaram manter em silêncio, ele nominou: “Sérgio Machado, da importantíssima Transpetro foi indicado por Renan Calheiros”. E ainda gozou: “Ele tem estabilidade no cargo. É que está há muito tempo na Transpetro”. 

Dona Gleisi Hoffmann, a última, desperdício de tempo 

Usou o que podia para defender a “CPI ampla”, mas com afirmação falsa: “Como existem tantas coisas a investigar, por que não investigar tudo numa CPI única?”. Primeiro porque é inconstitucional. E segundo que não se pode concentrar tudo.

O famoso Arquiteto americano Frank Lloyd Wright, quando percebeu que a tendência de Nova Iorque era a da “urbanização vertical”, fez um projeto gozação, concentrando toda a cidade em apenas um local. Ficou famosa a sátira, Dona Gleisi não passará de Curitiba..

O pessimismo de Cristóvão Buarque   

Criticou o endividamento da Petrobras, e afirmou: “Quando cresce o endividamento caem os preços das ações”. Ora, Graça Foster já havia dito no início do depoimento, que “o endividamento da Petrobras é investimento. E que de 2014 a 2018, “esse endividamento terá desaparecido”. O senador não estava presente ou se distraiu.

Dona Graça respondeu aos sete últimos senadores. Caminhando para 6 horas e meia de depoimento, Dona Graça fala às 16,20 

Impressionante. Começando às 10 da manhã, há essa hora, com uma interrupção de apenas cinco minutos, começa o encerramento depois da fala dos últimos sete senadores que chegaram atrasados.

Não almoçou, não bebeu água, não pediu um café, não demonstrou cansaço, estava em plena forma. Esse encerramento durou 26 minutos, mas ainda teve tempo, memória e satisfação de responder ao senador Inácio Arruda: “No ano passado, o investimento da Petrobras passou de 100 BILHÕES”. 

A oposição lamentou ter convidado Dona Graça. Se houver CPI, ela está fora das cogitações da oposição 

Ninguém esperava o desempenho fantástico da Presidente da Petrobras. “Altamente profissional”, como disse no início destas notas e como digo no final. A oposição se reuniu logo que acabou a sessão, e concluiu: “Foi a grande vitoriosa dos trabalhos”.

A sessão terminou as 16,51 minutos, ou seja, 6 horas e 51 minutos. Que não foram atrapalhados pelo exibicionismo do exibicionista Mário Couto. 

PS – Ontem enquanto a presidente Graça Foster depunha no senado, as ações da empresa operavam em baixa de até 2,50 em média. É que a Bolsa operava em queda de 2,34. 

PS1 – Como as ações da Petrobras têm a maior negociabilidade, quem queria fazer dinheiro, vendia Petrobras. Nada a ver com o depoimento da presidente da empresa. 

PS2 – O Supremo não tratou do Mandado de Segurança da oposição, contra a CPI-ampla. Ou julga amanhã ou ficará para depois do Chamado “feriadão histórico” de 21 de abril. 

PS3 – A relatora, Ministra Rosa Weber não faz um movimento, não dá uma palavra, não marca data.