Não é à toa que o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, está tão otimista com relação aos lucros da Fifa no Brasil, na Rússia e no Catar. As violações no Brasil já conhecemos, mas agora começam a vir à tona as violações nos futuros países-sede.
Segundo o jornal inglês "Mirror", a preparação da Copa de 2022 no Catar envolve trabalho análogo à escravidão e já teria atingido a marca de 1.200 mortos. A maior parte dos mortos seriam imigrantes que tiveram seus passaportes retidos assim que chegaram ao país para trabalhar nas obras da Copa. Mantidos em condições desumanas e de insalubridade, os trabalhadores estariam sendo submetidos inclusive à agressões físicas, e teriam à disposição somente água salgada para beber. Se nada for feito, a estimativa de organizações que acompanham a situação é de que quatro mil trabalhadores morram até o término das obras.
Violações dos Direitos
Humanos também têm sido uma característica da preparação para a Copa do Mundo
da Fifa no Brasil. Em junho de 2014 a Associação Nacional dos Comitês Populares
e o Comitê Popular Rio lançarão as atualizações dos Dossiês de Violações dos
Direitos Humanos nacional e do Rio de Janeiro.
Este evento que se traveste
de festa é repleto de violações, e tanto os governos quanto a Fifa e seus
patrocinadores são responsáveis por isso.
Segue a matéria:
Parceria antiga
Em 2011, o Defensor Público
Geral, Nilson Bruno, e o Prefeito do Rio, Eduardo Paes, conversaram sobre a
inserção da Defensoria nos processos de desocupação para as Olimpíadas e a Copa
do Mundo. Na reunião, também foi abordado o envio de respostas aos ofícios de
requisição de informação pelos defensores públicos. O encontro, que aconteceu
no gabinete do Prefeito, marcou a reaproximação da Prefeitura com a Defensoria.
O Prefeito
"gentilmente" propôs visitar a Defensoria Pública para explicar aos
Defensores como pretende atuar em parceria com a Instituição. Vale lembrar que a Defensoria Pública é para agir
pelos interesses da população, não para fazer conchavo com o prefeito
Pinóquio-carreirista da vez. Lamentável o que está acontecendo aqui no Rio de
Janeiro!
A ocupação na Maré
Às sete horas da
manhã deste domingo, anunciava-se na televisão que o primeiro dia de ocupação
das comunidades da Maré havia sido um sucesso: "em 15 minutos, a maré foi
ocupada, sem nenhum tiro", ressaltava o apresentador. Ao lado dele, o
comentarista de segurança pública dizia que nenhuma casa estava sendo revistada
"com o pé na porta" (sem mandado) ou sem a presença de um delegado. A
transmissão ao vivo da espetacularização da operação policial-militar era
assistida pelas televisões de bares e residências de moradores da Maré, nesta
manhã, enquanto nas vielas e cantos das favelas construía-se um início de
ocupação mais dolorido e duvidoso.
Mesmo com o
anúncio oficial de que delegados acompanhariam as revistas a casas, depois que
um juiz expediu mandado coletivo para as favelas Nova Holanda e Parque União
(tratadas com muito mais suspeição pela secretaria de segurança pública), tal
determinação não foi cumprida à risca por todos os policiais presentes.
Moradores e ativistas locais testemunharam – e fotografaram – policiais do Bope
entrando numa casa sem mandado e revirando-a de cabeça para baixo. O barulho da
violenta busca foi tão alto que chamava atenção de quem passava pela rua. O
interior da residência foi vandalizado. "E olha que hoje eles (policiais)
estão com o freio puxado" , disse um ativista da Maré que acompanhou a
ocupação, em rondas feitas por diversas ONGs e lideranças comunitárias da
região. Ele quis dizer que mesmo hoje, no dia mais midiático e performático da
ocupação, com centenas de câmeras e encenações estratégicas, a polícia agiu com
truculência nessa residência. Imaginem, então, depois que as câmeras forem
desligadas, nas próximas semanas.
É esse futuro
incerto que deixa moradores e ativistas temerosos e inseguros em relação à
conduta de policiais e militares. Incertezas baseadas em fatos. Em uma semana
de incursões policiais diárias na Maré, o saldo foi de furtos, roubos, mortes
violentas (pelo menos duas pessoas morreram, uma delas, torturada),
desrespeitos, ameaças e muito pé na porta por parte da polícia. E ainda fizeram
pessoas engolirem um panfleto de uma ONG que conscientizava moradores sobre os
seus direitos. Fora todo o histórico da relação de violência da polícia com os
moradores de favela, e ainda os fracassos e crimes cometidos pelas forças do
Estado no projeto das UPPs.
Os helicópteros
das polícias civil e militar fizeram manobras rasantes durante toda a manhã na
Maré. O comércio só começou a abrir no final da manhã e nenhuma música tocava
nas ruas – ao contrário de uma típica manhã de domingo. Moradores espiavam as
dezenas de carros da polícia e os tanques do exército da janela, desconfiados.
Alguns questionavam, perguntando quando a favela ia ganhar melhorias de
verdade. Muitos moradores deixaram as comunidades no fim de semana e foram para
a casa de parentes em outros bairros.
Fotógrafos
estrangeiros tiravam fotos de crianças curiosas com o excessivo aparato
policial. Repórteres da grande mídia pareciam fazer um passeio turístico pelas
favelas. Garis da Comlurb nunca trabalharam tanto num domingo, retirando muito
entulho das comunidades. E, como não poderia faltar no espetáculo midiático da
" pacificação": bandeiras do Brasil e da polícia (nesse caso, do
Batalhão de Choque) hasteadas numa das comunidades, a Vila dos Pinheiros, com
criancinhas andando a cavalo e sendo pegas no colo por policiais. Alguns
ativistas se recusaram a ser plateia desta última cena.
Na Nova Holanda,
um princípio de confusão entre moradores e policiais se instaurou quando estes
apreenderam um menor de idade que não tinha identidade. "Ele é
trabalhador! Deixa ele em paz!", gritavam os moradores, muitos deles
também adolescentes, revoltados com a prisão do amigo. O jovem apreendido não
havia cometido nenhum crime flagrante, mas, como não tinha nenhum documento,
foi levado para o 22o BPM para averiguação. Como ele, diversos outros também
foram.
O ódio da
polícia e a desesperança no projeto de ocupação transparecia dos olhos dos
jovens vizinhos do menino detido. "A polícia não respeita nós!",
gritava um deles. "Se eles desrespeitar assim, nós vai fechar a Linha
Vermelha" , sugeria outro. Atordoados, os meninos não se conformavam com
tamanha operação policial em sua comunidade. Um deles carregava um estilingue e
outro um pedaço de pau, inofensivos diante de tantas armas de guerra ostentadas
no desfile do Estado. A angústia e a descrença daqueles adolescentes refletem
as marcas da violência sofridas em poucos anos de vida, feridas abertas que não
serão cicatrizadas com armas.
A polícia
continuou buscando drogas e revistando casas durante todo o dia. Grande quantidade
de droga foi encontrada pela Polícia Federal na Vila Olímpica da Maré. No final
da manhã, ONGs locais, Anistia Internacional e líderes comunitários se reuniram
para pensar na articulação da rede local de ativistas, nas formas de diálogo
com a polícia e as forças armadas, em levar adiante as denúncias de abusos por
parte dos policiais e na criação de um protocolo para a atuação destes,
garantindo os direitos da população local. Uma audiência pública vai ser
organizada essa semana pela organizações da sociedade civil locais, e um ato
artístico-político está marcado para o próximo sábado.
No começo da
tarde, jovens com estilingues foram presos na Linha Vermelha, quando
supostamente depredavam carros. Outros jovens de facções rivais teriam se
enfrentando com pedras e tiros, e alguns ficaram feridos. Todos jovens, como
aqueles que se revoltaram com a prisão do amigo. Jovens desesperanços quanto ao
processo de pacificação. Jovens sedentos por direitos. Jovens que mal saem da
comunidade e que de uma hora para outra são obrigados a compreender a presença
de milhares de homens armados em sua vizinhança. Jovens que não têm outra opção
de lazer a não ser ficar "zoando" na rua até tarde – o que não se
pode mais fazer –, ou ir para o baile funk da comunidade, que agora está
suspenso por tempo indeterminado. Jovens cujos pais trabalham o dia fora e
agora correm o risco de encontrar suas casas reviradas ao final do dia, quando
não saqueadas. Difícil traduzir em palavras os olhares de revolta desses
meninos, e não pensar no que será deles nos próximos meses de ocupação militar,
e, principalmente, quando o "espetáculo" dos preparativos para a Copa
do Mundo e as eleições acabar.
Jovem morre
após "guerra de pedras"
Um jovem de 15 anos morreu após
a ''guerra de pedras'' na tarde de ontem no Complexo da Maré.
Segundo informações, o motivo da
briga seria um provável combate entre facções das comunidades da Baixa do
Sapateiro e de Nova Holanda. De acordo com moradores, o tiroteio começou quando
jovens estavam se agredindo com pedras. O adolescente chegou a ser levado para
a UPA de Vila do João, mas não resistiu.
Pelo menos três outras pessoas
ficaram feridas e foram encaminhadas para o Hospital Federal de Bonsucesso.
Duas delas foram baleadas por arma de fogo.
"É guerra de pedras entre
grupos rivais. Cadê os policiais?", perguntaram moradores, que foram
obrigados a retirar seus carros do local. Segue a mentira, a repressão e a
guerra aos pobres. Até quando?



