Via Carta Maior -
João
Paulo II, o papa que promoveu e encobriu pedófilos e violadores da
Igreja, recebeu, ao mesmo tempo em que João XXIII, a canonização.
Vítimas, que vítimas? – perguntou o cardeal Velasio de Paolis. E
acrescentou: “Não são apenas estas vítimas”. Depois houve um silêncio de
corpo e alma e o olhar um tanto perdido do superior geral dos
Legionários de Cristo, nomeado em 2010 para esse cargo pelo então papa
Joseph Ratzinger. À pergunta de Paolis se seguiu uma resposta: as
vítimas não eram só os milhares de menores que sofreram com os apetites
sexuais das batinas hipócritas, mas também o próprio Vaticano. As
vítimas não eram unicamente os menores ou adultos abusados e violentados
pelo padre Marcial Maciel, o fundador dessa indústria dos atentados
sexuais que foi, durante seu mandato, o grupo dos Legionários de Cristo.
A vítima era a Santa Sé, que foi “enganada”.
João Paulo II, o
papa que, entre outros horrores, promoveu e encobriu pedófilos e
violadores da Igreja, recebeu, ao mesmo tempo em que João XXIII, a
canonização. Para além do espetáculo obsceno montado para esta ocasião,
dos milhares de fieis na Praça de São Pedro, dos três satélites
suplementares para transmitir o ato, para além da fé de muita gente, a
canonização do papa polonês é uma aberração e um ultraje para qualquer
cristão do planeta. Declarar santo a Karol Wojtyla é se esquecer do
escandaloso catálogo de pecados terrestres que pesam sobre este papa:
amparo dos pedófilos, pactos e acordos com ditaduras assassinas,
corrupção, suicídios jamais esclarecidos, associações com a máfia,
montagem de um sistema bancário paralelo para financiar as obsessões
políticas de João Paulo II – a luta contra o comunismo -, perseguição
implacável das correntes progressistas da Igreja, em especial a da
América Latina, ou seja, a frondosa e renovadora Teologia da Libertação.
O
“vítimas, que vítimas?” pronunciado em Roma pelo cardeal Velasio de
Paolis encobre toda a impunidade e a continuidade ainda arraigada no
seio da Igreja. Jurista e especialista em Direito Canônico, De Paolis
fazia parte da Congregação para a Doutrina da Fé na época em que – anos
80 – se acumulavam as denúncias contra Marcial Maciel. No entanto, foi
ele quem firmou a segunda absolvição do sacerdote mexicano. O ex-padre
mexicano Alberto Athié contou à Carta Maior como Maciel sabia distribuir
dinheiro e favores para comprar o silêncio das hierarquias. Athié
renunciou em 2000 ao sacerdócio e se dedicou à investigação e denúncia
dos abusos sexuais cometidos por clérigos e organizações.
O
destino de Maciel foi selado por Bento XVI a partir de 2005. Em 2004,
antes da morte de Karol Wojtyla, Maciel foi honrado no Vaticano. Neste
mesmo ano, Ratzinger reabriu as investigações contra os Legionários. O
dossiê Maciel havia sido bloqueado em 1999 por João Paulo II e mantido
invisível por outra das figuras mais soturnas da cúria romana, Angelo
Sodano, o ex-secretário de Estado de Giovanni Paolo. Sodano é uma pérola
digna de figurar em um curso de manobras sujas. Decano do Colégio de
Cardeais, ele tinha negócios com os Legionários de Cristo. Um sobrinho
dele foi um dos assessores nomeados por Maciel para construir a
universidade que os legionários de Cristo têm em Roma, a Universidade
Pontífica Regina Apostolorum.
Sodano, que foi o número dois de
Juan Paulo II durante quase 15 anos, tinha um inimigo interno, Joseph
Ratzinger, um clube de simpatias exteriores cujos dois membros mais
eminentes eram o ditador Augusto Pinochet e o violador Marcial Maciel.
Sodano e Ratzinger travaram uma batalha sem tréguas: o primeiro para
proteger os pedófilos, o segundo para condená-los. Em 2004, Ratzinger
obrigou Maciel a se demitir e a se retirar da vida pública. Dois anos
depois, já como Bento XVI, o papa o suspendeu “a divinis”. As
investigações reabertas por Ratzinger demonstraram que Maciel era um
pederasta, tinha duas mulheres, três filhos, várias identidades
diferentes e manejava fundos milionários.
As denúncias prévias nunca
haviam passado o paredão levantado por Sodano e o hoje Santo João Paulo.
A carreira de Sodano é uma síntese do Papado de Karol Wojtyla, onde se
mesclam os interesses políticos, as visões ideológicas
ultraconservadoras, a corrupção e as manipulações. Angelo Sodano foi
Núncio no Chile durante a ditadura de Pinochet. Manteve uma relação
amistosa com o ditador e isso permitiu que organizasse a visita que João
Paulo II fez ao Chile em 1987. Seu irmão Alessandro foi condenado por
corrupção após a operação Mãos Limpas. Seu sobrinho Andrea teve a mesma
sorte nos Estados Unidos. O FBI descobriu que Andrea e um sócio se
dedicavam a comprar – mediante informação privilegiada – por um punhado
de dólares as propriedades imobiliárias das dioceses dos Estados Unidos
que estavam em bancarrota devido aos escândalos de pedofilia.
Mas
o mundo sucumbiu ao grito de “santo súbito” que reclamava a canonização
de um homem que presidiu os destinos da Igreja em seu momento mais
infame e corrupto. O papa “viajante”, o papa “amável”, o papa “dos
jovens”, era um impostor ortodoxo que deixou desprotegidas as vítimas
dos abusos sexuais e os próprios pastores da Igreja quando estes
estiveram com suas vidas ameaçadas.
Sua visão e suas
necessidades estratégicas sempre se opuseram às humanas. Na trama desta
história também há muito sangue, e não só de banqueiros mafiosos como
Roberto Calvi ou Michele Sindona, com quem João Paulo II se associou
para alimentar com fundos secretos os cofres do IOR (Banco do Vaticano),
fundos que serviram para financiar a luta contra o comunismo no leste
europeu e contra a Teologia da Libertação na América Latina.
João
Paulo II deixou desprotegidos os padres que encarnavam, na América
Latina, a opção pelos pobres frente às ditaduras criminosas e seus
aliados das burguesias nacionais. Em 2011, cinquenta destacados teólogos
da Alemanha assinaram uma carta contra a beatificação de João Paulo II
por não ter apoiado o arcebispo salvadorenho Óscar Arnulfo Romero,
assassinado em 24 de março de 1980 por um comando paramilitar da
extrema-direita salvadorenha, enquanto celebrava uma missa. Romero sim
que é e será um santo. O arcebispo enfrentou os militares para
pedir-lhes que não assassinassem seu povo, percorreu bairros, zonas
castigadas pela repressão e pela violência, defendeu os direitos humanos
e os pobres. Em resumo, não esperou que Bergoglio chegasse a Roma para
falar de “uma Igreja pobre para os pobres”. Não. Ele a encarnou em sua
figura e pagou com sua vida, como tantos outros padres aos quais o
Vaticano taxava de marxistas ou comunistas só porque se envolviam em
causas sociais.
João Paulo II é um santo impostor que traiu a
América Latina e aqueles que, a partir de uma igreja modesta, ousaram
dizer não aos assassinos de seus povos. Se, no leste europeu, João Paulo
II contribuiu para a queda do bloco comunista, na América Latina
favoreceu a queda da democracia e a permanência nefasta de ditaduras e
sua ideologia apocalíptica. Um detalhe atroz se soma à já incontável
dívida que o Vaticano tem com a justiça e a verdade: o expediente de
beatificação de Óscar Romero segue bloqueado nos meandros políticos da
Santa Sé. João Paulo II beatificou Josemaría Escrivá, o polêmico
fundador da Opus Dei e um de seus protegidos. Mas deixou Romero de fora,
inclusive quando estava com sua vida ameaçada. “Cada vez mais sou um
pastor de um país de cadáveres”, costumava dizer Romero.
João
Paulo II foi eleito em 1978. No ano seguinte, Monsenhor Romero entregou a
ele um informe sobre a espantosa violação dos Direitos Humanos em El
Salvador. O papa ignorou o informe e recomendou a Romero que trabalhasse
“mais estreitamente com o governo”. Como lembrou à Carta Maior Giacomo
Galeazzi, vaticanista de La Stampa e autor de uma magistral
investigação, “Wojtyla Secreto”, em “seus 25 anos de pontificado nenhum
bispo latinoamericanao ligado à ação social ou à Teologia da Libertação
foi nomeado cardeal por João Paulo II”. A resposta está em uma frase de
outro dos mais dignos representantes da “Igreja dos Pobres”, o falecido
arcebispo brasileiro Hélder Câmara. “Quando alimentei os pobres me
chamaram de santo; mas quando perguntei por que há gente pobre me
chamaram de comunista”.
O show universal da canonização já foi
lançado. A imprensa branca da Europa tem a memória muito curta e sua
cultura do outro é estreita como um corredor de hospital. Todos celebram
o grande papa. Ela promoveu à categoria de santo um homem que tem as
mãos sujas, que cometeu a infâmia de encobrir violadores de crianças, de
beijar ditadores e legitimar com isso o rastro de mortos que deixavam
pelo caminho, de negociar benefícios para a máfia, que sacrificou em
nome dos interesses de uma parte da Europa a misericórdia e a justiça de
outros, entre eles os da América Latina. Estão canonizando um
trapaceiro. O cúmulo da esperteza, do erro imemorial.
Em que
altar se ajoelharão as vítimas dos abusadores sexuais e das ditaduras?
Podemos levantar todos juntos um lugar aprazível e justo na memória com
as imagens do padre Múgica ou do Monsenhor Romero para nos
reencontrarmos com a beatitude o sentido de quem, por um ideal de
justiça e igualdade, enfrentou a morte sem pensar nunca em si mesmo, ou
em baixas vantagens humanas.
*Texto de Eduardo Febbro. tradução: Marco Aurélio Weissheimer.



