ADERSON BUSSINGER -
Primeiramente, desejo registrar que não apoiei o
golpe parlamentar-judicial que derrubou a presidente Dilma, trazendo para
presidência mais do que um corrupto golpista, mas fundamentalmente uma política
de governo antitrabalhador e entreguista que havia sido derrotada nas urnas em
2014.
Mas isto não significa nem aconselha que devamos
ser condescendentes com o PT e suas opções a direita. (E nem acreditar que PSDB
e PT sejam as únicas opções possíveis). Pois bem, em meio a mais esta
enxurrada de denúncias, envolvendo mais de 90 políticos, do PMDB,
PT, PSDB, PC do B, DEM e outros, vêm ocorrendo que muitos amigos - de forma
sincera - me questionam especialmente em relação ao PT, partido que ajudei a
organizar, inclusive tendo sido filiado e militado em Diadema, berço do petismo
militante e operário, ainda em 1989. Bons tempos ainda aqueles!
Mas mesmo sendo tempos bastante diferentes do que
hoje vivemos - e aqui começo (ou tento) responder a estes caros amigos que me
indagam sobre o meu ex-partido, tenho a dizer que realmente nada, absolutamente
nada do que hoje está ocorrendo me surpreende neste partido, bem como nos seus
mais de uma dezena de anos de habitação no palácio do Planalto. Ou no governo
do Rio de Janeiro juntamente com o PMDB de Cabral, nas alianças com Sarney,
Maluf, Jader Barbalho e Renan Calheiros, dentre muitos outros. Isto realmente
não poderia desaguar em um outro rio, senão no imenso e turvo rio dos negócios
do empresariado, financistas e, com estes, a corrupção intrínseca a este
minoritário meio e o que é muito pior: a traição da classe trabalhadora! A
defesa e gestão de outros interesses que não aqueles dos trabalhadores e da
maioria do povo.
E já em 1990, quando então militava, como advogado
trabalhista, na citada cidade de Diadema, corri da polícia, assisti na DP
dezenas de companheiros presos (dentre estes dois vereadores então do PT,
Romildo e Boni), detidos não por motivo de corrupção, mas por se oporem,
em dezembro de 1889, ao cruel desalojamento de centenas de famílias em um
bairro paupérrimo de Diadema, batizado pelos ocupantes de
"Vila Socialista". Ninguém me contou, pois eu próprio estava lá e vi:
a prefeitura governada pelo PT juntamente com o Estado comandado pelo Governador
Fleury, expulsando as famílias, crianças, idosos, debaixo de balas (não de
borracha) e muito gás lacrimogêneo. E um destes bravos vereadores (já naquela
época críticos dos retrocessos que tinham lugar no PT) perdeu a mão no
conflito.
Pois então, o que desejo dizer é que realmente nada
disto me surpreende, somente entristece, não pelo PT, (pois este, depois
disto, só fez degenerar ainda mais), mas pelo fato de que não conseguimos ainda
construir uma alternativa a esta direção petista, aos olhos de coletividades
mais amplas de trabalhadores e do povo em geral, que realmente seja
expressiva, efetiva, pois não estou aqui me referindo às tentativas do PSTU,
PCB, de setores de esquerda do PSOL e outras iniciativas menores. São todas
louváveis, dignas de respeito (eu mesmo tentei fazer isto quando estive
no PSTU). Mas o fato é que não conseguimos, salvo importantes inserções e
trabalhos no movimento sindical (mas muito sindical ainda), apresentar
uma alternativa de esquerda, ainda, ao malogro do atual governo, que possa
representar uma perspectiva política de real peso neste país continental.
Provavelmente, se tivéssemos logrado construir esta
frente de esquerda, não teriam ido às ruas tanta gente "de verde e
amarelo" apoiando, muitos sem até saber, políticas patronais da FIRJAN e FIESP.
E o que vemos, atualmente, é o pensamento de direita ganhar terreno, figuras
odiosas como Bolsonaro, no RJ, e outras populistas como Doria, em SP, ganharem
igualmente espaço nas mentes e corações de camadas do povo pobre, isto sem
contar o peso que passaram a ter na dita classe média. Não por seus méritos,
mas pela falta de opção visível à esquerda.
São enganadores, colocando-se como críticos dos
políticos e da corrupção, mas de fato vinculados, cada um ao seu modo, programa
(e financiamento), a velha política que rouba e explora o povo trabalhador
todos os dias, sem parar, desde longa data. "Salvadores da
Pátria", como também se arvora um outro político, dotado de outros
instrumentos (judiciais): o juiz Moro. Este, o novo caçador de corruptos (em
verdade apenas de parte destes...), com conexões nacionais e internacionais (EUA)
que certamente ainda virão à tona.
Collor foi outro destes "salvadores da
pátria brasileira". Deu no que deu. E ainda está dando... Mas voltando ao
que me surpreende, - ou não surpreende, eu realmente me surpreendo com
a incapacidade da esquerda (sem o PT, claro) de se unir em uma efetiva e cada
vez mais necessária frente de esquerda neste país, que reúna todos os homens e
mulheres que ainda defendem um governo DE TRABALHADORES, uma política de
classe, com um programa mínimo para governar para os trabalhadores, os
operários industriais, professores, intelectuais, funcionários públicos,
técnicos em geral, das áreas industriais e agrícolas, e principalmente aqueles
que cultivam a terra: os camponeses, os que também estudam, pequenos
comerciantes, donos de pequenos negócios que também trabalham; profissionais
liberais, movimentos sociais e libertários, contra todos os preconceitos, de
gênero, racial e sexual, fazendo assim uma verdadeira linha de corte neste
país, um "divisor de águas" neste sujo oceano da política,
colocando do OUTRO LADO, (e do outro lado mesmo!), banqueiros, industriais,
donos dos grandes grupos econômicos do comércio e prestação de serviços, a
elite nacional e estrangeira que, unidas, associadas, aqui só nos
faz explorar!
E assim, na luta primeiramente, e também nos
pleitos eleitorais, tentarmos somar forças para virar este jogo; acumular
forças para ganhar esta guerra; construir um país melhor, que só pode começar
pelo socialismo; e por isto só pode mesmo ser governado pelos trabalhadores, e
tudo isto com democracia, muita transparência, para que não deságue em outro
rio turvo de outrora: o estalinismo! Junto com os trabalhadores e a
maioria do povo, sempre.
Por isto, meus amigos, precisamos já de uma frente
de esquerda neste país, como temos visto na Grécia, Espanha, Portugal,
ainda que com problemas também, mas o saldo é positivo. Uma frente que una
inicialmente o PSOL, PSTU, PCB e movimentos sociais que estão na luta. Eu
acredito que este é o caminho, com todas as dificuldades deste, pois para muito
além de eleições, faz-se necessário, urgente, realizar uma forte greve geral no
próximo dia 28. Impedir o avanço destas contrarreformas em nosso país, em todos
os níveis: trabalhista, previdenciário, petróleo, agrário e educacional. Para
citar aqui as áreas atualmente mais atacadas pela sede de lucro do capital que maneja
como é sabido, o ilegítimo governo Temer.
* Aderson Bussinger. Advogado Sindical, Mestre em Ciências Jurídicas e Sociais/UFF, colaborador do site TRIBUNA DA IMPRENSA Sindical. Conselheiro da OAB-RJ (2016/2018), Diretor do Centro de Documentação e Pesquisa da OAB-RJ, membro Efetivo da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ. Membro Efetivo do Instituto dos Advogados Brasileiros-IAB.



