2.3.14

QUANDO UTOPIAS PODEM SE TORNAR REALIDADE CONCRETA

Via MÍDIA Democrática -
O assassinato do repórter cinematográfico da TV Bandeirantes Santiago Andrade deixou não só a família como todo o Brasil de luto. Foi uma morte que poderia ser evitada se o profissional de imprensa estivesse com equipamento de segurança adequado para coberturas em áreas de risco.
Mesmo antes da tragédia, durante negociações salariais da categoria dos jornalistas no Município do Rio de Janeiro, os representantes dos empresários midiáticos se recusaram a aceitar cláusula prevendo a garantia das empresas em fornecer equipamentos de segurança para os repórteres fazerem coberturas, inclusive as manifestações populares que se seguem quase ininterruptamente desde junho de 2013.
Esse fato lamentável, denunciado pela Presidenta do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro, Paula Máiran, foi ignorado no noticiário sobre o assassinato de Santiago.
É importante que os jornalistas e a sociedade brasileira de um modo geral tomem conhecimento de fatos dessa natureza, geralmente omitidos pela mídia hegemônica que tem o controle da informação.
É preciso dar um imediato freio nessa manipulação midiática grosseira que tem por objetivo impedir a continuidade das manifestações populares e ainda a aplicação de uma legislação restritiva às mobilizações.
Nesse sentido, é fundamental que os sindicatos de jornalistas de todo o país, juntamente com a Federação Nacional de Jornalistas (FENAJ) se empenhem ao máximo no sentido de que finalmente no Brasil se democratize os meios de comunicação.
Se a mídia fosse democratizada
Se o espaço midiático eletrônico fosse melhor distribuído, digamos com 33% do espectro dividido para a iniciativa privada, pública, estatal e com garantia para canais da cidadania, como almejam os movimentos sociais empenhados nas mobilizações por uma mídia democratizada, os brasileiros teriam certamente maiores opções de se informar e não estariam sujeitos, como agora, ao esquema grosseiro de manipulação da informação da mídia de mercado.
O assassinato do repórter cinematográfico da Rede Bandeirantes, Santiago Andrade deve servir também de reflexão para toda a cidadania brasileira. Não se pode admitir que os meios de comunicação hegemônicos, corporativo ou de mercado, seja qual for a designação apresentada, continuem divulgando informações com o claro objetivo de incutir na opinião pública valores conservadores e de criminalização dos movimentos sociais.
Exemplo nesse sentido foi dado pelas Organizações Globo, que no seu noticiário, seja impresso ou eletrônico, tentou mais uma vez incriminar um dos mais importantes movimentos sociais da atualidade, não só no Brasil, mas também no mundo, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) equiparando-o aos chamados Black Blocs, um grupo de ação tática que nada tem a ver com os trabalhadores rurais que lutam pela reforma agrária.
Outros exemplos de manipulação poderiam ser mencionados que provavelmente ampliariam e muito este alerta.
Nas manifestações populares que ocorrem em todo o país, o tema mídia tem ganho maiores espaços, o que preocupa sobremaneira os proprietários dos grandes veículos de comunicação, os mesmos que estão criminalizando os movimentos sociais.
Além de se condenar com veemência a violência que vem tomando conta das legítimas manifestações populares, seja ela por parte do Estado e de responsabilidade de quem tem voz de comando, seja por grupos minoritários que até facilitam a ação de agentes infiltrados para provocar a própria violência, é necessário também refletir sobre algumas questões vinculadas a fatos mencionados.
Retrocesso de 1964
Neste ano de 2014, que em abril completa 50 anos do retrocesso político resultante do golpe que derrubou o Presidente constitucional João Goulart, novamente a mídia nacional tem cumprido um papel que muitas vezes deixa de ser jornalístico para se tornar propagador de ideias conservadoras. Embora o Brasil hoje seja um país diferente de 50 anos atrás, na área da mídia repete-se o fenômeno de manipulação da informação em proveito de setores conservadores que historicamente sempre temeram a organização popular.
Neste 2014, ano em que inúmeras entidades, inclusive da área sindical dos jornalistas e de outras categorias profissionais, além das Comissões da Verdade investigam fatos ocorridos em períodos de retrocesso institucional, como em abril de 64 e demais anos de vigência de uma ditadura empresarial militar, vale repetir, é importante também que se faça uma reflexão profunda sobre qual tem sido o papel dos órgãos de comunicação neste contexto.
Feita a reflexão, importante também para melhor entendimento dos dias atuais, já é hora também de se tentar criar e sugerir mecanismos para enfrentar essa situação adversa para o processo de aprofundamento da democracia no Brasil.
União dos comunicadores
Para isso, sugerimos que todos os sindicatos de jornalistas, juntamente com a Fenaj e outras entidades preocupadas com a questão da mídia, entre as quais a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) se unam no sentido de ocupar espaços, não só impressos, como também no espectro eletromagnético. Espaços, diga-se de passagem, de caráter nacional e não somente restrito a categoria.
Em outras palavras, que se tenha como norte a partir de agora a criação de um jornal, de um canal de televisão e de uma emissora de rádio para informar a categoria de jornalistas e demais segmentos da população.
Não se trata mais de uma utopia. E mesmo se, com vontade política muitas utopias desembocaram em formas concretas de realização. A história inclusive está cheia desses exemplos.
Deve-se então sugerir a criação imediata de um Grupo de Trabalho que tenha por objetivo viabilizar essa sugestão. O GT terá também a incumbência de estudar a melhor forma de se conseguir, junto ao Estado brasileiro, um canal de televisão, uma estação de rádio. E ainda programar e viabilizar a edição conjunta de um jornal de caráter nacional.
Se for conseguida tal meta, e isso só será possível se os comunicadores estiverem unidos, deixando de lado eventuais divergências, sem deixar de honrar princípios, com este exemplo, de alguma forma se estará contribuindo para pelo menos tentar romper o impasse do atual quadro restritivo e manipulador que se assiste nos dias atuais nas mídias convencionais.
Vale repetir, não se trata de uma utopia, mas um pensar grande que pode ser alcançado se houver vontade política.
Naturalmente que tais sugestões também fortalecem o importante ideário da democratização dos meios de comunicação, que, claro, remete à questão da regulação da mídia eletrônica.
É mais do que urgente tornar efetiva essas propostas para dessa forma fazer avançar o processo democrático. Até porque, democracia na verdadeira acepção da palavra só existe quando todos os setores sociais tenham vez e voz em pé de igualdade. O que não acontece no Brasil, exatamente pelo fato dos grandes meios de comunicação não aceitarem essa ideia. 
*Texto de Mario Augusto Jakobskind.