Via Frente de Esculacho Popular -
A
Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), sofreu, nesta
quarta-feira (9), um esculacho popular que denunciou sua participação no
financiamento ao Golpe Militar de 1964 e ao aparato de repressão a
opositores do regime. O protesto, organizado pela Frente de Esculacho
Popular (FEP), foi realizado em frente à sede da entidade na Avenida
Paulista, centro financeiro de São Paulo.
Outro alvo dos
militantes por Verdade, Memória e Justiça foi o Banco Itaú, acusado de,
além de ter apoiado a ditadura, distribuir uma agenda em que o dia 31 de
março é chamado de “dia da Revolução de 1964”, como os defensores do
regime se referem ao Golpe Militar. A FEP lembrou, ainda, a participação
de outras empresas no financiamento à repressão política, como
Ultragaz, Volkswagen, Odebrecht, Ford e General Motors, assim como meios
de comunicação, como as Organizações Globo e o Grupo Folha.
O
esculacho popular teve início na noite da terça-feira (8) quando
militantes da FEP saíram às ruas em torno da Avenida Paulista e colaram –
em postes, orelhões, pontos de ônibus e até em um posto da Polícia
Militar – cartazes em que a participação da Fiesp e do Itaú no apoio à
ditadura é denunciada.
Braço civil da ditadura
O objetivo dos ativistas é lembrar a participação decisiva do
empresariado brasileiro na sustentação da ditadura militar, inclusive
financeira. Inúmeros depoimentos e testemunhos confirmam essa ligação.
Em São Paulo, por exemplo, já é célebre a existência de uma “caixinha da
ditadura”, coletada pelo então ministro da Fazenda Delfim Netto com os
empresários paulistas para o financiamento da Operação Bandeirantes
(Oban).
No livro “A ditadura escancarada”, de Elio Gaspari, há a
declaração do ex-governador biônico de São Paulo, Paulo Egydio Martins,
de que, “àquela época, levando-se em conta o clima, pode-se afirmar que
todos os grandes grupos comerciais e industriais do estado contribuíram
para o início da Oban”.
No ano passado, um documento do Arquivo
Público do Estado de São Paulo, revelado pela Comissão Estadual da
Verdade “Rubens Paiva”, demonstrou a presença constante do empresário
Geraldo Resende de Mattos, ligado à Fiesp, na sede do Dops paulista.
O
caso mais conhecido de colaboração empresarial é o do Grupo Ultra, cujo
presidente, o dinamarquês naturalizado brasileiro Henning Boilesen,
doava dinheiro, fornecia caminhões para as forças de repressão e
assistia a sessões de tortura nos centros de detenção. Como represália,
ele foi assassinado por grupos de esquerda. Sua história é contada no
documentário “Cidadão Boilesen”, de Chaim Litewski.
No caso da
Volkswagen, há relatos de que, além das doações de dinheiro e do
fornecimento frequente de veículos para o uso da repressão, a empresa
repassava listas de funcionários considerados “subversivos” aos órgãos
de segurança do regime. Vale lembrar que há fortes indícios de que
outras fabricantes de veículos, como Ford e General Motors, também
colaboraram com a ditadura militar.
Itaú
O Banco Itaú foi escolhido como alvo pela Frente de Esculacho Popular
principalmente por causa do calendário distribuído aos seus clientes
este ano. Na página do dia 31 de março, a instituição descreve a data
como “aniversário da Revolução de 1964”, como o golpe militar é chamado
por seus apoiadores. Além disso, a ligação do Itaú com o regime militar
foi comprovada com o fato de um de seus controladores, Olavo Setúbal,
ter sido prefeito biônico de São Paulo, de 1975 a 1979.
Já a
Odebrecht, assim como inúmeras construtoras, como a Camargo Correa, teve
seu capital aumentado em muitas vezes durante o período ditatorial. As
relações próximas dessas empresas com os militares permitiu que elas
tocassem diversas obras de infraestrutura pelo País ao longo de duas
décadas. A Odebrecht, por exemplo, foi a responsável pela construção,
entre outras coisas, da hidrelétrica de Itaipu, da sede da Petrobras, da
usina nuclear de Angra dos Reis e do Aeroporto Internacional do Galeão.
Além
de grupos industriais, financeiros e de construção, há denúncias de
colaboração de empresas de comunicação com a ditadura. A “Folha de S.
Paulo”, por exemplo, é acusada de fornecer Kombis para a repressão aos
opositores do regime.
A Frente de Esculacho Popular, formada no
início de 2012, é uma organização composta por familiares de vítimas da
ditatura e ativistas de direitos humanos em geral. Tem como principal
linha de ação a realização de esculachos, protestos que têm como
objetivo denunciar os colaboradores da ditadura militar, seja pessoas ou
empresas, como forma de pressionar por sua punição na Justiça. A FEP
acredita que somente acabando com a impunidade do passado é que se pode
acabar com os crimes do presente: ainda hoje, tortura-se e mata-se nas
periferias das cidades do País.



