18.6.14

Padre César é afastado por dar bênção a casal homoafetivo

Via O Popular - 

O padre secular César Garcia foi afastado de suas funções religiosas até a conclusão de um inquérito pela Igreja Católica. Ele foi comunicado da decisão na tarde do dia 10/6 pelo arcebispo de Goiânia, d. Washington Cruz. O motivo foi a bênção que ele deu na casa do casal de arquitetos Léo Romano e Marcelo Trento, em maio deste ano, quando eles celebravam a união. Amigo do casal e de outras pessoas que estavam na comemoração, o padre abençoou a casa e os presentes.

Fotos foram divulgadas em redes sociais e podem, segundo o religioso, ter dado a impressão de que ele teria celebrado a união de Romano e Trento, o que ele diz que não aconteceu.

Dia 10, o padre César, que exerce o sacerdócio em Goiânia há 30 anos, deixou a Paróquia São Leopoldo, no Setor Jaó, onde ele estava há seis meses – ele nunca morou em casa paroquial nem recebeu salários da Arquidiocese, como fez questão de ressaltar. Em entrevista ao POPULAR, César fez críticas ao seu afastamento e atribuiu a reprimenda à atuação de um grupo fundamentalista e homofóbico inserido na Igreja Católica. O POPULAR procurou a Arquidiocese de Goiânia, com várias ligações para a assessoria de imprensa e o envio de dois e-mails – inclusive por sugestão da assessora –, onde pedia informações sobre o afastamento do religioso. Até o fechamento desta edição, nenhuma resposta foi dada.

Ao POPULAR, o padre César disse que se sente “de luto”. “Estou sendo punido por um ato de bondade que fiz. Infelizmente, o arcebispo de Goiânia fez uma leitura positivista do Direito Canônico, levando ao pé da letra alguns cânones. Estou sendo tolhido em meu direito de ir e vir”, disse o padre, lembrando que agiu com todo respeito às normas da Igreja, sem uso de paramentos. “Falei sobre o amor, a importância da vida e de acolher a todos, não disse nada que contrariasse a lei canônica”, assegurou. “Fui chamado como um amigo e abençoei a casa deles”.

Agora, o processo contra o padre César Garcia terá curso na Arquidiocese de Goiânia. Ele explica que um bispo deverá ser designado por d. Washington porque não há juiz em Goiânia. Depois de concluído o processo, quando todos forem ouvidos, será tomada a decisão, pelo Tribunal Eclesiástico, em Goiânia. Então, caso queira, o religioso poderá recorrer à Sagrada Congregação, em Roma.

Procurado, o arquiteto Léo Romano lamentou o que ele definiu como “uma reação retrógrada, homofóbica, em um momento em que se acha que a questão está evoluindo, com um papa novo”. “Acho que esse ato é, mais do que tudo, um desrespeito, como se a gente não pudesse ganhar uma bênção e receber em casa um amigo, que não estava lá como chefe da Igreja, mas como ser humano”, afirmou Romano. Ele disse que seguirá do lado do religioso até o fim. “Não é uma discussão que eu gostaria de levantar, mas, infelizmente, esse caso pode alavancar um debate sincero”, disse o arquiteto, enfatizando que vive com o companheiro há 11 anos e que tem recebido manifestações de respeito e admiração até de pessoas que não conhece por causa da celebração da união. 

Perfil 

Padre César Garcia atua há 30 anos como padre em Goiânia. A primeira experiência dele como pároco foi na Paróquia Auxílio dos Cristãos, no Jardim América, onde permaneceu por 20 anos e desenvolveu uma grande mobilização, principalmente de jovens. Depois, ele passou dez anos na Reitoria de Nossa Senhora das Graças. Estava há seis meses está na Paróquia São Leopoldo, que deixou ontem. Nos últimos meses, vem fazendo viagens internacionais com a missão, conforme define, de evangelizar no caminhar. 

Entrevista/Padre César Garcia

“Não mereço tamanha injustiça” 

Em entrevista ao POPULAR poucas horas depois de receber o comunicado do arcebispo de Goiânia, d. Washington Cruz, o padre César Garcia se disse injustiçado e afirmou que os que o acusam são retrógrados e sofrem de homofobia 

Por que o senhor foi suspenso pela Igreja?
Fui suspenso porque tomei uma atitude ousada, uma atitude que Jesus tomaria, de abençoar e falar de amor. Nas palavras dele, quem não tiver pecado, que atire a primeira pedra. Eu poderia dizer isso aos meus algozes, mas aceito e cumprirei esse afastamento, mas não me furtarei a amar as pessoas. A Igreja Católica precisa redefinir muitas questões, sobretudo morais, precisa abrir as portas. 

Afinal, houve uma cerimônia religiosa?
Não houve. O que houve ali foi uma palavra minha. As pessoas que estavam lá testemunham isso. Usei o microfone na frente deles, as fotos foram divulgadas e houve essa interpretação errônea. Não sei como ele (d. Washington) celebrará a missa e rezará o Pai Nosso dizendo “seja feita a vossa vontade”. A vontade de Deus tem de ser feita antes da vontade pessoal e anacrônica dele. Estou sendo punido por uma injustiça sem precedentes, punido por uma atitude homofóbica de setores fundamentalistas, que fazem uma interpretação distorcida do Direito Canônico. 

O senhor pretende recorrer?
Sim, se eles mantiverem meu afastamento, recorrerei à Sagrada Congregação do Clero. Isso, sem falar que tenho direitos também na Justiça Civil, porque estou sofrendo uma perda moral. 

O que o senhor diria para outros padres?
Acredito que esse ato de bravura de minha parte vai provocar uma discussão na sociedade, o que é muito bom. A partir disso, quem sabe tenhamos pastores mais sensíveis que venham ao encontro do povo. A Igreja em Goiânia está um grande marasmo, tudo parado. 

* Por Carla Borges.