Via Euronews - Movimento Passe Livre -
Os grandes eventos esportivos costumam
deixar um legado importante às cidades que os sediam, em termos de
infraestrutura e transportes. Foi o caso, destacamente, para Atenas, em
2004, ou Barcelona em 1992. O Rio de Janeiro, que abriga o mítico
estádio do Maracanã, é uma das cidades-estrelas da Copa que começaram em
dois meses e meio, e sediará os Jogos Olímpicos em 2016. Para a
ocasião, um projeto ambicioso de mobilidade urbana foi lançado pela
prefeitura. Mas, no caso do Rio de Janeiro, essa transformação é feita
com dor.
Projetos faraônicos… e controvertidos
Existem três grandes projetos para a
mobilidade urbana. O primeiro se chama Transcarioca, um sistema de
ônibus rápidos que ligarão o aeroporto internacional, na zona norte, à
futura vila olímpica, na Barra da Tijuca, na periferia huppée da cidade,
situada no litoral sul. Essa linha levanta vários problemas, a começar
pela escolha do tipo de transporte. No trecho já operando, acontecem
muitos acidentes, quase todos os dias, porque a pista em que os ônibus
circulam em alta velocidade não é separada da estrada por mais que um
canteiro de alguns centímetros.
Além disso, as obras trouxeram, como
consequência, a expropriação das comunidades pobres que vivem à beira da
linha. Como compensação, os moradores dessas favelas receberão uma
indenização, mas ela é muito pouca para a compra de um terreno. Eles
organizam manifestações, mas elas são pouco divulgadas pela mídia,
porque acontecem em bairros muito afastados do centro.
A construção de uma quarta linha de metrô
e a de uma ferrovia dizem respeito somente ao centro e aos bairros
nobres da zona sul. Por fim, um vasto projeto de reforma da zona
portuária, deixada abandonada por muito tempo, provoca
engarrafamentos-monstros no centro. O Rio de Janeiro se tornou, assim,
em 2013, a terceira cidade mais engarrafada do mundo, ultrapassando a
aglomeração tentacular de São Paulo, a capital econômica do país, com 22
milhões de habitantes, conhecida pelo seu trânsito caótico.
A galera dos usuários
Eduardo Paes, o prefeito do Rio, revelou
numa entrevista ano passado que está vivendo um “pesadelo”, com a
organização de eventos de tal amplitude, com apenas dois anos de
intervalo. Um pesadelo, é exatamente o que vivem no dia-a-dia os
moradores da periferia que trabalham no centro, quando usam os
transportes coletivos. Não é raro que eles passem duas horas por dia em
ônibus lotados, nem sempre refrigerados, presos nos engarrafamentos.
Os que usam os trens não estão melhor:
eles são velhos, lotados e quase sempre atrasados. SuperVia, a empresa
que gerencia os transportes ferroviários do Grande Rio, prometeu trens
novos, refrigerados e mais espaçosos: até agora, chegaram a conta-gotas.
O sistema de barcas que liga o Rio a
Niterói, do outro lado da Baía de Guanabara, e transporta todo dia
milhares de trabalhadores das classes populares, também é objeto de
críticas numerosas. Os grandes intervalos entre as viagens provocam
filas intermináveis nos horários de pico. Como no caso dos ônibus e
trens, a maior parte do trajeto é em condições difíceis.
Um descontentamento que pode se tornar explosivo
Apesar das promessas, as melhorias ainda
não chegaram. Andressa Vieira, éstudante e membro do coletivo “Passe
Livre”, no Rio – que iniciou o movimento de contestação sem precedentes
que abalou o Brasil durante a Copa das Confederações em junho passado,
que pretendia ser uma repetição geral da Copa do Mundo – pega todos os
dias a barcas para ir à universidade em Niterói. Ela reclama da ausência
de transportes coletivos fora do horário de trabalho, nas periferias:
“Podemos ir trabalhar, e voltar para casa, mas não podemos sair à noite
para ir ao cinema ou tomar uma cerveja, quando moramos nesses bairros”
A estopim das manifestações em junho
passado foi o aumento das tarifas dos transportes. Diante das
reclamações, as autoridades, num primeiro momento, desistiram de
aumentar os preços, mas finalmente o fizeram no começo do ano, e ela foi
maior do que o previsto, para cobrir o congelamento.
Hoje, o preço de uma viagem de ônibus é
de cerca de 0,95 euros e, para os que moram mais longe do centro, quase
sempre é preciso fazer baldeação para chegar ao trabalho. O sistema de
bilhete integral é muito raro, e não existe nenhuma possibilidade de
bilhete semanal ou mensal. O gasto com transporte pode, então, chegar
até a 3,80 euros por dia, para os que moram mais longe do centro, que
vêm das classes mais populares. Isto representa uma soma muito
importante, quando se sabe que o salário mínimo no Brasil é de
aproximadamente 482 euros por mês. O preço da passagem de metrô, que
hoje é de cerca de um euro, ainda deve aumentar no próximo dia 17 de
maio, menos de um mês antes da Copa do Mundo, lembra Andressa. “Parece
que o prefeito e o governador do Estado não têm medo da rua”, conclui.
O Movimento Passe Livre critica os
conflitos de interesse na atribuição dos serviços. “O governador do
Estado do Rio é amigo íntimo do barão dos transportes”, denuncia
Andressa. Jacob Barata, chamado de “rei dos ônibus”, é o cabeça de um
grupo que controla três quartos dos transportes da cidade.
O movimento que exige uma melhoria dos
transportes públicos está marcando passo. A última grande mobilização
contra o aumento das passagens de ônibus, em 6 de fevereiro passado no
centro do Rio, terminou com a morte de um câmera, atingido na cabeça por
fogos de artifício lançados por um manifestante. Esse acontecimento
trágico conseguiu influenciar a cobertura midiática e esfriar novamente a
opinião pública sobre o movimento.
*Autor: Pierre Le-Duff. Tradutor: Rodrigo Silva Do Ó.



