Via MÍDIA Democrática -
O assassinato do repórter
cinematográfico da TV Bandeirantes Santiago Andrade deixou não só a família
como todo o Brasil de luto. Foi uma morte que poderia ser evitada se o
profissional de imprensa estivesse com equipamento de segurança adequado para
coberturas em áreas de risco.
Mesmo antes da tragédia, durante
negociações salariais da categoria dos jornalistas no Município do Rio de
Janeiro, os representantes dos empresários midiáticos se recusaram a aceitar
cláusula prevendo a garantia das empresas em fornecer equipamentos de segurança
para os repórteres fazerem coberturas, inclusive as manifestações populares que
se seguem quase ininterruptamente desde junho de 2013.
Esse fato lamentável, denunciado pela
Presidenta do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de
Janeiro, Paula Máiran, foi ignorado no noticiário sobre o assassinato de
Santiago.
É importante que os jornalistas e a
sociedade brasileira de um modo geral tomem conhecimento de fatos dessa
natureza, geralmente omitidos pela mídia hegemônica que tem o controle da
informação.
É preciso dar um imediato freio nessa
manipulação midiática grosseira que tem por objetivo impedir a continuidade das
manifestações populares e ainda a aplicação de uma legislação restritiva às
mobilizações.
Nesse sentido, é fundamental que os
sindicatos de jornalistas de todo o país, juntamente com a Federação Nacional
de Jornalistas (FENAJ) se empenhem ao máximo no sentido de que finalmente no
Brasil se democratize os meios de comunicação.
Se a mídia fosse democratizada
Se o espaço midiático eletrônico
fosse melhor distribuído, digamos com 33% do espectro dividido para a
iniciativa privada, pública, estatal e com garantia para canais da cidadania,
como almejam os movimentos sociais empenhados nas mobilizações por uma mídia
democratizada, os brasileiros teriam certamente maiores opções de se informar e
não estariam sujeitos, como agora, ao esquema grosseiro de manipulação da
informação da mídia de mercado.
O assassinato do repórter
cinematográfico da Rede Bandeirantes, Santiago Andrade deve servir também de
reflexão para toda a cidadania brasileira. Não se pode admitir que os meios de
comunicação hegemônicos, corporativo ou de mercado, seja qual for a designação
apresentada, continuem divulgando informações com o claro objetivo de incutir
na opinião pública valores conservadores e de criminalização dos movimentos
sociais.
Exemplo nesse sentido foi dado pelas
Organizações Globo, que no seu noticiário, seja impresso ou eletrônico, tentou
mais uma vez incriminar um dos mais importantes movimentos sociais da
atualidade, não só no Brasil, mas também no mundo, o Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) equiparando-o aos chamados Black Blocs, um
grupo de ação tática que nada tem a ver com os trabalhadores rurais que lutam
pela reforma agrária.
Outros exemplos de manipulação
poderiam ser mencionados que provavelmente ampliariam e muito este alerta.
Nas manifestações populares que
ocorrem em todo o país, o tema mídia tem ganho maiores espaços, o que preocupa
sobremaneira os proprietários dos grandes veículos de comunicação, os mesmos
que estão criminalizando os movimentos sociais.
Além de se condenar com veemência a
violência que vem tomando conta das legítimas manifestações populares, seja ela
por parte do Estado e de responsabilidade de quem tem voz de comando, seja por
grupos minoritários que até facilitam a ação de agentes infiltrados para
provocar a própria violência, é necessário também refletir sobre algumas
questões vinculadas a fatos mencionados.
Retrocesso de 1964
Neste ano de 2014, que em abril
completa 50 anos do retrocesso político resultante do golpe que derrubou o
Presidente constitucional João Goulart, novamente a mídia nacional tem cumprido
um papel que muitas vezes deixa de ser jornalístico para se tornar propagador
de ideias conservadoras. Embora o Brasil hoje seja um país diferente de 50 anos
atrás, na área da mídia repete-se o fenômeno de manipulação da informação em
proveito de setores conservadores que historicamente sempre temeram a
organização popular.
Neste 2014, ano em que inúmeras
entidades, inclusive da área sindical dos jornalistas e de outras categorias
profissionais, além das Comissões da Verdade investigam fatos ocorridos em
períodos de retrocesso institucional, como em abril de 64 e demais anos de
vigência de uma ditadura empresarial militar, vale repetir, é importante também
que se faça uma reflexão profunda sobre qual tem sido o papel dos órgãos de
comunicação neste contexto.
Feita a reflexão, importante também
para melhor entendimento dos dias atuais, já é hora também de se tentar criar e
sugerir mecanismos para enfrentar essa situação adversa para o processo de
aprofundamento da democracia no Brasil.
União dos comunicadores
Para isso, sugerimos que todos os
sindicatos de jornalistas, juntamente com a Fenaj e outras entidades
preocupadas com a questão da mídia, entre as quais a Associação Brasileira de
Imprensa (ABI) se unam no sentido de ocupar espaços, não só impressos, como
também no espectro eletromagnético. Espaços, diga-se de passagem, de caráter
nacional e não somente restrito a categoria.
Em outras palavras, que se tenha como
norte a partir de agora a criação de um jornal, de um canal de televisão e de
uma emissora de rádio para informar a categoria de jornalistas e demais
segmentos da população.
Não se trata mais de uma utopia. E
mesmo se, com vontade política muitas utopias desembocaram em formas concretas
de realização. A história inclusive está cheia desses exemplos.
Deve-se então sugerir a criação
imediata de um Grupo de Trabalho que tenha por objetivo viabilizar essa
sugestão. O GT terá também a incumbência de estudar a melhor forma de se
conseguir, junto ao Estado brasileiro, um canal de televisão, uma estação de
rádio. E ainda programar e viabilizar a edição conjunta de um jornal de caráter
nacional.
Se for conseguida tal meta, e isso só
será possível se os comunicadores estiverem unidos, deixando de lado eventuais
divergências, sem deixar de honrar princípios, com este exemplo, de alguma
forma se estará contribuindo para pelo menos tentar romper o impasse do atual
quadro restritivo e manipulador que se assiste nos dias atuais nas mídias
convencionais.
Vale repetir, não se trata de uma
utopia, mas um pensar grande que pode ser alcançado se houver vontade política.
Naturalmente que tais sugestões também
fortalecem o importante ideário da democratização dos meios de comunicação,
que, claro, remete à questão da regulação da mídia eletrônica.
É mais do que urgente tornar efetiva
essas propostas para dessa forma fazer avançar o processo democrático. Até porque,
democracia na verdadeira acepção da palavra só existe quando todos os setores
sociais tenham vez e voz em pé de igualdade. O que não acontece no Brasil,
exatamente pelo fato dos grandes meios de comunicação não aceitarem essa
ideia.
*Texto de Mario Augusto Jakobskind.



