Por
KIKO NOGUEIRA - Via DCM -
Três questões emergem de
cara para quem assiste “Narcos”: 1) o que é aquele sotaque de Wagner Moura?; 2)
o sotaque de Wagner Moura é ruim, mas não atrapalha sua atuação; 3) por que não
escalaram um ator que falasse espanhol?
Passado esse momento de
estranheza, a nova série da Netflix satisfaz a sede do espectador que procura
uma história cheia de ação, bem filmada, com tiros, pancadaria, um pouco de
sexo e, claro, drogas.
Mas que não sai do chão.
Moura é Pablo Escobar, o
traficante de cocaína que, nos anos 80, montou um império do crime à frente do
infame cartel de Medellín, na Colômbia. Antes dos 30, já era o homem mais
poderoso do país. Estendeu seus tentáculos até Miami e invadiu o maior mercado
consumidor do mundo. Foi então que a agência nacional antidrogas americana
(DEA) decidiu caça-lo.
Escobar é uma figura
fascinante. Um tiozão barrigudo, um caseiro de sítio que se transforma num
monstro. O que o leva a isso? Como um contrabandista de eletrodomésticos se
transforma em Scarface?
“Narcos” não tenta dar
uma resposta.
Quem faz a narração é o
policial sem graça destacado para perseguir Escobar, Steve Murphy. O duelo
entre ele e Escobar toma conta da narrativa. Na ânsia de estabelecer
diferenças, um deles é honesto, loiro, atlético, fiel, casado com uma mulher de
bom coração dona de um gato que vai até trabalhar como voluntária num hospital
colombiano.
O oposto completo do
vilão Escobar, com seu cabelo ruim, o bigode ridículo, as calças baggy e a obesidade.
Escobar tem uma amante e mata inocentes. É um corrupto absoluto, filho de um
lugar corrupto.
A Colômbia de “Narcos” se
resume a florestas, onde ficam as refinarias de coca, e favelas. Nelas
vivem prostitutas, guerrilheiros cabeça oca que “leram Marx demais”,
políticos ladrões e padres comunistas da Teoria da Libertação. É um milagre
como aquela desgraça sobreviveu.
Milagre, não. Foi graças
à intervenção do pessoal da DEA, que acabou com a palhaçada e deu um jeito
na indiarada.
A certa altura, Murphy e
seu parceiro Peña vão parar no interrogatório de um bandido. O cara está
no pau de arara. Murphy fica chocado com a tortura e se retira. Ficamos
combinados que esse tipo de expediente foi inventado ali, portanto.
Em outra sequencia, numa
conversa com a embaixadora em Bogotá, ela explica que “os Estados Unidos não
interferem em assuntos internos” de outros países. Então, tá.
O carisma de Moura faz
com que se sinta alguma espécie de empatia para com Escobar. Mas ela não
avança. Não há motivo para sua desumanização. Escobar quer ser presidente — o
“Robin Hood colombiano”. Isso é tudo o que temos.
Tome como exemplo Walter
White, anti herói da fabulosa “Breaking Bad”, o pacato professor de química que
vira chefão do tráfico. Você acaba torcendo por White porque você entende
White. Há uma dose de complexidade necessária.
“Narcos” apresenta
diversas imagens de TV da época. Além do verdadeiro Pablo Escobar, há cenas dos
atentados que ele promoveu, bem como de confrontos militares, num belo esforço
documental.
O pano de fundo é a
falência da chamada Guerra às Drogas, declarada pelo casal Reagan. Numa
entrevista à DW, o diretor José Padilha afirma que “uma política de combate às
drogas que se concentra apenas na oferta cai num drama recorrente. É uma guerra
que nunca acaba, porque a demanda continua lá.”
Padilha encontrou uma
saída para explicar a complexidade da trajetória de Pablo Escobar (ou escapar
dela). “Há uma razão para o realismo fantástico ter nascido na Colômbia”,
Murphy diz (em que pese um tira conhecer uma escola literária
sul-americana, mas vamolá). “É um país onde os sonhos e a realidade se
misturam. Onde, em sua cabeça, as pessoas voam alto como Ícaro. Mas até o
realismo fantástico tem seus limites”.
É uma apropriação tola e
indevida. “Narcos” é bom entretenimento — que não decola. E a culpa não é de
Ícaro, de García Márquez ou do quase portunhol abaianado de Wagner Moura.



