SEBASTIÃO NERY -
RJ - “A 31 de março de 1964, pela manhã, eu fora à Câmara dos Deputados.
Passara pelo meu gabinete por alguma razão menor. Para minha surpresa,
por toda parte, parlamentares às dezenas, agrupados, a discutirem numa
incontida agitação. Àquela época, o parlamento reunia-se pelas tardes.
Sempre. Às vezes, às noites. Pelas manhãs, nunca. O que motivara os
deputados federais àquele encontro insólito?
“Aproximei-me de um dos grupos: e ali soube, para meu espanto, que o
general Mourão Filho, no comando das tropas de Juiz de Fora, marchava na
direção do Rio de Janeiro. Variavam as reações: uns já festejavam o
começo da “Revolução” (pois assim chamavam o que, em verdade, seria um
golpe de Estado); outros a condenarem, com veemência, a ruptura da
legalidade. Voltei depressa à minha casa.
“Telefonei ao senador Arthur Virgílio Filho, líder do governo no
Senado. Pedi-lhe informações sobre os fatos. Mas, àquela manhã, meu
grande amigo não sabia de nada, absolutamente nada! A seu convite, fui
ao seu apartamento, a poucos metros. Éramos vizinhos. De imediato ele
telefonou ao presidente João Goulart, que estava no Rio de Janeiro, no
Palácio Laranjeiras. Relatou-lhe o que eu contara e pediu instruções, já
que parecia inevitável ir à tribuna na sessão da tarde do Senado.
ASSIS BRASIL
– “Por uma extensão telefônica, eu ouvira o diálogo. E fiquei pasmado
quando a réplica veio calorosa:
- “É a oposição farsante querendo
tumultuar o país!”. Naquele momento, nas imediações de seu gabinete,
passava o general Assis Brasil, chefe da Casa Militar. O presidente, sem
rodeios, perguntou-lhe asperamente:
– “O que há de verdade na
sublevação do general Mourão Filho?”. E o interrogado, com absoluta
calma:
- “Tudo fantasia, presidente. Trata-se de uma marcha de rotina,
como é de hábito no Exército”. O presidente Goulart insistiu:
– “Nada
mais?”. E o chefe da Casa Militar: – “Nada além disso”. O Presidente
voltou ao telefone: – “Tu ouviste, Arthur? Pois é essa a verdade!” O
senador fez-lhe a pergunta que se impunha: – “Posso revelar, no Senado, o
que o senhor acaba de dizer-me?”. E o Presidente, numa resposta óbvia: –
“Não apenas podes; deves”.
ALMINO AFONSO
– “À tarde, fui à Câmara dos Deputados. Já dera início o chamado
pequeno expediente. Mas o plenário, com as cadeiras vazias, parecia ter
perdido a razão de ser. Os parlamentares, no salão azul, num alvoroço
sem igual se empenhavam numa discussão azeda, onde as controvérsias se
chocavam. O tema central era o mesmo da manhã: o avanço das tropas do
general Mourão Filho. O que ali se dizia era o inverso do que eu ouvira
do presidente da República. Com voz forte fiz-me ouvir: dei aos colegas a
declaração dói general Assis Brasil, repeli a versão dos que aplaudiam a
insurreição. A essa altura o deputado Carlos Murilo, sobrinho do
ex-presidente JK com delicadeza afastou-me do grupo e me foi dizendo:
– “Se o Presidente está negando o que se passa em Minas Gerais,
talvez como tática para ganhar tempo, não sei se vale. Mas, se na
verdade ignora os fatos, está perdido! Pois desde a madrugada Minas
Gerais está em pé de guerra! O governador Magalhães Pinto assumiu o
comando civil da “Revolução”! E o general Carlos Luiz Guedes é o Chefe
Militar!
“Ainda hoje me custa acreditar. Mas o que agora revelo refere-se a
31 de março de 1964. Os fatos se impondo, a partir dos diálogos, desde o
meio-dia. Porém o mais inacreditável é que o desconhecimento da
insurreição, no gabinete do presidente da República, se prolongara até o
fim da tarde…. Às 18 horas! Enquanto as tropas do general Mourão Filho
já vinham vindo em marcha batida desde às 4 horas da madrugada! E a
insurreição (travestida de revolução) já estava ostensivamente
articulada, com a chefia Civil e Militar assumida em Belo Horizonte!
Como explicar tanto alheamento do general chefe da Casa Militar? Desde o
instante em que o senador Arthur Virgílio Filho transmitira a versão do
levante de Juiz de Fora, por acaso não houvera tempo bastante para
informar-se do que já era público em Belo Horizonte? Como a inércia, em
termos elementares de informação, pudera prolongar-se absolutamente até o
fim daquela tarde? Não acuso o general Assis Brasil de omissão
permissiva. Mas, pelo menos, de espantosa incompetência que desmerecia
seu próprio nome!”
1964 – O GOLPE
Esta inacreditável historia está contada em um livro soberbo:
–
“1964 Na Visão do Ministro do Trabalho de João Goulart, Almino Afonso” –
(Fundap- SP): 700 paginas históricas,documentadas, lúcidas,
eletrizantes.
O general Assis Brasil foi o Felipe Scolari de Jango…
* Em 04/08/2014.



