Via O Popular -
O padre secular César Garcia foi afastado de suas funções religiosas até
a conclusão de um inquérito pela Igreja Católica. Ele foi comunicado da
decisão na tarde do dia 10/6 pelo arcebispo de Goiânia, d.
Washington Cruz. O motivo foi a bênção que ele deu na casa do casal de
arquitetos Léo Romano e Marcelo Trento, em maio deste ano, quando eles
celebravam a união. Amigo do casal e de outras pessoas que estavam na
comemoração, o padre abençoou a casa e os presentes.
Fotos foram divulgadas em redes sociais e
podem, segundo o religioso, ter dado a impressão de que ele teria
celebrado a união de Romano e Trento, o que ele diz que não aconteceu.
Dia 10, o padre César, que
exerce o sacerdócio em Goiânia há 30 anos, deixou a Paróquia São
Leopoldo, no Setor Jaó, onde ele estava há seis meses – ele nunca morou
em casa paroquial nem recebeu salários da Arquidiocese, como fez questão
de ressaltar. Em entrevista ao POPULAR, César fez críticas ao seu
afastamento e atribuiu a reprimenda à atuação de um grupo
fundamentalista e homofóbico inserido na Igreja Católica. O POPULAR
procurou a Arquidiocese de Goiânia, com várias ligações para a
assessoria de imprensa e o envio de dois e-mails – inclusive por
sugestão da assessora –, onde pedia informações sobre o afastamento do
religioso. Até o fechamento desta edição, nenhuma resposta foi dada.
Ao POPULAR, o padre César disse que se
sente “de luto”. “Estou sendo punido por um ato de bondade que fiz.
Infelizmente, o arcebispo de Goiânia fez uma leitura positivista do
Direito Canônico, levando ao pé da letra alguns cânones. Estou sendo
tolhido em meu direito de ir e vir”, disse o padre, lembrando que agiu
com todo respeito às normas da Igreja, sem uso de paramentos. “Falei
sobre o amor, a importância da vida e de acolher a todos, não disse nada
que contrariasse a lei canônica”, assegurou. “Fui chamado como um amigo
e abençoei a casa deles”.
Agora, o processo contra o padre César
Garcia terá curso na Arquidiocese de Goiânia. Ele explica que um bispo
deverá ser designado por d. Washington porque não há juiz em Goiânia.
Depois de concluído o processo, quando todos forem ouvidos, será tomada a
decisão, pelo Tribunal Eclesiástico, em Goiânia. Então, caso queira, o
religioso poderá recorrer à Sagrada Congregação, em Roma.
Procurado, o arquiteto Léo Romano
lamentou o que ele definiu como “uma reação retrógrada, homofóbica, em
um momento em que se acha que a questão está evoluindo, com um papa
novo”. “Acho que esse ato é, mais do que tudo, um desrespeito, como se a
gente não pudesse ganhar uma bênção e receber em casa um amigo, que não
estava lá como chefe da Igreja, mas como ser humano”, afirmou Romano.
Ele disse que seguirá do lado do religioso até o fim. “Não é uma
discussão que eu gostaria de levantar, mas, infelizmente, esse caso pode
alavancar um debate sincero”, disse o arquiteto, enfatizando que vive
com o companheiro há 11 anos e que tem recebido manifestações de
respeito e admiração até de pessoas que não conhece por causa da
celebração da união.
Perfil
Padre
César Garcia atua há 30 anos como padre em Goiânia. A primeira
experiência dele como pároco foi na Paróquia Auxílio dos Cristãos, no
Jardim América, onde permaneceu por 20 anos e desenvolveu uma grande
mobilização, principalmente de jovens. Depois, ele passou dez anos na
Reitoria de Nossa Senhora das Graças. Estava há seis meses está na
Paróquia São Leopoldo, que deixou ontem. Nos últimos meses, vem fazendo
viagens internacionais com a missão, conforme define, de evangelizar no
caminhar.
Entrevista/Padre César Garcia
“Não mereço tamanha injustiça”
Em entrevista ao POPULAR poucas horas
depois de receber o comunicado do arcebispo de Goiânia, d. Washington
Cruz, o padre César Garcia se disse injustiçado e afirmou que os que o
acusam são retrógrados e sofrem de homofobia
Por que o senhor foi suspenso pela Igreja?
Fui suspenso porque tomei uma atitude
ousada, uma atitude que Jesus tomaria, de abençoar e falar de amor. Nas
palavras dele, quem não tiver pecado, que atire a primeira pedra. Eu
poderia dizer isso aos meus algozes, mas aceito e cumprirei esse
afastamento, mas não me furtarei a amar as pessoas. A Igreja Católica
precisa redefinir muitas questões, sobretudo morais, precisa abrir as
portas.
Afinal, houve uma cerimônia religiosa?
Não houve. O que houve ali foi uma
palavra minha. As pessoas que estavam lá testemunham isso. Usei o
microfone na frente deles, as fotos foram divulgadas e houve essa
interpretação errônea. Não sei como ele (d. Washington) celebrará a
missa e rezará o Pai Nosso dizendo “seja feita a vossa vontade”. A
vontade de Deus tem de ser feita antes da vontade pessoal e anacrônica
dele. Estou sendo punido por uma injustiça sem precedentes, punido por
uma atitude homofóbica de setores fundamentalistas, que fazem uma
interpretação distorcida do Direito Canônico.
O senhor pretende recorrer?
Sim, se eles mantiverem
meu afastamento, recorrerei à Sagrada Congregação do Clero. Isso, sem
falar que tenho direitos também na Justiça Civil, porque estou sofrendo
uma perda moral.
O que o senhor diria para outros padres?
Acredito que esse ato de bravura de
minha parte vai provocar uma discussão na sociedade, o que é muito bom. A
partir disso, quem sabe tenhamos pastores mais sensíveis que venham ao
encontro do povo. A Igreja em Goiânia está um grande marasmo, tudo
parado.
* Por Carla Borges.



