Por IGOR MENDES
- Via MÍDIA Democrática -
Há certas afirmações que,
repetidas ao longo do tempo, são encaradas como verdades absolutas, sobre as
quais não cabe contestação. Uma delas é a que diz que, no nosso país, há uma
tradição de composição e conciliação, que preza as continuidades em detrimento
das rupturas.
Se essa afirmação se referir
às classes dominantes, aos oligarcas que, de um modo ou de outro e ligeiramente
modificados, nos governam há cinco séculos, terá lá o seu fundo de verdade.
Preferiram sempre a posição subalterna, à sombra do colonialismo português,
depois do imperialismo inglês e, finalmente, norte-americano, a ver qualquer
mínima ameaça aos seus privilégios. Antes vender o Brasil, fatia-lo,
surrupia-lo, a perder a chance de um bom negócio. Temos, na relação
subserviente frente à máfia FIFA, mais um exemplo dessa postura.
Mas seria errado tomar o
Brasil por suas classes dominantes. Esse país possui, sob o tacão dos “de
cima”, um povo trabalhador, heróico, com longa trajetória de lutas. Esse povo
não optou pelas conciliações com as oligarquias internas e estrangeiras;
elas lhe foram impostas a ferro e fogo sempre que exigiu ir além. Não
possui o Estado brasileiro, ao longo da sua formação, nenhuma tradição liberal
ou democrática, ao contrário, forjou a si próprio e às suas instituições na
repressão implacável a qualquer contestação social. A “jovem República”
barbarizando Canudos, na defesa do latifúndio semifeudal, é por si mesmo uma
imagem evidente. No Araguaia não se fizeram prisioneiros. Se essa é a tradição
de paz e conciliação que temos, só se for a conciliação e a paz dos cemitérios.
No ano de 2013 a nossa
juventude, a juventude combatente, da qual, com orgulho, faço parte, fez
história. Ninguém duvida que as jornadas de junho, que são produto de anos de
contradições e desilusões acumuladas, principalmente com um governo dito de
“esquerda” (Lula e depois Dilma) que prosseguiu e aprofundou todos os projetos
essenciais de FHC, inclusive trazendo a Copa e todo seu legado de remoções e arbitrariedades,
estarão nos livros nos anos vindouros. Essas jornadas, a princípio condenadas
com veemência pelos monopólios de imprensa e governos, foram depois canonizadas
por esses setores, que tentaram delas se apropriar para, logo em seguida,
frustrados seus planos, retornarem à política de repressão e demonização dos
protestos.
O Congresso Nacional fez
aprovar, celeremente, a nova lei de organizações criminosas (lei 12.850/13),
visando flexibilizar a noção de associação criminosa para poder nela enquadrar
manifestantes. Não por coincidência foi essa lei utilizada para enviar, em
outubro último, mais de 70 ativistas para o complexo penitenciário de Gericinó
(Bangu) – ao passo que os policiais que espancaram covardemente professores
grevistas seguiram livres e atuando nas ruas. Também tramita a lei
antiterrorismo, suspensa durante a Copa para “não pegar mal” para o governo,
mas que, se depender do Planalto e da imprensa terrorista da Rede Globo &
cia, será aprovada em breve. A própria lei de segurança nacional do regime
militar –vejam só! – não apenas não foi revogada como recentemente, em São
Paulo, foi acionada por um delegado para enquadrar dois ativistas.
Muito se ouviu o refrão:
manifestação pode, manifestação violenta não pode. Entretanto, durante a Copa
do Mundo, o que vimos? A proibição de fato de toda e qualquer
manifestação, com cercos militares em praças e vias públicas. Aliás, os abusos
cometidos durante a final da Copa, no dia 13/07 na praça Saens Peña, não
encontram precedentes e denunciam que a Polícia Militar do Rio de Janeiro agiu
com carta branca de seus comandantes –governo estadual e, sem dúvida, também,
governo federal. Na véspera um inquérito evidentemente político resultou na
expedição de mandados de prisão contra 26 ativistas, e bandeiras, jornais e
panfletos foram expostos como “provas” de crimes em entrevista coletiva
ocorrida na Cidade da Polícia.
Diante da contestação,
responde o Estado brasileiro de acordo com as suas tradições: com o
recrudescimento da repressão. Os processos e as prisões contra os ativistas
marcam, sem dúvida, o anti-junho, o contra-ataque furioso por parte daqueles
que, por covardia ou puro oportunismo, engoliram a seco as marchas de junho –e
julgam que chegou a hora da desforra.
Não venham depois, os historiadores
do futuro, dizer que as jornadas de junho terminaram em pizza. A isso querem
reduzi-la os políticos corruptos, monopólios de imprensa e magnatas do
presente. Mas contra essa força cresce e se organiza cada vez mais consciente
resistência. Se algo mudou nesse país depois de junho não foram as leis, nem as
condições de vida e nem mesmo as tarifas de transporte –que voltaram a subir,
aliás. O que mudou, e mudou para sempre, é o fato de que nosso povo
discute cada vez mais política, se politiza cada vez mais, sente a necessidade
e a legitimidade de lutar por seus direitos. Cresce também o rechaço, mais do
que justo e necessário, aos políticos profissionais e às eleições, e a
consciência de que verdadeiras transformações só podem ser ganhas nas ruas, com
muita briga. Essa consciência é o grande legado de junho, o antídoto à reação
anti-junho, e a condição para que mudanças mais profundas ocorram, mais dia
menos dia.
*Igor Mendes é universitário e um dos processados no chamado inquérito "da Copa".



