Via MÍDIA Democrática -
Enganam-se aqueles que insistem em não compreender como as Jornadas
de Junho de 2013 alteraram a situação política, e apostam em uma
reeleição tranquila de Dilma Roussef, portanto, em uma nova vitória do
PT nas eleições de 2014. Nunca houve na história contemporânea, em país
algum, um matrimônio político indissolúvel da classe trabalhadora com um
partido político, menos ainda com uma liderança individual.
No seu processo de transformações, o PT enfrentou muitas crises, mas
foram quatro as que marcaram sua história, até junho de 2013. A dinâmica
política de sua evolução não foi linear. O critério para definir quais
entre as crises foram as mais importantes será sempre controverso. O que
importa, no entanto, não é se os que viveram o processo compreenderam a
gravidade da mudança que aconteceu. Significativo é se o
desenvolvimento futuro do Partido confirmou que a crise foi ou não
decisiva.
Tudo que existe se transforma. Nenhuma mudança qualitativa, todavia,
acontece sem uma crise. Uma crise se abre quando a acumulação
quantitativa de conflitos, até então geridos de forma rotineira, impõe a
necessidade de um giro. A força de inércia nas organizações políticas
foi sempre muito poderosa.
Quando se alteram as relações de forças entre as classes, um partido
pode manter o mesmo vocabulário, não obstante, terá que mudar as suas
ações. A luta política pode assumir formas muito duras, mesmo que o tom
do discurso seja suave, e o estilo dos dirigentes seja brando. Decisões
que foram adiadas, indefinidamente, precisam então ser enfrentadas. A
história de organizações políticas só pode ser compreendida, portanto,
com a análise de como enfrentaram suas crises. Este esforço de
periodização é inescapável para atribuir sentido à interpretação de como
o petismo se transfigurou em lulismo.
Eis a hipótese deste artigo: uma crise é significativa quando um
partido sai dela diferente daquilo que era. Nos anos 80, por exemplo,
quando a situação política evoluía à esquerda pela mobilização mais
ativa dos trabalhadores e da juventude, o PT teve a primeira ruptura,
pela direita, mas foi indolor, tanto na vanguarda mais orgânica quanto
na área de influência eleitoral (1).
A primeira crise (1988)
A primeira grande crise veio com a eleição de Luíza Erundina para a
prefeitura de São Paulo. Confirmou-se a terrível dialética de como as
vitórias podem se transformar em derrotas. O posicionamento de um
partido em relação ao regime político no qual está convocado a lutar é
uma das suas definições mais essenciais. Trata-se da atitude diante do
Estado. A questão central colocada era a relação com o regime
democrático-eleitoral: aceitar ou não os limites legais da nova
constitucionalidade?
O processo de adaptação político-social era nebuloso para a maioria
da vanguarda ativista que tinha referência no PT, porém, como a evolução
futura confirmou, dramaticamente, já era irreversível. O que não
impediu que, ainda durante alguns anos, uma parcela majoritária da
esquerda petista considerasse o PT, e mesmo sua direção, um “partido em
disputa” para o projeto da revolução brasileira.
A atitude da bancada do PT em relação à Constituição de 1988 foi
simbólica deste período. O PT votou contra a Constituição, mas assinou o
documento, portanto, assumiu, publicamente, o respeito pela
legitimidade do novo regime (2). A maioria da esquerda petista desejou
ignorar o significado desta assinatura, mas a direção do PT sabia muito
bem que estava sinalizando para a classe dominante um compromisso com a
ordem. A burguesia brasileira compreendeu o gesto. Não por acaso, a
direção do PSDB, liderada por Mario Covas, unanimemente, declarou o
apoio a Lula contra Collor no segundo turno em 1989. Assim como Brizola.
Erundina e outros prefeitos petistas, como o de Diadema no ABC, na
região metropolitana paulista, se viram diante do dilema de ocupações de
terrenos públicos e privados pelos movimentos de moradia, e de greves
de funcionários públicos e trabalhadores de estatais, como a CMTC,
empresa pública de transportes. Apelaram à repressão, uns mais outros
menos, e houve episódios até de presos e feridos. Não houve rupturas no
partido, mas as placas tectônicas do PT se moveram. O PT pagou a dívida
pública dos municípios, escrupulosamente, e não hesitou em convocar a PM
(Polícia Militar) contra a luta operária e popular.
O que obscurecia a mudança política profunda era que, embora o PT
tivesse deixado de ser oposição ao regime democrático, era não só
oposição ao governo Sarney, mas uma oposição intransigente.
A segunda crise (1992)
No início dos anos 90, quando a situação política evoluía à direita, e
as pressões burguesas pela estabilidade do regime democrático eram mais
intensas, a direção do PT convocou o 1º Congresso e decidiu expulsar a
Convergência Socialista, uma corrente trotskista que constituiu, após
uma unificação com outras organizações marxistas, o PSTU (3). Foi a
segunda grande crise. Dali para frente, as tendências de esquerda que
ainda resistiam no PT ficaram sabendo qual seria o seu destino, se
desafiassem a direção. Esta crise não teve repercussão eleitoral, mas
deixou uma ferida incurável: a ala revolucionária tinha sido eliminada e
as reações defensivas foram declaratórias.
Paradoxalmente, após o impulso do Fora Collor, a corrente majoritária
do PT – que tinha ido muito longe no seu giro à direita no 1º Congresso
de 1991 – se dividiu, originando a Articulação de Esquerda. Esta
corrente, unida às tendências marxistas DS (Democracia Socialista) e
Força Socialista, entre outras, obteve uma vitória no Encontro Nacional
do PT em 1993. A reação, no entanto, foi um fogo de palha e se revelou
efêmera. No Encontro Nacional de 1995, na sequência da segunda derrota
presidencial de Lula em 1994, a Articulação, liderada por Zé Dirceu,
recuperou a maioria, em aliança com a tendência Nova Esquerda, liderada
por José Genoíno e Tarso Genro (4).
A ilusão de um partido em disputa desmoronou e a inflexão da situação
política, após a vitória de FHC e a derrota da greve petroleira em
1995, foi o bastante para que a luta interna no PT se transformasse num
assunto exclusivo de profissionais políticos. O partido de militantes
abnegados tinha deixado de existir.
A terceira crise (2003)
Em 1999, a direção do PT, depois da terceira derrota eleitoral em
1998, realizou mais uma inflexão à direita: impôs um veto à campanha Fora FHC
que a CUT e o MST vinham construindo, com o apoio da esquerda interna e
externa ao PT, e que tinha realizado em Brasília um ato com cem mil
ativistas.
A campanha pelo Fora FHC de 1999 tentava mimetizar o que tinha sido a campanha Fora Collor
em 1992, e ameaçava crescer em um contexto de intenso mal estar
provocado pela maxidesvalorização do real no primeiro mês do segundo
mandato de FHC. O posicionamento inflexível da direção do PT – Zé Dirceu
condicionou a sua eleição à presidência do PT à derrota da moção pelo Fora FHC – demonstrou ao governo Fernando Henrique a disposição de bloquear qualquer movimento social.
Coerente com a decisão de comprovar o seu compromisso com a
governabilidade, em julho de 2002, a direção do PT articulou um
Manifesto no lançamento da quarta candidatura de Lula à presidência,
desta vez tendo como vice Zé Alencar, um dos maiores empresários do
setor têxtil e senador por Minas Gerais. Este documento declarava com
todas as letras a decisão de honrar o pagamento da dívida pública,
interna e externa.
Finalmente, em 2003, depois da eleição de Lula, a direção do PT não
hesitou em expulsar Heloísa Helena e os deputados que vieram a formar o
PSOL, com a acusação, novamente, de indisciplina, por terem se recusado a
votar no Congresso a Reforma da Previdência (5).
Foi a terceira grande crise. Ficou comprovado que a mão da direção do
PT não iria tremer no seu giro à direita. A classe dominante brasileira
compreendeu o significado deste gesto. O mesmo não pode ser dito das
correntes de esquerda que, inspiradas formalmente no marxismo, decidiram
acatar a decisão. Aqueles que então ainda permaneceram no PT, dentro ou
fora do governo, passaram a ser uma sombra, ou um cadáver insepulto,
porque perderam o que tinham de identidade própria.
A quarta crise (2005)
Foi, porém, em 2005 que o PT atravessou a mais séria crise de sua
história. Uma parcela do núcleo duro de sua direção foi decapitada,
politicamente, pela crise aberta pelas denúncias do mensalão. Apesar de
indisfarçável satisfação das frações majoritárias da classe dominante
com o governo Lula desde o primeiro mandato, a oportunidade aberta pela
crise do mensalão precipitou uma ofensiva política burguesa no Congresso
Nacional e na mídia, com algum eco nas ruas, nas fábricas e nas
universidades, que fez Lula tremer no Palácio do Planalto.
O mensalão obrigou o PT a sacrificar Zé Dirceu e dezenas de líderes, e
deixou o partido desmoralizado entre os setores mais críticos do
ativismo operário e popular, em boa parte da vanguarda estudantil mais
lutadora, e nos meios da intelectualidade de esquerda mais honesta.
Depois de oito anos no poder, a condição de classe da direção do PT
mudou (os sinais de enriquecimento rápido passaram a ser
indisfarçáveis). O próprio partido mudou de natureza social. Ficou para a
história o partido operário reformista. Depois de anos no poder, nasceu
um partido com relações orgânicas com algumas frações da burguesia
brasileira.
A quinta e última crise (junho 2013)
A quinta e última crise foi precipitada pelas Jornadas de Junho de
2013. Pela primeira vez nos últimos trinta e cinco anos, uma moblização
nacional se precipitou à margem da influência petista. Alguns milhões de
jovens nas ruas em mobilizações contra todos os governos, sem poupar
aqueles liderados pelo PT, em especial, Haddad em São Paulo. Estes atos
puseram fim aos dez anos de estabilidade política no país. Em um mês, os
índices de aprovação do governo Dilma desabaram, vertiginosamente, de
quase 60% para menos de 30%.
Depois de setembro, todavia, o governo liderado pelo PT se recuperou.
Mas a incerteza política e a tendência à estagnação econômica
contaminaram os humores da maioria da burguesia, que elevou o tom de
suas exigências a Dilma, mesmo depois do leilão do pré-sal. Resumindo, o
PT começou a perder apoio nos setores mais instruídos dos jovens
trabalhadores, o precariado, e começou a perder apoio, também, em
frações burguesas. É bom lembrar que o PT nunca teve muito apoio nas
classes médias. Mantém um apoio sem entusiasmo na maioria do
proletariado. Mantém, também, a preferência eleitoral nas camadas
populares desorganizadas.
Evidentemente, não há como prever em que medida estes deslocamentos
terão consequências eleitorais. A mobilização social esteve na história,
invariavelmente, à frente da consciência política. Por outro lado, uma
mudança favorável aos trabalhadores na relação de forças entre as
classes pode ou não abrir o caminho para um fortalecimento da oposição
de esquerda.
As grandes massas em luta pelas suas reivindicações, isto é, por uma
vida melhor, têm uma compreensão muito parcial das tarefas históricas
necessárias para a sua vitória. Também têm imensas dificuldades de
imaginar o que seria uma mudança político-social, ou seja, a
conquista do poder, e o exercício da política, por elas mesmas, sem a
mediação das instituições do regime que desmorona. Vivem “fora da
política” a maior parte de suas vidas e, por isso, a delegação do poder
político, seja de forma coercitiva, pela usurpação violenta, seja de
forma mascarada, pelo voto em alguém, é uma das forças de inércia
histórica mais poderosas.
As grandes mobilizações de massas, sejam elas operárias, camponesas
ou populares, se colocam em movimento para derrubar o governo e o regime
sem uma ideia muito clara do que seria necessário erguer no seu lugar,
sem um projeto definido de ordem social e política alternativa, e sem
propostas previamente acordadas de quais mudanças por realizar. A obra
“destrutiva” da revolução surge aos olhos das multidões em luta com uma
urgência e uma clareza proporcionalmente inversa à dificuldade de
perspectiva do que seria o novo regime. Uma pesquisa sobre as razões da
participação nas manifestações revela que a grande maioria estava nas
ruas em defesa de serviços públicos e gratuitos e contra a corrupção
(6).
Toda esta dinâmica em um contexto muito semelhante ao “que se vayan todos”
da Argentina em dezembro de 2001, às mobilizações da “geração à rasca”
em Portugal, aos “indignados” da Puerta de Sol em Madri, ou mesmo aos
jovens desempregados na Grécia. Ninguém pode prever qual será o destino
do PT a partir da ruptura da nova geração de trabalhadores, os mais
instruídos da história do país, porém, precários e com salários
miseráveis. A História ensina que a luta de classes pode assumir formas
lentas, até que se torna vertiginosa.
Notas:
1) Três deputados federais, Bete Mendes e José Eudes, liderados por
Airton Soares, romperam com o partido em 1985, porque o PT não apoiou a
Aliança Democrática que elegeu, indiretamente, a chapa Tancredo/Sarney
no Colégio da ditadura, na sequência da campanha das Diretas em 1984.
Saíram sozinhos, sem deslocamentos de militantes e sem maiores sequelas
na influência eleitoral, que permaneceu ascendente. A trajetória de
Soares foi errática: uniu-se ao PDT (esteve nos bastidores da campanha
para a presidência de Brizola em 1989), PSDB, PPS (esteve com Ciro Gomes
em 1998) e, finalmente, filiou-se ao PV no apoio de Marina Silva em
2010.
2) O discurso de Lula que sustenta a decisão de votar contra a Constituição, mas assiná-la pode ser conferido aqui:
http://oglobo.globo.com/pais/noblat/posts/2008/11/06/por-isso-que-pt-vota-contra-texto-da-constituicao-138367.asp
Consulta em 19/02/2014.
3) A Convergência Socialista tinha sido uma das primeiras tendências
presentes desde a fundação. Zé Maria de Almeida foi um dos defensores da
ideia da formação de um PT no congresso dos metalúrgicos de Lins em
1979. Em 1992, a acusação que fundamentou a expulsão da CS foi
indisciplina, porque a tese que defendia a necessidade de uma campanha
para tentar derrubar Collor tinha sido derrotada no 1º Congresso
Nacional do PT de 1991, obtendo 30% dos delegados. A CS orientava 10%
deste bloco e chegou a ter dois deputados no Congresso Nacional. A CS
não aceitou a decisão e, apoiada em sua influência sindical e
estudantil, que era superior à sua presença orgânica no PT –
aproximadamente, 15% na CUT (Central Única dos Trabalhadores) e 20% na
UNE (União Nacional dos Estudantes) –, saiu às ruas pelo Fora Collor.
O PSTU apresentou Zé Maria como candidato nas eleições de 1998, 2002 e
2010, mas não conseguiu representação parlamentar. Foi a principal
corrente da esquerda anticapitalista impulsionadora da CSP/CONLUTAS
(Central Sindical e Popular/Coordenação Nacional de Lutas) que nasceu em
2005. Sobre a CS nos anos oitenta:
http://www.pstu.org.br/partido_materia.asp?id=10264&ida=58 Consulta em 22/04/2011.
4) A tendência Nova Esquerda surgiu da dissolução do PRC (Partido
Revolucionário Comunista) em 1989. O PRC nasceu em 1979 de uma cisão do
PCdoB (Partido Comunista do Brasil), cuja história remete à cisão
sino-soviética de 1961. O PCdoB manteve referência na linha maoísta
defendida pela Albânia, e esteve à frente da guerrilha do Araguaia no
início da década de 70. O PRC foi parte da oposição de esquerda que
lutou no interior do PT nos anos 80. A Nova Esquerda realizou o giro
político mais estonteante do final dos anos 80: chegou à conclusão de
que o estalinismo era indissociável do leninismo e do próprio marxismo.
Uma análise consistente da evolução do PRC até a Nova Esquerda e,
finalmente, a formação da Democracia Radical pode ser conferida na tese
de Eurelino Coelho, (2005), Uma esquerda para o capital: crise do marxismo e mudanças nos projetos políticos dos grupos dirigentes do PT (1979-1998). Tese de Doutorado. Niterói, Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense. Ou, também, em:
http://www.espacoacademico.com.br/089/89ozai.htm
Consulta em 21/04/2011.
5) O PSOL (Partido Socialismo e Liberdade) nasceu em 2004 da
iniciativa liderada pela senadora Heloísa Helena (uma das lideranças da
DS que, entretanto, se dividiu, também, e uma maioria de 90% manteve
apoio ao governo Lula), e pelos deputados federais João Batista Babá e
Luciana Genro, que expressavam as posições das tendências CST (Corrente
Socialista dos Trabalhadores) e MES (Movimento de Esquerda Socialista),
que tinham surgido de rupturas da CS em 1992. Em 2005, depois da crise
do mensalão, a Força Socialista, liderada pelo deputado Ivan Valente,
rompeu também com o PT e uniu-se ao PSOL. O PSOL mantém representação
parlamentar com três deputados nacionais.
6) http://especial.g1.globo.com/fantastico/pesquisa-de-opiniao-publica-sobre-os-manifestantes
Consulta em 28/10/2013.
*Texto de Valerio Arcary é professor do IF/SP (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia) e doutor em História pela USP.



