27.3.14

A GUERRA SEM TRINCHEIRA, NOS MORROS, E O QUE ACONTECERÁ NO COMBATE CONTRA A PETROBRAS, SEQUESTRADA POR ESCÂNDALOS. TERRORISMO, SADISMO, EXIBICIONISMO NO DOI-CODI

HELIO FERNANDES –

Existem dezenas de fatos e assuntos na pauta do dia a dia do Brasil. Debates, combates, quase todos na linha da sucessão, na permanência ou na conquista do Poder. Mas dois deles têm a maior importância e repercussão.

(Na linha da agência da classificação tipo “BBB-” de risco a S&P, que tenta desmoralizar o Brasil, mas esconde os erros e equívocos dessa mesma S&P).

Esses dois assuntos: a retomada da guerra nos morros pelos traficantes e a enxurrada de escândalos, prejuízos, denúncias, desmoralização que desvalorizaram a nossa ex-maior empresa. Atingida pela desadministração conhecida, e pela corrupção enrustida e escondida.

O Ministro da Justiça e o secretário de Segurança

Tenho me fartado de dar informações sobre o que os traficantes chamam de “guerra é guerra”, como pretendem marcar a “retomada” dos antigos territórios. Voltaram e como revelei antes, sangrentos, selvagens, audaciosos, assassinam chefes, já são dezenas.

A gravidade ficou tão evidente que apelaram para o Exército, que não foi treinado ou preparado para golpes ou lutas de rua. Mas vieram, sem o medíocre Ministro da Defesa, vetado e excluído.

Na hora de comunicar a participação do Exército, o ministro José Eduardo Cardozo, e o secretário Beltrame, falaram usando impropriedade nas palavras. Os dois: “Vamos mostrar a esses traficantes quem é maior e mais forte e quem sairá vencedor”.

Ora, não há como comparar bandidos, traficantes, assassinos, que gostam de serem mostrados como “poder paralelo”, isso é farsa disparate.

Só existe um Poder que é o legítimo e que emana do povo. Logo depois vi na televisão, elucidativa entrevista do coronal do Exército, Fernando Montenegro. Participou da retomada do Alemão em tempos gloriosos, participará agora na luta na Maré. Mostrou como as coisas acontecerão. Lúcido, discreto, desvendou mapas e trajetos, excelente.

As lutas da Petrobras

Para começo de conversa. Já foi a maior empresa do mundo, não apenas petrolífera, de número 12. Agora está com o número 120, quer dizer, existem 119 com patrimônio mais valioso. Eram apenas 11 maiores, vejam que descalabro, desperdício, desmoralização.

Em relação ao preço das ações, a Petrobras em 2008, valia 53 reais. Agora está entre 12 e 13, isso depois de quatro dias de alta. Não quero dizer que devem vender, o que seria operação absurda e suicídio em matéria de investimento. Como sempre defendi, a Petrobras não deveria ter acionistas particulares, o único investidor deveria ser a União.

A CPI da Petrobras

Não haverá de jeito algum. Os três maiores partidos, PT, PMDB e PSDB, estão impossibilitados. O PT é governo, a empresa ainda é das mais importantes do país, o partido tem milhares de nomeados. O PMDB vem logo a seguir, preside, controla, nomeia o contraditório Cerveró para a BR Distribuidora, a segunda na hierarquia interna e externa.

O PSDB não pode negar o passado

FHC queria privatizar a Petrobras, não teve coragem. Desfigurou o nome da Petrobras, trocou o S final por um X, como se fosse propriedade do Eike Batista. Não teve coragem, criou os miseráveis leilões. (Que deu no que deu, no campo-estratosfera, mas não financeiro e econômico de Libra).

Dilma, ainda não governo: ofensiva contra os leilões  

Sabia que ia ser Ministra de Minas e Energia, procurou a diretoria da AEPET, (naquela época poderosa e prestigiada) pediu para ajudarem a derrubar os leilões. Resposta: “Esses de agora não tem importância. A partir do quinto ou sexto, aí sim, mas você estará no governo”. Concordou.

O governador Requião entra no Supremo

Através do Procurador Geral do Paraná, entrou com uma ADIN para eliminar os leilões. Ganhava de 4 a 0, Dona Dilma, já ministra, mobilizou Nelson Jobim, presidente do Supremo, sinalizou, alguém (já está aposentado) pediu “vista”. Meses depois, ganharam de 7 a 4. Os leilões permaneceram, Dona Dilma satisfeitíssima. A primeira “convicção”, fazia parte da “menas verdade”. Todos estão aí para provar. Ou confirmar.

Eleição para presidente do Clube Militar, todos defendem o golpe

Faltam alguns dias para a eleição de presidente desse clube, importante para o Exército. E até para o Brasil na campanha do “Petróleo é Nosso”, no momento em que ele ainda nem existia. Desde o heroico 5 de Julho de 1922 (os “18 do Forte”) e a prisão do então presidente do Clube e ex-presidente da República, marechal Hermes da Fonseca.

Agora, só da reserva

Naquela época os presidentes deixavam o cargo, ficavam na ativa. Aconteceu com o bravo Hermes que derrotou Rui Barbosa em 1910. Saiu e presidiu o Clube Militar. O cargo era privativo de oficial da ativa. Isso durou até 1951.

O general Estilac Leal, teve que deixar a presidência, assumir o Ministério da Guerra. E garantir a posse de Vargas, que se elegera presidente depois de 15 anos como ditador.

Vargas quase não toma posse por causa da conspiração de Golbery-Lacerda, então amicíssimos. A partir daí, presidente do Clube Militar, só general da reserva. Pelo menos podiam ter um projeto, em vez de defender o golpe, que sacrificou o país e fez o Brasil retroceder por 21 anos.

O futuro de Joaquim Barbosa

Tenho escrito muito sobre o assunto, deixando bem claro: “Haja o que houver, só terei certeza a partir de 5 de abril”. E a respeito de sua aposentadoria no Supremo, aí não existe data chave. Ele vai fazer 60 anos, terá 10 anos para decidir.

Sempre deixei bem claro: não darei nenhuma palavra pessoal nem acredito em intermediários. Para se candidatar agora, faltam 10 dias, só aceito a decisão dele no dia 5. Quanto às especulações de “que pode ser presidenciável em 2018”, parece brincadeira.

Prefiro repetir Bernard Shaw, depois de visitar a Estátua da Liberdade, em Nova Iorque: “Meu gosto pela ironia não vai tão longe”.

PS – Já as comemorações do golpe de 1º de abril de 64, têm apenas 5 dias. De hoje até terça feira, todos podem “comemorar”, abrir champanhe, festejar o retrocesso de 21 anos que dura até hoje.

PS2 – 50 anos do nada em matéria de realização ou administração. O máximo em questão de tortura, selvageria, crueldade, assassinatos em massa.

PS3 – Vejam os depoimentos que estão sendo examinados pela Comissão da Verdade. Ninguém pode ser punido, essa comissão foi instalada pouco mais de 30 anos depois dos crimes cometidos.

PS4 – E com uma restrição clara, altamente significativa: “não pode haver punição, apenas investigação”. Se essa investigação tivesse começado como na Argentina, quase todos os generais golpistas brasileiros morreriam na cadeia, como aconteceu lá.

PS5 – De todo esse tempo de funcionamento, a Comissão da Verdade agora é que está chegando a opinião pública, ouvindo um assassino e uma vítima que, dizem, “escapou com vida”.

PS6 – O assassino torturador, mandante é o coronel Paulo Belham, chamado de “exibicionista sádico”. Contou com enorme satisfação, “ninguém matou mais do que eu”.

PS7 – Revelou que os assassinados tinham os dedos cortados e a arcada dentária destruídos para evitar identificação. Querendo se exibir, explicou a razão dos corpos terem sido partidos em vários pedaços.

PS8 – Aproveitaram o que foi feito na Argentina: jogavam os corpos no mar. Só que os médicos ensinavam: se jogarem as vítimas, já mortas, os corpos voltariam a aparecer. Precisavam jogá-los vivos, morreriam e os corpos desapareceriam para sempre.

PS9 – Esse exemplo não pode ser seguido totalmente, tiveram que jogá-los em rios ou mar aos pedaços. E foram muitos. O coronel falou com visível orgulho ao primeiro plano.

PS10 – Do lado dos torturados, nada mais terrível do que ver ressurgir as barbaridades cometidas contra Inês Etienne Romeu. Ativista das mais torturadas, violentadas, estuprada dezenas de vezes. E considerada “viva”, a única “viva” da famosa “casa da morte” de Petrópolis.

PS11 – Coloquei a palavra “viva” entre aspas, pois ninguém pode ser tida como viva depois de tudo que fizeram com ela.

PS12 - Era lancinante. Agora, depois de 40 anos, terrível verificar o que restou dessa mulher brava e respeitada. Não sabia onde estava, não tem mais voz, era a irmã, que convive com ela todo esse tempo que traduzia para a Comissão, o que ela pronunciava e só a irmã entendia.

PS13 – Esses oficiais se “orgulham” do que fizeram? Se julgam vitoriosos de quê? O Doi-Codi teve dois comandantes importantes: General Orlando Geisel, e o coronel Fiúza de Castro. Este me interrogou uma vez. (Era filho do general do mesmo nome, nomeado por Café Filho Ministro da Guerra, não tomou posse. O marechal Lott não deixou que assumisse. Ia ser Ministro para impedir a posse de Juscelino, eleito em 1955).

PS14 – O terceiro foi o general Leônidas Pires Gonçalves, Ministro da Guerra de Sarney, depois da morte de Tancredo.

PS15 – Nunca soube da passagem do general Leônidas pelo comando do Doi-Codi. Mas numa entrevista ao repórter Geneton Moraes Neto, o general fez questão de dizer que comandou esse Doi-Codi. Geneton, que faz as entrevistas sempre muito bem aparelhado, contestou ele confirmou.

PS16 – Jamais, nesses anos todos consegui entender a razão dessa “confissão”. Talvez para diminuir a culpa do General Geisel, já que Fiúza de Castro era impopularíssimo.

PS17 – Sua promoção a general contrariou quase o Exército inteiro. Mas era o número 1, fizeram o seguinte. Foi promovido, nomeado comandante da Polícia Militar, (naquele tempo existia isso), “agregou”, abriu-se outra vaga. Promovido então o coronel das preferências dos colegas.