24.2.14

OS IRMÃOS METRALHA E OS EMBARGOS

CARLOS CHAGAS -
É preciso recorrer às histórias em quadrinhos do Pato Donald, com todo o respeito aos advogados dos condenados e a eventuais ministros do Supremo Tribunal Federal que venham a admitir embargos infringentes sustentando não terem os mensaleiros formado quadrilha. Porque naquela genial criação de Walt Disney sempre apareciam os Irmãos Metralha, criminosos abomináveis que, além de irmãos, eram um cópia dos outros. Será que eles constituíam uma quadrilha só porque usavam roupas e máscaras iguais, ou porque filhos do mesmo pai e da mesma mãe? Ou porque dedicavam-se a assaltar, sequestrar e assassinar?
Vale o mesmo para os defensores dos embargos: imaginam que quadrilha só se constituiria entre os mensaleiros caso usassem as mesmas roupas e fossem irmãos? Como nem primos longínquos são, ou muito menos usavam máscaras para gerir o mensalão, devem então ficar livres da condenação por formação de quadrilha?
Nada mais igual a uma quadrilha organizou-se à sombra do palácio do Planalto, com ramificações no Congresso, num banco e numa agência de publicidade com sede em Belo Horizonte e em diversos partidos políticos. Como um motor de diversas engrenagens, estavam todos mancomunados para obter dinheiro sujo e comprar votos de parlamentares em apoio ao governo. Claro que havia um chefe e diversos comandantes, cada um exercendo uma parte do plano comum que era corromper deputados.
Rejeitar a acusação de quadrilha é o mesmo que sustentar haver Al Capone atuado sozinho na extorsão, assassinato, contrabando, venda ilegal de bebidas, prostituição e demais crimes que cada integrante de seu bando também praticava isoladamente. Nada tinham um com o outro? Não era uma organização com a finalidade de cometer crimes? Ficou para quarta-feira a decisão, pelos onze ministros do Supremo Tribunal Federal, a respeito da condenação já expressa pela maioria deles. Seria cômico se não fosse trágico imaginar uma reviravolta e a conclusão de que os mensaleiros não formavam uma quadrilha, que agiam isoladamente…
TRISTEZA E DECEPÇÃO
Foram esses os sentimentos expressos da tribuna do Senado por Roberto Requião, também indignado porque dos 44 colegas que assinaram o requerimento de constituição de uma CPI para investigar os transportes urbanos no país, parte deles começava a retirar as assinaturas. O ex-governador do Paraná denunciou manobra engendrada no governo e executada pelo PT, mas inconstitucional, pela inexistência da figura de retirada de assinaturas em requerimentos de CPIs. Está sendo sufocado o direito das minorias.
Conforme decisão do Supremo Tribunal Federal, a maioria não pode frustrar a prerrogativa de grupos minoritários investigarem denúncias de irregularidades. Além de acusar o líder do PT, Humberto Costa, Requião também culpou o atual presidente do PMDB, Waldir Raupp, de estar envolvido na trama.