Via Correio do Brasil -
Naquela que deve ser a maior votação já realizada em escala mundial, 814 milhões de eleitores
indianos estão aptos a votar número quatro vezes maior do que o total
da população brasileira em cerca de 930 mil postos de votação espalhados
pelo país. O número de eleitores que participarão pela primeira vez bate recorde: 100 milhões.
O cientista político CRS Murphy, da Universidade Jawaharlal, dá
enorme importância à renovação do eleitorado: “Os jovens nas cidades
indianas trouxeram um significado político jamais visto, tanto nas áreas
urbanas quanto rurais. Isso se reflete também na campanha dos partidos,
que foi fortemente adaptada para atrair os jovens eleitores.”
Pela primeira vez, as redes sociais desempenham um papel importante
no pleito, com início marcado para esta segunda-feira. Mas esse não é o
único fator que pode fazer a diferença no resultado final: há também um
descontentamento generalizado da população com a política.
Um sintoma disso é que, pela primeira vez, as máquinas de votação
trarão a tecla NOTA, sigla em inglês para “nenhuma das opções acima”.
Aqueles que não aprovarem nenhum dos candidatos poderão simplesmente
optar por essa nova modalidade.
Corrupção e segurança das mulheres
O Partido do Congresso está no poder desde as primeiras eleições
nacionais, em 1952. O maior grupo de oposição é composto pelos
nacionalistas hindus do Partido Bhartyia Janata (BJP), fundado nos anos
1980.
Recentemente, houve o surgimento de um novo partido populista, que já
conta com apoio forte em diversas cidades, com o lema anticorrupção: o
Aam Aadmi Party, ou Partido do Cidadão Comum.
Além da corrupção, outro tema bastante discutido nas eleições deste
ano, principalmente entre os jovens da classe média, é o da segurança
das mulheres.
A imprensa indiana fez severas críticas ao atual governo, liderado
pelo Partido do Congresso, por ter ignorado esse tema até, finalmente,
se ver obrigado a agir. O governo interveio somente após enorme pressão
da opinião pública, decorrente do estupro e assassinato de uma jovem
estudante em Nova Délhi, em dezembro de 2012.
Outro fator que pode influenciar as eleições deste ano é o fato de a
religião e o sistema de castas exercerem menor influência sobre o
eleitorado. O candidato a primeiro-ministro pelo BJP, Narendra Modi,
prioriza a discussão em torno do desenvolvimento econômico, relegando a
religião a um papel secundário. Ele prometeu 10 milhões de novos
empregos caso seu partido chegue ao poder.
Entretanto, Modi tem também algumas manchas em sua reputação. Como
ministro-chefe do estado de Gujarat, ele fracassou ao não interceder
durante os conflitos religiosos de 2002 entre hindus e muçulmanos, que
causaram 900 mortos em sua maioria muçulmanos.
- Modi e o BJP têm sido bastante inteligentes ao focarem
exclusivamente no desenvolvimento econômico – observa o analista
político Purushottam Agrawal. “A questão sobre a culpabilidade do
massacre de 2002 em Gujarat ainda permanece obscura, de forma que é
melhor para ele que o assunto não seja mencionado.”
Campanha americanizada
A campanha extremamente personalizada do BJP é novidade na Índia.
Trata-se de Narenda Modi contra Rahul Ghandi, o candidato do Partido do
Congresso, filho do ex-primeiro-ministro Rajiv Gandhi. As figuras dos
candidatos acabaram prevalecendo sobre as plataformas dos partidos.
Segundo Agrawal, o BJP quer adotar na Índia o estilo americano de
campanha presidencial, introduzindo uma estratégia mais combativa. O que
mais preocupa o Partido do Congresso é que seu candidato, Rahul Gandhi,
não tem boa apresentação. Falta a ele o carisma dos seus antepassados, e
ele aparenta certo desconforto ao se expor publicamente.
No entanto, é incerto se a dramaticidade da campanha terá influência
significativa. O cientista político CRS Murphy prevê que o drama, de
fato, será iniciado no dia 16 de maio, quando virá o anúncio do
resultado das eleições.
Existe ainda a possibilidade de que os eleitores indianos distribuam
seus votos entre os partidos regionais e os de protesto, o que poderá
gerar dificuldades para a formação de uma coalizão governista.



