1.4.14

SP: MANIFESTAÇÃO PEDE PUNIÇÃO PARA TORTURADORES

Via Caros Amigos -

Manifestação em São Paulo ocupou prédio do DOI-Codi, antigo centro de tortura e repressão.

Manifestantes se reuniram nesta segunda-feira (31) em frente à antiga sede do Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operação de Defesa Interna (DOI-Codi), em São Paulo, para relembrar o golpe que instaurou a ditadura civil-militar (1964-1985) no Brasil e pedir a punição dos responsáveis pelas torturas, mortes e desaparecimentos durante o período. 

DOI-Codi

A manifestação "Ditadura Nunca Mais: 50 anos do golpe militar" começou por volta das 10h horas com a presença de cerca de 400 pessoas em frente a 36º Distrito Policial, antigo centro de prisão e tortura dos presos políticos, como no caso emblemático do assassinato do jornalista Vladimir Herzog, em 1975. Segundo a Comissão Estadual da Verdade Rubens Paiva, "entre os anos de 1969 e 1978, sofreram torturas neste prédio mais de oito mil pessoas e mais de cinquenta delas foram assassinadas".

No pátio interno da delegacia, antigos militantes, parentes de vítimas e organizações sociais se revezavam no palco montado no local para lembrar as vítimas da ditadura e exigir que seja feita uma revisão da Lei de Anistia, para que os torturadoes e responsáveis pela ditadura possam ser responsabilizados por seus atos. Ao final da manifestação, os militantes entoaram a "Internacional" em conjunto.

Lei da Anistia

O presidente da Comissão da Verdade do Estado de São Paulo Rubens Paiva, Adriano Diogo, afirmou: "A Lei da Anistia foi constituída por senadores biônicos, ela é completamente ilegítima, o Brasil já foi inclusive criticado pela Organização dos Estados Americanos (OEA) por sua interpretação da lei, eu digo: reveja-se a Lei da Anistia que o povo fará o resto! O povo brasileiro é progressista, não vai apoiar aquela chacina em massa que ocorreu". O deputado também lamentou a falta do governo do Estado: "Não havia ninguém do governo do Estado, é um ausência intencional, não havia porque não ir, o ato não é contra o governo, mas não havia ninguém, nenhum representante que reconhecesse a importância da manifestação".

Os organizadores da manifestação afirmaram em nota que "Para combater o esquecimento e desmontar a estrutura autoritária que o País herdou da ditadura, é preciso que sejam identificados e punidos exemplarmente todos os torturadores, seus mandantes e financiadores". Além dos militares, estiveram envolvidos na ditadura setores da sociedade civil, como grandes empresários, caso do presidente da Ultragás Henning Boilesen, que financiava operações de prisão e tortura e fornecia equipamentos e benefícios à torturadores, e a mídia que apoiava o golpe.

Segundo pesquisa do Instituto Datafolha a maioria da população é a favor da revisão da Lei da Anistia. Segundo o instituto, 46% são a favor da punição dos torturadores e financiadores da ditadura; 41% são contra e 13 % disseram que não sabem. Em 2010, em pesquisa do mesmo instituto, 45% eram contra e 40% a favor, o que mostra uma mudança na opinião pública nos últimos 4 anos, que ficou mais crítica à ditadura.

Em entrevista ao portal Carta Maior, o jurista Fábio Konder Comparato, afirmou que a lei que anistiou militares e militantes em 79 foi resultado de "um pacto entre as Forças Armadas e os grupos que exerciam a soberania antes do golpe de Estado de 1964 – ou seja, os titulares do poder econômico privado e os agentes políticos conservadores – objetivando garantir a impunidade dos responsáveis pelos crimes de terrorismo de Estado durante o regime de exceção". Para o professor, "Desde o julgamento dos criminosos nazistas pelo Tribunal Internacional de Nuremberg, em 1945, tais crimes são qualificados como de lesa-humanidade. Nesse sentido, são insuscetíveis de prescrição e anistia"

Violência policial

Além de tratar das feridas do passado, a manifestação também se colocou contra o atual derramamento de sangue de responsabilidade da Polícia Militar. Segundo nota da organização, "a cultura da morte praticada pelas polícias militares é continuidade do que fizeram os assassinos do DOI-Codi, com a mesma falsa versão de resistência seguida de morte para ocultar o extermínio de jovens negros e pobres das periferias de nossas cidades. A banalização da violência por parte da PM é a pior herança da ditadura militar".

Para os ativistas, é preciso lutar contra propostas de reformas legislativas como a Lei Antiterror e a portatia "Garantia da Lei e da Ordem" que criminalizam os movimentos sociais e populares através da figura do "inimigo interno".