DANIELA ABREU -
“As preparadas”, “as cachorras”, “as mina aqui no baile” que dançam “na boquinha da garrafa” e são pressionadas a se tornarem perfeitas já que “tudo que é perfeito a gente pega pelo braço, joga ela no meio mete em cima mete embaixo”. Estas são algumas das músicas que participaram da construção do imaginário de crianças e adolescentes. O machismo se faz presente em todos os espaços da sociedade brasileira, e a cultura de massa é um instrumento eficaz na construção desse pensamento.
Muitas
são as conquistas das mulheres na sociedade brasileira, mas longe ainda de se
findar a supremacia de uma sociedade machista, onde mulheres recebem salários
mais baixos, ausência de creches, desigualdades e muita violência. No Brasil a cada 15 segundos, uma mulher é espancada, ou
seja, 2,1 milhões de mulheres são espancadas por ano. A criação de leis é um
dos instrumentos importantes para intervir nesse processo, a lei do feminicídio
contribuiu para denunciar que este tipo de crime é motivado por machismo, onde
o homem se vê dono da mulher ao ponto de ter direito de tira-lhe a vida.
Buscando intervir diretamente na
formação das crianças e dos adolescentes dentro das escolas municipais do Rio
de Janeiro o Vereador Renato Cinco do PSOL criou a lei 5.858 que foi aprovada
11/05/2015 e entrou em vigor na data de sua publicação.
O projeto de lei se sustenta na
agressiva realidade onde índices de violência aumentaram muito nos últimos
anos. Pesquisas do ISP (Instituto de Segurança Pública do Rio de Janeiro)
trazidas no Dossiê Mulher 2013 relatam que em 2012 o somatório dos casos de
ameaça, estupro, homicídios, tentativa de homicídio e lesão corporal dolosa foi
de 45.449 ocorrências. E o Estado apresentou um aumento de 36% dos casos de
estupro, em relação ao ano anterior.
Hoje muitas meninas sofrem bulling
fruto do machismo que julga e apedreja. Tem tornando-se comuns imagens de
meninas nuas sendo disseminadas em redes sociais. Na maioria dos casos funciona
como prova de amor, ousadia para o menino que se gosta, algo bem semelhante com
a menina que fazia algum tipo de sexo para não perder o namorado. A dominação
do homem vai desde o sentimento que seu valor está em estar com alguém e
estando você, menina, fará tudo por ele. A história sempre ocorre com a menina
tirando uma foto para passar apenas para o menino amado, este a expõe em rede.
Existem casos que meninas chegaram a tentar suicídio, e muitas entraram em
depressão. Outro caso comum é o menino filmar uma atitude sexual e
compartilhá-la nas redes sociais, provavelmente o menino será visto como o
garanhão, supervalorizado pelos colegas e nada penalizado pela escola, enquanto
a menina será julgada e apedrejada, provavelmente convidada a se retirar da
escola.
Esta lei é um serviço para a
construção de uma sociedade sem violência e violação dos direitos, ela aposta
na formação de cidadãos melhores, sem preconceito e com compreensão que
mulheres e homens merecem respeito. Ela atua de imediato sensibilizando toda a
comunidade escolar, professores, funcionários, alunos e pais com a importância
dos direitos da mulher e ainda investe em um futuro sem machismo.
Se por um lado os meios de
comunicação e a cultura de massa são instrumentos fortes na formação do
indivíduo, a escola junto com a família são instituições basais. A escola é um
aparato ideológico, e em uma sociedade onde pais não conseguem estar presentes
no dia a dia devido a vida exprimida de tanto trabalho, a escola passa a ser a
sustentação prioritária da cultura e personalidade dos meninos e meninas.
Os
tempos são de grande conservadorismo e novas tecnologias, de cópias e não de
criação. Dentro das escolas públicas reina a meritocracia, desta forma o que
ficou em último plano é a formação do cidadão. A qualidade da educação
brasileira não consegue segurar a maquiagem e a ODCE (Organização para a
Cooperação e Desenvolvimento Econômico) revelou o 60º lugar no ranking entre 76
países. No exterior a educação brasileira é vista como uma fábrica de
analfabetos funcionais. Dentro desse quadro caótico a possibilidade de uma
educação voltada para a liberdade tem ficado distante.
Quais
os valores trabalhados hoje dentro das escolas, quais iniciativas contribuem
para a ruptura com o machismo? A maioria das escolas é afundada em métodos
didáticos sexistas, que impõe uma dominação ou acirra uma disputa geralmente
equivocada e desigual. O que é feito para que meninos respeitem as meninas, e
meninas não tenham medo e nem idolatrem os meninos? Como convencer que o menino
que assiste o padrasto, ou o pai batendo na mãe que isso é crime, e nenhuma
mulher, pode e merece apanhar?
A
lei não garante a erradicação, ela é um instrumento, mas o trabalho no dia a
dia da escola é o que irá construir uma verdadeira ruptura. O professor é ator
fundamental dessa transformação e terá a lei como um suporte para sua
intervenção.
No
meio de tanto conservadorismo leis avançam as lutas de séculos, e mulheres,
Gays, negros portadores de deficiência não estão mais a sombra. Todo o
preconceito precisa ser resolvido e toda diversidade respeitada.



