Via Observatório da Imprensa -
Há quem diga que vivemos em um período de liberdades democráticas.
Essas considerações geralmente estão relacionadas a uma análise
comparativa com um dos períodos mais sombrios da história brasileira e,
sem dúvida, se comparados os dois momentos, em seu conjunto, representam
extremos. É sempre importante analisar o que foi a ditadura, que
completou no dia 1º de abril 50 anos de seu início, marcado pelo golpe
que culminou com a renúncia do então presidente João Goulart. Um golpe
que não foi uma ação militar, simplesmente. Mas um golpe que contou com a
articulação e apoio de grandes grupos empresariais internacionais e
nacionais, entre eles boa parte das empresas de comunicação do Brasil.
No livro A moderna tradição brasileira, Renato Ortiz mostra
que é justamente a partir de 1964 que se acelera no país uma proposta de
desenvolvimento desordenado que aprofunda uma série de contradições,
dentre as quais a pior é, sem dúvida, a grande desigualdade social. Mas
ele também aponta como alguns desses grupos, entre eles a Globo e a Folha de S.Paulo,
emergem como potências empresariais, enquanto outras como a extinta TV
Excelsior passam a sofrer sanções que resultam em sua bancarrota.
Mais do que um simples pedido de desculpas pelo apoio ao golpe militar,
as empresas de comunicação devem deixar de omitir o desserviço que
prestaram à sociedade brasileira não apenas no golpe, mas sobretudo na
censura interna que resultava na passividade e oficialidade do
jornalismo imposto nas redações. Carlos Eduardo Lins e Silva, no livro Muito além do Jardim Botânico,
por exemplo, cita episódio em que o próprio Roberto Marinho censurou
uma matéria jornalística que apontava problemas no governo federal
naquele período.
Mecanismos de coação
O silêncio para certas informações possibilitou aos militares
realizarem as piores barbáries com seres humanos por conta de suas
posições políticas e sua divergência ao governo. Vários jornalistas
foram perseguidos, torturados e alguns mortos. Os relatos agora começam a
aparecer por meio das comissões da verdade e pelo que contam outros
jornalistas como é o caso da paranaense Teresa Urban, que infelizmente
não está mais entre nós.
Esse é um erro que as empresas de comunicação do país não admitem. Ou
justificam sua linha editorial em favor de uma causa que se opõe
justamente àqueles a quem diz prestar contas, ou seja, à própria
sociedade.
Nos últimos anos, com a mudança do perfil dos profissionais nas
redações, cada vez mais jovens, o que se observa é uma imposição
ideológica não mais governamental, ainda que o governo militar agia como
a mão de ferro das corporações internacionais e nacionais. Basta
verificar o surgimento de grandes empresas nacionais e multinacionais no
Brasil e seus lucros astronômicos no período. A imposição agora é mais
implícita, sob um controle direto da mão invisível do mercado ou em
favor de políticos que representam elites e que se utilizam da máquina
pública financiando veículos de comunicação e determinando a linha
editorial.
O que manda nas redações é a audiência, aquela que, como diz Noam
Chomsky, deve ser o produto a ser vendido aos patrocinadores,
anunciantes, sejam eles privados ou governamentais. Os mecanismos de
coação ao jornalismo, portanto, aparecem na tentativa de domesticar os
profissionais por meio de premiações veladas, políticas de participação
no lucro, assédio moral e demissões dos mais críticos e questionadores. É
a partir desta realidade que o jornalista calcula suas atividades na
Redação, considerando não o interesse público, mas a audiência que
determinado fato pode gerar, levando ao extremo o conceito de
“valor-notícia”, definidos por Nelson Traquina, aliada a um conteúdo que
não fira os interesses dos seus patrocinadores.
Jornalismo se faz com liberdade
Nesse sentido, a censura se impõe pelos interesses comerciais. São os
donos do dinheiro que determinam as pautas, o conteúdo das matérias, e,
portanto, quem assume verdadeiramente o posto de gatekeeper do
jornalismo atual. E os proprietários dos meios de comunicação, como
participantes dessa mesma elite, não hesitam em atender aos pedidos de
seus parceiros. Quantos jornalistas já tiveram material censurado,
pautas “recomendadas”, entre outras ações que interferiram diretamente
no interesse público? Talvez nem todos digam que sim, mas certamente uma
grande maioria dirá que conhece um caso que ocorreu com um colega.
Pierre Bourdieu fala de uma “censura invisível”, em Sobre a televisão,
a qual se impõe por meio de uma distorção do papel do jornalismo na
sociedade atual. Ela se impõe de forma velada, sem que o próprio
jornalista tenha consciência de sua existência. Está no pensar a pauta,
na escolha das palavras, na estrutura do texto, enfim, na rotina de
construção da notícia. Nós, jornalistas, estamos condicionados a pensar
de uma maneira privada, individualista, competitiva, que exclui qualquer
possibilidade de imaginar o coletivo.
Não é à toa que é difícil
mobilizar jornalista ou aumentar os níveis de sindicalização.
Não precisamos de uma ditadura para dizer o que é censura. O jornalismo
em geral está condicionado a uma censura de mercado ou de governantes
onde vira notícia aquilo que tem relação com o lucro. Mais do que a
situação do jornalista que já vive um momento complicado na profissão
(difícil saber um período bom), tendo em vista as condições de vida,
perspectiva de carreira e de valorização, é preciso pensar na
responsabilidade do jornalismo. E não se trata da “responsabilidade
social” de fachada, pintada pelas estratégias de marketing das empresas,
mas das consequências que o trabalho jornalístico tem para a vida das
pessoas, entendendo o jornalismo como atividade que se constitui como
gênero do conhecimento, conforme definido por Adelmo Genro Filho.
Jornalismo é uma atividade de caráter público e precisa ser tratada
como tal. Isso pressupõe não apenas a pseudoliberdade editorial expostas
pelos veículos de comunicação, mas o fim das sanções nas redações, das
demissões, da meritocracia e o reordenamento do modelo de comunicação do
país que deve passar a fortalecer o campo público, incluindo a redução
dos valores repassados pelo governo à mídia privada e o incremento de
receitas à mídia pública (tanto estatal como de iniciativas não
governamentais), aliada a uma política que garanta o controle social, a
gestão democrática com participação de jornalistas e a valorização
destes profissionais por meio de melhores salários, estabilidade no
emprego e perspectiva de carreira. Jornalismo de verdade se faz com
liberdade, tendo como princípio o interesse público.
*Texto de Guilherme Carvalho, professor de Jornalismo e presidente do Sindjor/PR.



