HELIO
FERNANDES –
Nada mais positivo do que o que se inscreve nessa
palavra transparência, mas com limites. O mundo inteiro sabe ou conhece a
atração da TV. A quase impossibilidade de resistir à sua repercussão. Há
dezenas de anos, essa TV surgindo, Andy Warral gravou para sempre a expressão: “Agora
todos terão os seus 15 minutos de fama”.
Mas os tempos mudaram. O Visconde do Rio Branco, (pai
do Barão), era representante, ainda não havia embaixador do Brasil na Argentina
e Uruguai. Acusado injustamente de irregularidades, veio ao Brasil foi à Câmara
se explicar. Ainda no Império, na belíssima (e abandonada) Quinta da Boa Vista.
Discurso
de 8 horas, sem interrupção
Foi o tempo que usou, sem elevar a voz, respondendo a
muitas e diversas perguntas. É evidente que isso não poderia acontecer agora.
Como vivi muito e participei mais ainda, assisti e ouvi na Câmara e no Senado, (desde
a Constituinte de 1945 que Promulgou a Constituição de 46) discursos escritos
ou improvisados, de horas e horas. Em alguns casos, excelentes e aplaudidos.
O
limite agora no congresso
Na Câmara e no Senado, no tumulto e na velocidade da
vida de hoje, senadores e deputados, são chamados à tribuna com tempo marcado: “O
senhor tem 15 minutos”. E são interrompidos quando ultrapassam.
Só
em entrevistas e conferências, o tempo pode ser ilimitado
Quando se aposentou do Tribunal de Contas, o
extraordinário Maurício Azêdo foi eleito por unanimidade, presidente da ABI.
Imediatamente me chamou: “Helio, quero que você dê a aula magna pelos 98 anos
da ABI”. Concordei imediatamente.
16
páginas em abril de 2006
Foi simples, elucidativo, o auditório perplexo e impressionado.
Eu aparecia pouco na televisão, sempre fui “amaldiçoado” por banqueiros,
empresários nacionais e multinacionais (muitas vezes entrelaçados), se
assuntavam só com a expectativa do que eu fosse dizer.
O próprio Azêdo, dirigindo os trabalhos do que chamou
de aula magna, fez questão de publicar, editar, escrever a apresentação da capa.
Uma foto deste repórter, e o resumo desse notável jornalista que foi um dos
mais barbaramente torturados pela ditadura.
“A História de Helio Fernandes e com ela, a recente
História do Brasil”. Contou que estava emocionado quando ouviu e editou tudo, “nunca
vi tanto conhecimento e tanta facilidade para contar”. Eu estava então com 86
anos. Como pouca gente leu, vou transcrever apenas o que Maurício escreveu, a
ABI não precisava de limite, os que foram lá ficaram até o fim.
Textual
do que Maurício escreveu nesse número 307 da histórica ABI
Entre aspas desse jornalista, tão torturado, que o
então presidente da ABI, o notável Prudente de Moraes, neto, exigiu dois
generais, “que soltassem” Azêdo. Depois de muitas conversas e de várias idas de
Prudente ao Comando do Primeiro Exército, (ali perto da Central do Brasil),
Azêdo foi solto.
A
libertação de Azêdo
O prestígio de Prudente, pessoal e ainda mais com a presidência
da ABI, não comoveram mas intimidaram os mais torturadores dos generais. (E
daqueles que na época longe desse posto, serviram com toda a crueldade, e agora
tentam se livrar da responsabilidade. Mas não têm coragem de desnudar toda a
farsa dos generais, que já não podem ser atingidos nem pagarem pelos crimes
cometidos).
O
espetáculo da resistência
Fisicamente dilacerado, mentalmente atingido, Azêdo foi
praticamente carregado por Prudente e dois amigos. Não podia andar. Um carro
esperava o jornalista na Barão de Mesquita, centro principal, MAS NÃO ÚNICO, da
desumanidade dos que só admitem o poder. Há uma foto de Prudente e Azêdo,
abraçados, chorando, emocionante até mesmo de lembrar.
Não o choro da prisão ou da libertação. Mas a certeza
dos dois, que era uma liberdade individual, não representava o fim da repressão
e da ditadura, que ainda duraria muito. Mas pelo menos podia ser um avanço para
os que lutavam aberta, ostensiva, desassombradamente. Ou os que não abandonavam
a clandestinidade.
Depois
de EXALTAR o nunca tão e devidamente EXALTADO Maurício Azêdo, transcrição e resumo
da entrevista-aula-magna. (Textual do Presidente)
“A ABI abriu as comemorações do seu 98º aniversário de
fundação, com um evento muito especial: Helio Fernandes foi convidado a proferir
a aula magna de inauguração dos Cursos Livres de Jornalismo de 2006 e a narrar
sua trajetória profissional, que se confunde com a História do Brasil das
ultimas décadas e principalmente com a quadra dramática que o país viveu entre
1964 e 1985. É este seu longo depoimento, feito no dia 7 de abril, de um fôlego
só, sem parar para beber um gole só de água. É o que veremos a seguir”.
Conferências
pelo Brasil, saindo dos auditórios para a prisão, em muitos estados
Minha forma de expressão foi sempre a palavra escrita,
mas também a palavra falada. Cerceado de todas as maneiras, conquistei e OCUPEI
o espaço escrito, infelizmente não consegui o mesmo com o espaço falado. Em
1966, candidato a deputado, com as pesquisas me dando a maior votação, a
ditadura tentava de todas as maneiras impedir minha candidatura. Eu dizia em
todos os comícios: “Serei deputado, (pelo MDB autêntico e não o de Chagas
Freitas) e falarei todos os dias, se puder, até mesmo sábado e domingo”.
O general Golbery, encarregado da minha trajetória a
partir de 15 de novembro de 1966, antes da eleição, procurou meu compadre,
(Procurador da República na Guanabara, padrinho do Rodolfo que foi embora
cedíssimo), fez a proposta: “Doutor, se seu compadre desistir de ser candidato
não será cassado. Ele diz que vai falar todo dia. Se só com um jornal não nos
dá tranquilidade, como aguentá-lo com duas tribunas, a dele e a da Câmara?”.
E terminava: “Isso o presidente Castelo e muitos
generais, não admitem de jeito algum”.
Quem
não “admitiu” fui eu
Vários amigos das mais diversas atividades, me pediam
para retirar a candidatura, repetindo o que o próprio Golbery, com quem jamais
falei, apregoava: “Isso não vai durar a vida inteira, ele é moço terá outras
oportunidades”. Eu não queria oportunidade, a melhor delas era não sair da
trincheira.
Por hoje encerro as lembranças, gostaria que quem não
leu a entrevista procura-se na ABI, o Maurício citou dia, mês e ano. Ou
procurar por outros meios, até na Biblioteca Nacional, que tem tudo, facílimo
de encontrar. Na minha idade, nem é vaidade ou ambição, apenas a vontade de
lembrar e divulgar fatos e não apenas palavras.
Voltemos
ao Supremo, ao tempo desperdiçado ou aproveitado, é tudo entrelaçado
Com as novas tecnologias, seria facílimo restringir o
tempo, sem atingir a Liberdade de Expressão dos 11 Ministros. Cada um falaria
15 minutos. Se tivesse escrito voto-discurso, digamos de duas horas, todo o conteúdo
que sobrou, (nem quero denominar de “resto”) obrigatoriamente colocado na
internet, e lido a qualquer hora.
O
tempo que seria economizado
15 minutos para cada Ministro, seriam 165 minutos, duas
horas e 35 minutos. Admitamos que houvesse espaço entre o fim do voto de um
ministro e o começo de outro, coloquemos 3 horas. Como as sessões são abertas
as 14,30, às 17,30 os depoimentos estariam encerrados. As televisões
continuariam transmitindo, mas o resultado já seria conhecido.
Assim
como está, os 92 milhões de processos aumentariam
O mais alto tribunal do País, presidido de 2 em 2 anos,
por um Ministro que também preside o CNJ, (Conselho Nacional de Justiça) criado
para fiscalizar, dinamizar e acelerar a Justiça, não pode contribuir para imobilizá-la.
Ou pior: acelerar a lentidão.
Algum país do mundo, qualquer que seja o tamanho, a importância,
a população, não pode ter 92 MILHÕES de processos esperando tramitação, votação
e finalização.
PS –
Não posso esquecer de modo algum, o dado revoltante, e que acaba recaindo sobre
e contra o Supremo.
PS2 –
Desses 92 milhões de processos, 70 por cento deles, tem a União como RÉ ou como
AUTORA. Dessa forma, mesmo que indiretamente, Suas Excelências estarão
contribuindo com o retardamento premeditado.
PS3 –
O Procurador Geral Cláudio Fonteles, recusando processos da União, escreveu
duas palavras inesquecíveis: “Esse recurso é p-r-o-t-e-l-a-t-ó-r-i-o ou
p-r-o-c-r-a-s-t-i-n-a-t-ó-r-i-o.
PS4
–
Duas palavras conjugadas, que não se eliminam ou se contaminam, apenas se
completam. O mesmo que dizer das ditaduras, tanto faz a de 1937 quanto a de
1964: AUTORITÁRIAS, ATRABILIÁRIAS, ARBITRÁRIAS.
PS5 –
Hoje, quarta e amanhã quinta, com duas pautas importantíssimas, o Supremo já
poderia começar a abstinência do exagero, a competência do resumo.


