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Há algumas perguntas as quais é necessário responder para que se entenda
o conflito palestino-israelense e atual situação no Oriente Médio.
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| Militantes pró-Hamas em protesto contra Israel no Yêmen neste fim de semana |
1. Quando surge o Islã político?
Em 1928 é fundada a Irmandade Muçulmana no Egito que, com o passar dos
anos, foi se expandindo para vários países do mundo árabe. Esta foi a
primeira organização moderna a adotar o Islã como base de seu projeto
político.
Apesar de sua criação precoce e desenvolvimento teórico ao longo do
século XX, durante décadas foi ignorada pelos governos nacionalistas ou
pró-ocidentais que dominavam a região. Por conta das perseguições, seu
trabalho foi eminentemente social.
A irrupção massiva e expansão do islamismo se deu, então, a partir de
1979, com a chegada da Revolução Iraniana ao governo do país.
2. Quais são seus fundamentos?
O islã político parte da premissa de que os postulados do Islã são
aplicáveis a um programa político e integral para a sociedade. Daí
resulta a sharia, ou Direito Islâmico.
É necessário esclarecer que não existe uma única forma de interpretar o
Corão (livro sagrado dos muçulmanos) e os preceitos do Islã. Isso se
reflete, por sua vez, nas distintas organizações que promovem o
islamismo.
A sharia não é a mesma no Sudão (onde se pratica a mutilação genital
feminina), na Nigéria (onde é permitido apedrejar até a morte uma mulher
adúltera) ou no Irã, onde as mulheres podem dirigir e ir para a
universidade.
O cientista político francês François Burgat, especialista em Oriente
Médio, toca em um ponto básico, mas que carece de explicação: “São as
personalidades islâmicas que fazem o islamismo, e não o contrário”.
Além
disso, afirma que “segundo a natureza do terreno social que atravessa,
das forças políticas que dela se apropriam, e das reações dos governos, a
corrente islâmica se expressa com multiplicidade de registros e através
de modos muito distintos. Nenhum deles pode ser uma chave de leitura
única e atemporal”.
Por isso, é incorreto dizer que o Hamas, na Palestina, é o mesmo que o
Boko Haram, na Nigéria, ou então a Irmandade Muçulmana, no Egito.
3. Que setores sociais representa o Islã político?
Com a revolução iraniana de 1979 e o primeiro governo islâmico da
história, irrompem na política setores sociais que haviam sido relegados
àquele rincão do mundo.
O estudioso francês Gilles Keppel aborda essa questão ao defender que
“o movimento islâmico é dúbio. Nele, encontramos a juventude urbana
pobre, oriunda da explosão demográfica do terceiro mundo, do êxodo rural
massivo e que, pela primeira vez na história, tem acesso à
alfabetização.” Keppel explica que também o integram “a burguesia e as
classes médias piedosas que foram marginalizadas no momento da
descolonização, levada a cabo pelos miliares e por dinastias fundadas
por meio do poder".
Isso quer dizer que o islamismo tem um apoio popular significativo,
especialmente em sua versão mais radical, e também nacional. Mas não
significa necessariamente que incorpore um projeto político ligado às
reivindicações populares progressistas ou de esquerda.
4. Por que o islamismo se dividiu em duas correntes majoritárias?
Toda revolução gera uma reação, e o caso do Irã não foi a exceção. A
chegada ao poder do Aiatolá Khomeini em 1979 determinou o auge do Islã
político e também a sua radicalização, em contraposição aos esforços
reformistas da histórica Irmandade Muçulmana.
É assim que aparecem e ganham força, na década de 1980, grupos armados
islâmicos, como o Hezbollah, no Líbano, e o Hamas, na Palestina.
Em resposta, a dinastia da Arábia Saudita emerge como foco de contenção
à radicalidade desses novos movimentos. O islamismo conservador passou,
assim, a ser financiado por um dos países mais ricos do mundo e seus
aliados estratégicos.
Para sufocar a tentativa de estender a revolução iraniana ao resto do
Oriente Médio, a Arábia Saudita impulsionou sua própria “cruzada”: a
guerra do Afeganistão. Milhares de mujahidines foram enviados como
combatentes internacionalistas a deter o avanço do comunismo soviético
por meio da dinastia de Riad. Dessa situação nasceu a ligação do saudita
Osama Bin Laden ao Taliban, que então governava o Afeganistão.
5. Como e por que surge o Hamas?
Neste contexto convulsionado do Oriente Médio, com o Islã político no
auge durante a década de 80, surge o Hamas (“Despertar”, em árabe).
Embora suas origens estejam ligadas à Irmandade Muçulmana egípcia,
devido ao trabalho social que realizava principalmente na Faixa de Gaza,
a nova organização expressou e expressa uma das versões do islamismo
radical, como consequência da influência da Revolução Iraniana.
A primeira Intifada (“levantar a cabeça”), que começou em 1987 e durou
até os Acordos de Oslo de 1993, foi o contexto no qual emergiu este novo
movimento político-militar. Durante estes anos, as populações
palestinas de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental se rebelaram contra
a ocupação israelense.
6. O Hamas foi impulsionado por Israel?
Poucas mentiras sobre o conflito palestino-israelense foram tão
difundidas e aceitas, inclusive em ambientes ocidentais progressistas.
Como citado anteriormente, o Hamas surgiu de organização do trabalho
social realizado nas mesquitas palestinas, muito similar ao promovido
pela Irmandade Muçulmana no Egito. Durante décadas, Israel permitiu a
proliferação do trabalho religioso islâmico por considerá-lo inofensivo e
por representar um freio à posição laica, democrática e de libertação
nacional da OLP (Organização para a Libertação da Palestina).
Aqui nasce
o erro e a distorção histórica.
Foi esta construção subterrânea que permitiu ao Hamas desenvolver uma
hegemonia muito forte entre a população (fundamentalmente de Gaza). A
Revolução Iraniana e a politização massiva do Islã no Oriente Médio
catapultaram o trabalho social ao plano político.
7. Quais as diferenças entre o Hamas e a OLP?
Primeiramente, o Hamas é uma organização cujo objetivo é construir um
Estado islâmico na região histórica da Palestina, enquanto a Organização
para a Libertação da Palestina é laica, e portanto luta por um Estado
palestino democrático e similar ao estilo ocidental.
Outro ponto de divergência na década de 90 foi o reconhecimento do
Estado de Israel como tal. Após anos de luta, a OLP optou por negociar, e
dessa forma se alcançou os Acordos de Oslo, que deram origem à
Autoridade Nacional Palestina (ANP), governo do proto-Estado que nunca
se constituiu devido às violações por parte de Israel.
O Hamas, por sua vez, nasceu e postula, em sua carta orgânica, a
destruição do Estado de Israel. Por isso, rejeitou, no começo, os
Acordos de Oslo e a ANP. Esta postura inicial, entretanto, se converteu
com o tempo em posições mais realistas.
8. Qual é a política atual do Hamas?
No início, o Hamas adotou um linha de ação radical, que incluía a
realização de atentados suicidas entre 1994 e 2004 (desde então não
voltou a realizá-los, embora a propaganda israelense os cite
sistematicamente). A radicalização, somada à posição mais diplomática da
OLP, permitiu ao grupo crescer e se consolidar como uma alternativa
diferente ao povo palestino.
No entanto, sua política tem variado. Em 2001, Ahmed Yassin, dirigente
máximo da organização, assassinado em 2004 por Israel, afirmou: “Não
lutamos contra povos de outras religiões ou judeus pelo fato de serem
judeus. Lutamos contra os que ocuparam nossas terras, tomaram nossas
propriedades, transformaram em refugiados nossas famílias e massacraram
nossos filhos e mulheres".
Em 2006, o Hamas concorreu pela primeira vez às eleições legislativas
para a ANP. Em um dos pleitos mais democráticos da região, saiu
vencedor. Mas Israel e Estados Unidos tentaram dividir e deslegitimar o
triunfo do grupo islâmico. Com certo consentimento do Fatah (a
organização preponderante a OLP), o governo palestino se fragmentou em
dois: Hamas em Gaza e OLP na Cisjordânia.
Esta divisão favoreceu e favorece a política israelense de negar a
criação de um Estado palestino autônomo e soberano. Porém, no início
deste ano, Hamas e OLP haviam firmado acordo para reunificar o governo
palestino mediante uma administração de transição, até que se
realizassem novas eleições. A decisão palestina provocou a ira do
governo de Israel, que poucos meses depois, principiou a ofensiva que
perdura até agora.
(*) Artigo originalmente publicado no portal Notas; tradução por Anna Beatriz Anjos, da Revista Fórum. Leia também: artigo de Breno Altman: judaísmo não é sionismo



