Via Opera Mundi -
Todos sabiam que o Partido Socialista (PS) teria dificuldades
nessas eleições. Ninguém imaginava, porém, que o partido do presidente
François Hollande sofresse uma derrota tão ampla. Apesar de o PS ter
resistido na capital Paris, a direita ganhou em 151 cidades com mais de
10 mil habitantes.
O segundo turno das eleições administrativas francesas, em que 48,5
milhões de franceses foram votar juntamente a 300 mil europeus que têm
direito a voto por residir na França, confirmou a derrota do Partido
Socialista (PS) de François Hollande.
Se não fosse pelos 54,5%
que AnneHidalgo obteve em Paris, elegendo- -se prefeita, e por ter
resistido em Metz, Rennes, Brest, Lens, Strasburgo e Avignone, o PS
teria sofrido uma completa débâcle política, já que o partido do
presidente obteve apenas 40,57% dos sufrágios – enquanto o partido
conservador- gaulista UMP, de Jean-Francois Copè, se recuperando muito
bem da saída de Nicolas Sarkozy, alcançou 45,91%.
Há de se
ressaltar, porém, que apesar de tal resultado ter permitido a Copè
anunciar que o UMP voltou a ser o primeiro partido dos franceses, a
afirmação não é correta. Isso porque nos 6.455 municípios franceses o
absenteísmo registrou 38,5% de eleitores que optaram por ficar em casa
no lugar de ir votar (36,45% no primeiro turno). Um absenteísmo que
confirma o alarmante comportamento que os franceses manifestaram já em
2012, quando 42,77% dos eleitores desistiram de ir às urnas.
Referendo contra Hollande
Estas
eleições administrativas, além de permitirem ao Front National, de
Marine Le Pen – o partido da extrema-direita fascista – se tornar o
terceiro partido francês com 6,8% dos sufrágios, na realidade, foi um
importante teste eleitoral às vésperas das eleições europeias, que se
realizarão no dia 25 de maio.
A imprensa francesa e, em particular, o diário Le Monde insistiram
em dizer que estas eleições, na realidade, foram um referendo com o
qual os franceses julgaram o governo da “gauche”, e seu
primeiro-ministro, Jean-Marc Ayrault que nunca conseguiu materializar a
promessa que Hollande fez em 2012. Ou seja, a que foi feita durante a
campanha eleitoral de Hollande, em que se garantia que o PS tinha um
plano para sair da crise e acabar com o desemprego, em particular o
juvenil.
Nada disso aconteceu e por isso os franceses, inclusive
uma parte daquele eleitorado que havia votado em Hollande em 2012,
puniram o PS confiando o governo de seus municípios aos representantes
conservadores da UMP ou até aos fascistas do Front National.
O resultado desse referendo que, em termos políticos, pode ser considerado uma verdadeira débâcle política
para o PS, na realidade, demonstra que um terço do eleitorado francês
não acredita mais nos partidos e nas promessas que seus candidatos fazem
nas campanhas eleitorais.
Outro setor, que em termos
quantitativos aglomera 15% do eleitorado e politicamente não tem mais um
pressuposto ideológico, vota por quem promete mais. Por isso, nos
últimos 15 anos, nas eleições francesas houve sempre novas “surpresas”,
com importantes faixas de eleitores que deram seu voto a partidos ou
candidatos que, anteriormente, detestavam.
É o caso do
tradicional bairro operário de Stalingrad, em Paris, que nas eleições de
2005, votou quase em massa no candidato da Front Nacional em função da
promessa de “expulsar os estrangeiros que roubavam o trabalho dos
franceses aceitando trabalhar sem carteira assinada”
Hoje, os
candidatos da extrema-direita conseguiram conquistar, novamente, parte
dessa faixa de eleitores desiludidos prometendo-lhes “a expulsão dos
imigrantes negros e árabes que transformaram as periferias de nossas
cidades em narco-bairros onde não há mais leis”
Praticamente foi
em função desse tipo de manipulação que o Front National ganhou as
prefeituras de 15 cidades, entre as quais as de grandes centros como
Frejus e Beziers, passando dos 60 vereadores eleitos em 2008 para os
1.250 de agora.
Por outro lado, esse referendo contra Hollande e,
portanto contra o PS, fez cair definitivamente a histórica adjetivação
política e ideológica de François Mitterrand, segundo a qual o Partido
Socialista era a “Gauche” francesa (Esquerda).
Infelizmente, o
partido socialista de Mitterrand não existe mais. E o pior é que o atual
PS não dispõe de lideranças do seu nível. Além disso, o trio dirigente
do PS: François Hollande/Jean-Marc Ayrault/Laurent Fabious maculou o
histórico pacifismo do PS, aliando-se à Grã-Bretanha e aos EUA na
campanha contra a Síria para derrubar o governo de Bashar Al-Assad. Algo
que pesou bastante na opinião pública, já muito insatisfeita com as
inúteis medidas que o governo do PS tomou nos últimos dois anos para
aliviar os efeitos negativos da crise econômica e do desemprego.
A verdadeira “esquerda”
Mas
se o presidente François Hollandenão quis assumir a responsabilidade da
derrota eleitoral,
descarregando todas as culpas no
ex-primeiro-ministro, Jean-Marc Ayrault; a dirigente do PS Ségolène
Royal, ex-companheira de Hollande, foi mais realista sublinhando: “Estas
eleições foram uma implacável punição para o Partido Socialista que,
por sua parte, deverá tomar a sério o resultado das urnas e analisar
profundamente o que aconteceu nas diferentes cidades onde fomos
derrotados, procurando entender o porquê disso tudo”.
Afirmações
corajosas que foram logo apoiadas pelo ministro da Economia, Pierre
Moscovici, segundo o qual “foi uma incontestável derrota para o Partido
Socialista e, sobretudo, para o governo, visto que o desemprego continua
subindo e a economia não decola como havíamos previsto”.
Diante
disso a ala esquerda do Partido Socialista – que é a verdadeira “Gauche”
– esta em pé de guerra acusando Hollande e Fabious de ter desnorteado o
partido.
De fato, Edwy Plenel, diretor do importante diário
digital Mediapart, admitiu que “Hollande continuará a dar muitas dores
de cabeça à ala esquerda do seu partido e, sobretudo, do seu eleitorado,
que quer que o PS permaneça um partido de esquerda e não uma formação
que faz tudo o que o mercado quer.
Por exemplo, o presidente
François Hollande, ao promover as negociações do ‘pacto de
responsabilidade’ com o patronato, pressionando os sindicatos para
aceitar esse pacto, que é a negação do sindicalismo de esquerda, fez com
que os setores da esquerda que o elegeram em 2012, agora o
abandonassem”. Para depois finalizar afirmando que: “Hollande já não é o
mesmo homem que era antes das eleições presidenciais”.
FN: partido anti-EU?
Antes
de analisar o sucesso do Front National é necessário dizer que, nas
eleições administrativas de 2008, 16,3 milhões de franceses se
abstiveram, tornando a abstenção eleitoral um perigoso fenômeno
político. Agora, a abstenção foi, novamente, a principal surpresa dessas
eleições administrativas.
Os franceses rejeitaram as urnas, os
partidos e as promessas de campanha “porque são todos iguais, porque
prometem, mas nunca cumprem, porque não fazem nada quando estão no poder
etc. etc.”
Frases que os noticiários de TVs gravaram nas
diferentes cidades da França, e que repetem o glossário de quem fez
abstenção na Itália, na Espanha, em Portugal, na Grécia, na Irlanda,
enfim, em todos os países da União Europeia onde a crise econômica e as
medidas de austeridade golpeiam os salários, as pensões e os serviços
públicos. Por isso tudo, o fenômeno da abstenção política cresceu como
nunca na Europa
.
É nesse cenário que as formações da
extrema-direita, tais como o Front National na França, ganharam mais
espaço, inclusive por dar publicidade ao mal-estar social e por
descarregar sobre os imigrantes todo o rancor e a raiva que a crise
econômi
ca provoca, sobretudo, nos trabalhadores que ganham um baixo
salário ou que estão desempregados.
Além disso, Marine Le Pen,
líder do Front National, apresentou nessa campanha uma equação política
muito simples, ao dizer que “o drama do desemprego é uma consequência
direta da política de austeridade imposta pela Alemanha de Angela
Merkel, verdadeira governadora da União Europeia”.
Por isso,
segundo a líder do Front National, “a solução dos problemas econômicos e
sociais dos franceses passaria pela saída da França da União Europeia”
Uma proposta política que requalifica o Front National como o principal
partido de extrema-direita contrário à União Europeia, que nas próximas
eleições de 25 de maio, poderá ser, também, o líder da frente dos
partidos de direita e de extrema-direita europeus contrários à
permanência na União Europeia. Uma proposta que, na realidade, poderá
ganhar o voto de uma considerável faixa de eleitores europeus cansados
com as políticas de austeridade impostas pela Alemanha nos países do
bloco.
De fato, o antieuropeísmo foi a oportuna solução política
que Jean-Marie Le Pen (pai de Marine) inventou em 2002 para poder
esconder o passado do Front National como partido neonazista. Uma
transformação que foi estimulada pelas “excelências” da burguesia
francesa que ajudaram Marine Le Pen na transformação do Front National,
até que conseguisse ultrapassar o limite de 5% fixado para entrar no
Parlamento.
Desta forma, Marine Le Pen reformulou o velho partido
neonazista, criado pelo seu pai, em um novo partido de extrema-direita
que atua no âmbito do parlamentarismo burguês. Uma condição ideal para
sustentar silenciosamente a ideologia neonazista, enquanto consegue
fazer sobreviver um aparelho partidário profissionalizado, sempre pronto
a se aliar com os partidos conservadores e invadir as ruas para se opor
à esquerda, aos sindicatos e aos movimentos populares.
Portanto,
hoje, o Front National, bem como as formações italianas e austríacas de
extrema-direita que entraram no Parlamento, escondem em silêncio a alma
fascista ou nazista de seus fundadores e atuam como “nacionalistas” no
seio da sociedade explorando o sentimento “anti-União Europeia”.
Um
falso nacionalismo que a própria burguesia de forma oculta sustenta,
mas que publicamente apresenta como um perigo para amedrontar a classe
média e os trabalhadores. Afinal, o principal objetivo da burguesia
europeia, seja ela francesa, italiana ou alemã é manter os povos da
União Europeia dentro de um modelo de ordem política e de exploração
econômica e financeira que a Tríade (FMI, Banco Mundial e Banco Central
Europeu) determinou, encarregando a Alemanha de assumir a direção desse
processo.
*Achille Lollo é jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na Itália e editor do programa TV “Quadrante Informativo.



