Por LÚCIO FLÁVIO PINTO - Via blog do autor -
A mais recente edição da revista Carta Capital, de
Mino Carta, anuncia na capa duas reportagens sobre a Operação Lava-Jato. A mais
destacada é a de Nirlando Beirão. Internamente, o texto também é definido como
reportagem. Mas não é reportagem. Trata-se de um artigo de opinião. Virulenta
opinião.
É uma distinção que merece ser feita. As duas formas de texto
jornalístico têm sido muito embaralhados pelas publicações e confundido não
apenas os leitores: confundem também os jornalistas, que tomam uma pela outra e
optam pela mais fácil, ou mais conveniente.
Reportagem é a apuração dos fatos em maior profundidade e
extensão do que a notícia. Essa amplitude permite ao repórter (o verdadeiro
autor de reportagens) situar os fatos num contexto que o ilumina ou explica.
Até se permitir ser mais subjetivo, adjetivando uma ou outra situação. Mas
jamais se afastando dos fatos e da objetividade, sem a qual eles não emergem.
O que o já calejado Nirlando Beirão escreveu foi um artigo de
opinião, “opiniático” ao extremo da ofensa deliberada. Seu propósito é revelar
uma faceta do juiz Sérgio Moro que a imprensa omite, comprometida com ele para
merecer suas informações, segredos e offs privilegiados.
Nirlando iria romper a cortina de fumaça e revelar um juiz tendencioso, que se
oculta sob a aparência de herói.
Mais do que isso, um mafioso, como Nirlando sugere ao
observar que ele sempre se veste de preto, num talho tão justo que o faria
passar “por um hunky boy de academia”. Descrição do seu traje
feita em linguagem debochada: “o pretinho básico do juiz curitibano”, com o a
clara intenção de apontar a preocupação de Moro por uma aparência etiquetada e
narcisista.
Mas à imagem a que mais ele poderia aspirar seria a “condottiere da
Operação Lava Jato”, com a cumplicidade da “indigência criativa, a má-fé
jornalística e a penúria financeira das revistas do status quo“.
Como a associação patronal das revistas, a Aner, homenageou o
juiz, deu um palanque apropriado “para um integrante do andar de baixo do
Judiciário exaltar, ainda que com o malabarismo verbal ardiloso de quem age
como político fingindo agir como magistrado, suas virtudes de supremo bedel da
moralidade pública”.
Toda essa deferência se justifica porque o favorecido “opera
naquela frequência dos interesses sempre unilaterais e partidários de seus
agora parceiros de redação”, fazendo o jogo da “corporação oligárquica” da
imprensa, donos dos “veículos do privilégio”.
E haja Nirlando a tentar descredenciar o integrante do “baixo
Judiciário”, como se a hierarquia funcional significasse superioridade
qualitativa de baixo para cima ou se um juiz singular fosse, por definição,
inferior a um integrante da instância superior, que atua em colegiados na
apreciação dos recursos opostos às decisões de primeiro grau, estas tomadas em
solidão.
Assim, Moro é o “Duce da Lava
Jato”, o “xerife de Curitiba, o “Moisés no Sinai”. Brincadeirinhas na pena de
um jornalistas que “evoluiu” da reportagem para a crônica dos faits-divers,
ou dos gossips,
mais remuneradores do que a árdua reportagem.
O articulista nada prova, não associa adjetivos a fatos, não
substantiva sua ironia, não demonstra suas acusações, não relativiza suas
certezas pessoais pela compreensão coletiva. Mas quando se trata de diminuir a
relevância da associação das revistas (certamente infiltrada de vícios e
defeitos característicos da grande imprensa brasileira), qualquer estatística
serve.
Como a apurada por um órgão do governo federal, a sua
Secretaria de Comunicação. Segundo ela, “56% confia [confiam] pouco ou
desconfia [desconfiam]
do que lê”. Por isso, apenas 7% dos brasileiros leem algum tipo de revista.
É um dado chocante mesmo. Seriam 14 milhões de leitores no
conjunto. Mas é verdadeiro? Só Veja edita um
milhão de exemplares. Todas as demais revistas, incluindo as do tipo Caras,
somariam 13 milhões de leitores?
Da mesma maneira como devia problematizar os ataques ao juiz
do escândalo da Petrobrás, que tem na sua companhia promotores e delegados
federais, Nirlando Beirão devia por em cheque os dados que cita sem uma vírgula
de dúvida. Ou ele deliberadamente escreveu um libelo, tão comum na imprensa
antes do início da sua efetiva profissionalização (para o bem e/ou para o mal),
por encomenda?
Não merecia o título de reportagem.



