5.4.14

Absenteísmo e mau governo acabam com o partido de Hollande nas eleições

Via Opera Mundi -

Todos sabiam que o Partido Socialista (PS) teria dificuldades nessas eleições. Ninguém imaginava, porém, que o partido do presidente François Hollande sofresse uma derrota tão ampla. Apesar de o PS ter resistido na capital Paris, a direita ganhou em 151 cidades com mais de 10 mil habitantes.

 O segundo turno das eleições administrativas francesas, em que 48,5 milhões de franceses foram votar juntamente a 300 mil europeus que têm direito a voto por residir na França, confirmou a derrota do Partido Socialista (PS) de François Hollande.

Se não fosse pelos 54,5% que AnneHidalgo obteve em Paris, elegendo- -se prefeita, e por ter resistido em Metz, Rennes, Brest, Lens, Strasburgo e Avignone, o PS teria sofrido uma completa débâcle política, já que o partido do presidente obteve apenas 40,57% dos sufrágios – enquanto o partido conservador- gaulista UMP, de Jean-Francois Copè, se recuperando muito bem da saída de Nicolas Sarkozy, alcançou 45,91%.

Há de se ressaltar, porém, que apesar de tal resultado ter permitido a Copè anunciar que o UMP voltou a ser o primeiro partido dos franceses, a afirmação não é correta. Isso porque nos 6.455 municípios franceses o absenteísmo registrou 38,5% de eleitores que optaram por ficar em casa no lugar de ir votar (36,45% no primeiro turno). Um absenteísmo que confirma o alarmante comportamento que os franceses manifestaram já em 2012, quando 42,77% dos eleitores desistiram de ir às urnas.

Referendo contra Hollande

Estas eleições administrativas, além de permitirem ao Front National, de Marine Le Pen – o partido da extrema-direita fascista – se tornar o terceiro partido francês com 6,8% dos sufrágios, na realidade, foi um importante teste eleitoral às vésperas das eleições europeias, que se realizarão no dia 25 de maio.

A imprensa francesa e, em particular, o diário Le Monde insistiram em dizer que estas eleições, na realidade, foram um referendo com o qual os franceses julgaram o governo da “gauche”, e seu primeiro-ministro, Jean-Marc Ayrault que nunca conseguiu materializar a promessa que Hollande fez em 2012. Ou seja, a que foi feita durante a campanha eleitoral de Hollande, em que se garantia que o PS tinha um plano para sair da crise e acabar com o desemprego, em particular o juvenil.

Nada disso aconteceu e por isso os franceses, inclusive uma parte daquele eleitorado que havia votado em Hollande em 2012, puniram o PS confiando o governo de seus municípios aos representantes conservadores da UMP ou até aos fascistas do Front National.

O resultado desse referendo que, em termos políticos, pode ser considerado uma verdadeira débâcle política para o PS, na realidade, demonstra que um terço do eleitorado francês não acredita mais nos partidos e nas promessas que seus candidatos fazem nas campanhas eleitorais.

Outro setor, que em termos quantitativos aglomera 15% do eleitorado e politicamente não tem mais um pressuposto ideológico, vota por quem promete mais. Por isso, nos últimos 15 anos, nas eleições francesas houve sempre novas “surpresas”, com importantes faixas de eleitores que deram seu voto a partidos ou candidatos que, anteriormente, detestavam.

É o caso do tradicional bairro operário de Stalingrad, em Paris, que nas eleições de 2005, votou quase em massa no candidato da Front Nacional em função da promessa de “expulsar os estrangeiros que roubavam o trabalho dos franceses aceitando trabalhar sem carteira assinada”

Hoje, os candidatos da extrema-direita conseguiram conquistar, novamente, parte dessa faixa de eleitores desiludidos prometendo-lhes “a expulsão dos imigrantes negros e árabes que transformaram as periferias de nossas cidades em narco-bairros onde não há mais leis”

Praticamente foi em função desse tipo de manipulação que o Front National ganhou as prefeituras de 15 cidades, entre as quais as de grandes centros como Frejus e Beziers, passando dos 60 vereadores eleitos em 2008 para os 1.250 de agora.

Por outro lado, esse referendo contra Hollande e, portanto contra o PS, fez cair definitivamente a histórica adjetivação política e ideológica de François Mitterrand, segundo a qual o Partido Socialista era a “Gauche” francesa (Esquerda).

Infelizmente, o partido socialista de Mitterrand não existe mais. E o pior é que o atual PS não dispõe de lideranças do seu nível. Além disso, o trio dirigente do PS: François Hollande/Jean-Marc Ayrault/Laurent Fabious maculou o histórico pacifismo do PS, aliando-se à Grã-Bretanha e aos EUA na campanha contra a Síria para derrubar o governo de Bashar Al-Assad. Algo que pesou bastante na opinião pública, já muito insatisfeita com as inúteis medidas que o governo do PS tomou nos últimos dois anos para aliviar os efeitos negativos da crise econômica e do desemprego.

A verdadeira “esquerda”

Mas se o presidente François Hollandenão quis assumir a responsabilidade da derrota eleitoral, 
descarregando todas as culpas no ex-primeiro-ministro, Jean-Marc Ayrault; a dirigente do PS Ségolène Royal, ex-companheira de Hollande, foi mais realista sublinhando: “Estas eleições foram uma implacável punição para o Partido Socialista que, por sua parte, deverá tomar a sério o resultado das urnas e analisar profundamente o que aconteceu nas diferentes cidades onde fomos derrotados, procurando entender o porquê disso tudo”.

Afirmações corajosas que foram logo apoiadas pelo ministro da Economia, Pierre Moscovici, segundo o qual “foi uma incontestável derrota para o Partido Socialista e, sobretudo, para o governo, visto que o desemprego continua subindo e a economia não decola como havíamos previsto”.

Diante disso a ala esquerda do Partido Socialista – que é a verdadeira “Gauche” – esta em pé de guerra acusando Hollande e Fabious de ter desnorteado o partido.

De fato, Edwy Plenel, diretor do importante diário digital Mediapart, admitiu que “Hollande continuará a dar muitas dores de cabeça à ala esquerda do seu partido e, sobretudo, do seu eleitorado, que quer que o PS permaneça um partido de esquerda e não uma formação que faz tudo o que o mercado quer.

Por exemplo, o presidente François Hollande, ao promover as negociações do ‘pacto de responsabilidade’ com o patronato, pressionando os sindicatos para aceitar esse pacto, que é a negação do sindicalismo de esquerda, fez com que os setores da esquerda que o elegeram em 2012, agora o abandonassem”. Para depois finalizar afirmando que: “Hollande já não é o mesmo homem que era antes das eleições presidenciais”.

FN: partido anti-EU?

Antes de analisar o sucesso do Front National é necessário dizer que, nas eleições administrativas de 2008, 16,3 milhões de franceses se abstiveram, tornando a abstenção eleitoral um perigoso fenômeno político. Agora, a abstenção foi, novamente, a principal surpresa dessas eleições administrativas.

Os franceses rejeitaram as urnas, os partidos e as promessas de campanha “porque são todos iguais, porque prometem, mas nunca cumprem, porque não fazem nada quando estão no poder etc. etc.”

Frases que os noticiários de TVs gravaram nas diferentes cidades da França, e que repetem o glossário de quem fez abstenção na Itália, na Espanha, em Portugal, na Grécia, na Irlanda, enfim, em todos os países da União Europeia onde a crise econômica e as medidas de austeridade golpeiam os salários, as pensões e os serviços públicos. Por isso tudo, o fenômeno da abstenção política cresceu como nunca na Europa
.
É nesse cenário que as formações da extrema-direita, tais como o Front National na França, ganharam mais espaço, inclusive por dar publicidade ao mal-estar social e por descarregar sobre os imigrantes todo o rancor e a raiva que a crise econômi

ca provoca, sobretudo, nos trabalhadores que ganham um baixo salário ou que estão desempregados.
Além disso, Marine Le Pen, líder do Front National, apresentou nessa campanha uma equação política muito simples, ao dizer que “o drama do desemprego é uma consequência direta da política de austeridade imposta pela Alemanha de Angela Merkel, verdadeira governadora da União Europeia”.

Por isso, segundo a líder do Front National, “a solução dos problemas econômicos e sociais dos franceses passaria pela saída da França da União Europeia” Uma proposta política que requalifica o Front National como o principal partido de extrema-direita contrário à União Europeia, que nas próximas eleições de 25 de maio, poderá ser, também, o líder da frente dos partidos de direita e de extrema-direita europeus contrários à permanência na União Europeia. Uma proposta que, na realidade, poderá ganhar o voto de uma considerável faixa de eleitores europeus cansados com as políticas de austeridade impostas pela Alemanha nos países do bloco.

De fato, o antieuropeísmo foi a oportuna solução política que Jean-Marie Le Pen (pai de Marine) inventou em 2002 para poder esconder o passado do Front National como partido neonazista. Uma transformação que foi estimulada pelas “excelências” da burguesia francesa que ajudaram Marine Le Pen na transformação do Front National, até que conseguisse ultrapassar o limite de 5% fixado para entrar no Parlamento.

Desta forma, Marine Le Pen reformulou o velho partido neonazista, criado pelo seu pai, em um novo partido de extrema-direita que atua no âmbito do parlamentarismo burguês. Uma condição ideal para sustentar silenciosamente a ideologia neonazista, enquanto consegue fazer sobreviver um aparelho partidário profissionalizado, sempre pronto a se aliar com os partidos conservadores e invadir as ruas para se opor à esquerda, aos sindicatos e aos movimentos populares.

Portanto, hoje, o Front National, bem como as formações italianas e austríacas de extrema-direita que entraram no Parlamento, escondem em silêncio a alma fascista ou nazista de seus fundadores e atuam como “nacionalistas” no seio da sociedade explorando o sentimento “anti-União Europeia”.

Um falso nacionalismo que a própria burguesia de forma oculta sustenta, mas que publicamente apresenta como um perigo para amedrontar a classe média e os trabalhadores. Afinal, o principal objetivo da burguesia europeia, seja ela francesa, italiana ou alemã é manter os povos da União Europeia dentro de um modelo de ordem política e de exploração econômica e financeira que a Tríade (FMI, Banco Mundial e Banco Central Europeu) determinou, encarregando a Alemanha de assumir a direção desse processo.

*Achille Lollo é jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na Itália e editor do programa TV “Quadrante Informativo.