10.4.14

LULA CONCEDEU A GRANDE ENTREVISTA DO ANO. PARTIDOS E PERSONAGENS, SÓ FALAM NISSO, NÃO CHEGAM À CONCLUSÃO: ENFRENTARÃO DILMA OU LULA?

HELIO FERNANDES

Os escândalos da Petrobras vão tendo desdobramentos vergonhosos. Não conheço ninguém que tenha defendido tanto a maior empresa brasileira quanto este repórter. E ao mesmo tempo denunciando corruptos que enriqueceram de forma inacreditável. Não poupei administradores nem mesmo nos tempos ditatoriais.

Revelei durante o próprio regime autoritário, arbitrário e atrabilionário, a roubalheira inequívoca do preferido de Geisel, o “japonesinho” Shigeaki Ueki. Naquela época, o Brasil chegava a gastar 20 BILHÕES importando petróleo e combustível. 

Para quem vive no mundo do pagamento de propinas ou comissões, é rotina, que o comprador (intermediário) receba três por cento. 10 por cento de 20 BILHÕES, dá 2 BILHÕES. 1 por cento, chega a 200 milhões, três por cento 600 MILHÕES. Por isso, Ueki mora há 20 anos no Texas, é mais rico que a família Bush, pai e filho presidentes dos EUA.

25 senadores saíram a pé do senado, foram até o Supremo, protocolaram um Mandado de Segurança. Querem que seja respeitado ou restabelecido o princípio constitucional da CPI ser formada para “investigar um fato determinado”. Essa oposição estava reforçada por Pedro Simon, Pedro Taques, Jarbas Vasconcellos. Corretíssimo o pedido.

O governo, erradíssimo também quer ir ao Supremo

Na Comissão de Constituição e Justiça, Romero Jucá, cheio de acusações de irregularidades, serviu e serve a todos os governos. (Tem mais influência do que Pinheiro Machado no início da República até 1915, quando foi assassinado).

Relator da chamada “CPI-ampla”, declarou: “Não posso dizer SIM ou NÃO à formação de uma CPI que tem mais de 50 fatos”. Aconselhou o governo a ir ao Supremo, consultá-lo sobre a formação da CPI. O governo, desesperado, aceitou. Ora, o Supremo não é órgão de CONSULTA, se aceitar não fará outra coisa.

Lula dá entrevista de candidato

Falou para blogueiros de SP, mas tudo apareceu na televisão o dia todo. E foi manchete do Estadão, da Folha, do Globo. Todos reproduzindo as duras críticas que fez a Dona Dilma. Tocou no ponto mais sensível de qualquer governo, que é a economia. Não há nada mais importante, a ponto de ter ficado famosa a frase, “é a economia, estúpido”.

Pela primeira vez depois de três anos, o ex concede entrevista tão dura, tão clara, tão destrutiva quanto a de agora. Não deixou Dona Dilma usar um pouco de oxigênio, foi sufocada inapelavelmente. Demorou o maior tempo possível, examinando o “fracasso da economia”, deixando à mostra, que esse é o ponto a ser superado.

Textual: “Na campanha, Dilma terá que explicar o que vai fazer para REANIMAR a economia e superar o DESEMPENHO FRUSTANTE”.

Nenhum membro da oposição da tribuna ou nos bastidores, foi tão direto e claríssimo quanto o inventor de Dona Dilma. Sempre dizendo, “não sou candidato”, o que pode ser comparado com o famoso “eu não sabia de nada”, agora seguido por muita gente.

Lula e a Petrobras

Depois de criticar a presidente de todas as maneiras, “Nós poderíamos estar melhor, Dilma vai dizer como é que a economia vai melhorar”. Lula quebrou o longo silêncio sobre a Petrobras e a compra da refinaria de Pasadena, desperdício de dinheiro (e da verdade) como jamais se viu.

O ex-presidente não queria falar sobre o assunto, em 2006, quando jogaram fora BILHÕES e BILHÕES, em compras alucinadas e não examinadas.

O presidente da República era ele, o próprio Lula. Foi mais ou menos na época em que o deputado Roberto Jefferson empolgou o País, “denunciando Lula por saber de tudo o que se tramava”. Foi também o início até a exaustão da exploração do “eu não sabia de nada”.

“Defender com unhas e dentes a Petrobras”

Essa frase é vazia, não atingiu Dona Dilma sozinha, ele era o presidente da República, ela “apenas” Chefe da Casa Civil. Nem o próprio Lula admitia que no rastro da denúncia da refinaria de Pasadena, surgisse essa “enxurrada” de escândalos. Todos surrealistas, precisam ser investigados, na tentativa de reduzir a altíssima corrupção.

Sergio Gabrielli, também quebra o silêncio

Outro que esqueceu que em meados de 2006, em pleno escândalo presidia a própria Petrobras. Também “não sabia de nada”. Usando suas próprias palavras: “Tecnicamente, estrategicamente, economicamente, parecia um bom negócio. Mas veio a crise de 2008, tudo mudou”. Em meados de 2006, PARECIA um bom negócio. Um ano e meio depois, “não era mais”.

Péssimo administrador, mas não corrupto de dinheiro 

Foi péssimo presidente da estatal, como quase todos que passaram por lá, jamais “participou” de negócios ou negociatas para se favorecer. Mas é preciso registrar, ressalvar, ressaltar: “desadministradores” honestos, podem ser tão calamitosos quanto os desonestos. É o caso de Gabrielli, que acaba de ser derrotado para governador da Bahia.

Gabrielli defende a candidatura a governador e a de Dona Dilma 

A maior ênfase no seu depoimento: “Dona Dilma não tinha conhecimento do contrato, o que podia fazer de diferente?”. Ora, se não sabia de “nada”, como aprovou, autorizou e avalizou o que desconhecia? E não era uma “operaçãozinha” e sim negociata de BILHÕES e BILHÕES que assombram e assustam até hoje.

A função e a decisão do Conselho

Agora é a oportunidade de esclarecer e definir o que fazia e o que podia fazer o Conselho da Petrobras. Alguns estavam lá pelo jetom complementar do salário, mas só alguns. Vejamos o caso do empresário Gerdau, que logicamente não precisava dos sete mil mensais.

Mas foi o primeiro a vir a público dizer textualmente: “Logo que recebeu o contrato, o Conselho, por UNANIMIDADE, ficou contra”. O ex-presidente da Petrobras, agora também textualmente: “O Conselho apoiou integralmente a compra da refinaria”.

Esse é um dos principais itens a serem esclarecidos, se houver alguma tentativa de esclarecimento. Outro, importantíssimo: até onde ia o poder do Conselho?

E o presidente da Petrobras, estava obrigado a seguir a posição do Conselho ou tinha autonomia para decidir sozinho, mesmo contrariando o Conselho?

PS – Nada surpreendente a entrevista de Lula. Mas nem eu acreditava que fosse tão retumbante e esclarecedora. Em matéria de repercussão, num ano tão cheio de fatos, é importantíssima.

PS1 – Vem sendo minuciosamente examinada por partidos e supostos candidatos. E todos convencidos de que terão que enfrentar o ex e não a atual.

PS2 – Considero que Lula está se colocando frontalmente na primeira fila da sucessão presidencial. E que tem e terá, em qualquer circunstância, o apoio irrecusável de todo o PT.

PS3 – Apesar de tudo isso, e o próprio Lula ter colocado o “governo Dilma como economia fracassada”, não sou tão taxativo ou definitivo, em relação á troca de candidatos.

PS4 – É que por mais que a incompetência de Dona Dilma se materialize, a fragilidade dos adversários é genérica, histórica e irrevogável.

PS5 – Excluído esse item, por mais crucial e perigoso que seja, sobrará outro fato a ser resolvido: o que Lula, Dilma e o PT farão com a Petrobras? Não adianta apelar para o lugar comum, “temos que defender a Petrobras com unhas e dentes”. O que significa isso?

PS6 – No caso, a responsabilidade será dele ou dela?

PS7 – Para alguns, foi o verdadeiro lançamento da candidatura Lula. Para outros, que concordam, o ex estaria esperando nova pesquisa, com queda irrefutável de Dona Dilma.

PS8 – No Planalto surgiam sussurros e até pressões, para que Dona Dilma respondesse com outra entrevista. Isso nem chegou a ela, faltou quem tivesse cacife para levantar o problema.