CARLOS CHAGAS -
Uma das perguntas que mais se ouve hoje refere-se ao que acontecerá
na sucessão presidencial caso o selecionado do Brasil ganhe ou perca a
copa do mundo de futebol. Ainda que se torne necessário ressalvar que se
fala do selecionado brasileiro, não do Brasil, fica difícil separar os
dois valores. Em certas ocasiões, a paixão costuma prevalecer sobre a
razão.
Dúvidas inexistem de que se o time do Felipão chegar à final e
vencer, um clima de euforia tomará conta do país. Vale lembrar que nos
idos de 1970 o país vivia um de seus períodos mais abjetos,
politicamente. Garrastazu Médici fora eleito no final do ano anterior
por uma singular eleição direta: só puderam votar os generais,
almirantes e brigadeiros do serviço ativo das forças armadas. Escolheram
o mais obscuro, amorfo, insosso e inodoro deles, aquele que muito antes
do AI-5 já pregava sua edição, como chefe do Serviço Nacional de
Informações. No poder, praticou a censura à imprensa, estimulou a
repressão e fechou os olhos à tortura. Uma de suas qualidades, porém,
era gostar de futebol. Escondido, comparecia ao Maracanã, ao Pacaembu e
às vezes ao Beira-Rio para assistir grandes partidas.
Chegava sem alarde, não permitia que se anunciasse a sua presença e
assistia os jogos de bem disfarçadas cabines de transmissão radiofônica.
Na véspera da final entre as seleções do Brasil e da Itália, pela
primeira vez transmitidas pela televisão, em preto e branco, do México,
mandou convocar a imprensa para uma entrevista. Animaram-se os
jornalistas de Brasília, pois havia ânsia de se perguntar a respeito de
seus planos para o restabelecimento da democracia, que prometera sem
deixar os fatos corresponderem às falas intenções. Na entrada da granja
onde passava os fins de semana, um coronel avisava os repórteres: “o
presidente não falará de política. Só de futebol.”
Mesmo assim, a imprensa compareceu em peso. Como sempre, lá estavam
bajuladores e serviçais da ditadura, um deles não perdendo a
oportunidade: “e amanhã, presidente, vamos ganhar? O senhor arriscaria
uma previsão do resultado?” Veio a eufórica resposta: “Brasil, 4 a 1!”
No dia do jogo, todos os jornais divulgaram a previsão, em suas
primeiras páginas. O país inteiro concentrou-se diante das telinhas,
inclusive presos políticos e torturadores, pois até os carcereiros
facilitavam o acesso às imagens. Faltando dez minutos para o
encerramento, nosso craques venciam por 3 a 1, certeza da conquista da
copa. Nessa hora, a população rachou. Quando Pelé, Tostão, Gerson e
Rivelino pegavam na bola, metade do Brasil exortava por mais um gol,
para que o palpite do presidente Médici se realizasse. A outra metade,
emocionada e irritada, não continha os gritos de “joga para trás, põe a
bola na lateral, chuta para o alto”, na esperança de que já estando
conquistada a copa, melhor o ditador não sair vitorioso. Pois não é que
nos minutos finais o Pelé dribla dois ou três italianos e escorre a bola
para o lado direito, de onde vem Carlos Alberto, feito um caminhão sem
freios. Num chute magistral o capitão encerra o placar: Brasil, 4 a 1…
Foi a consagração do ditador. Durante meses ele continuaria
frequentando os estádios, mas mandando anunciar pelos alto-falantes a
sua presença nas tribunas de honra: “acaba de dar entrada no estádio Sua
Excelência o presidente da República, Emílio Garrastazu Médici.”
Pasmem os jovens do hoje, até 100 mil pessoas, como num dia de
Fla-Flu, levantaram-se para aplaudir o general! Era o arauto do
tricampeonato mundial, o conquistador da glória nacional. Tanto fazia se
a repressão, a tortura e censura se acentuassem ainda mais.
É claro que aquele sentimento de euforia foi-se esvaziando e que,
meses depois, o Brasil voltasse a perceber que tipo de presidente
possuía.
Sendo assim, que reflexos sobre a campanha de Dilma pelo segundo
mandato terá a performance do selecionado brasileiro? A primeira
conclusão é de que alhos nada tem a ver com bugalhos, mas, por cautela, a
chefe do governo não deve arriscar sequer o resultado da primeira
partida, com a Croácia. Muito menos as outras, e, se for o caso, jamais
numa pretensa final onde nosso time se faça presente. O risco é muito
grande. Se ela acertar, claro que crescerá em popularidade e até em
numero de votos, mas se perdermos, nas primeiras ou na última partida? O
saldo eleitoral será muito pior nessa hipótese que ninguém deseja, de
nossa desclassificação. Mas possível, num certame indefinido que alguns
patetas, até no ministério, apregoam como já conquistado. Melhor seria
se, perguntada, Dilma responder que seu esporte preferido é o pingpong…



