CARLOS CHAGAS -
A grande maioria parlamentar optou apenas pelo fim da reeleição e
talvez, esta semana, por marcar para 10 de janeiro, nos anos eleitorais,
as posses dos presidentes da República, governadores e prefeitos
eleitos no ano anterior. O restante do sistema político-eleitoral
continuará na mesma, ou quase. Não adianta lamentar que deu em nada a
fantástica reforma política, panacéia nacional cantada em prosa e verso
pelos políticos e pela mídia. Era tudo jogo de cena, pois deputados e
senadores preferiram apostar nos mecanismos para a reeleição. Manter as
regras do jogo, com raríssimas exceções.
Para os que pensam em deixar acesa a chama da esperança de as
reformas virem a ser aprovadas em novas votações ainda este ano, e nos
próximos, vai um alerta. A menos que sobrevenham inusitadas crises, como
a falência do Brasil ou a rebelião dos oprimidos e desassistidos, nada
feito. Reforma política, adeus. Nem parlamentarismo, nem voto distrital.
Muito menos financiamento apenas público das campanhas eleitorais, com o
fim das doações empresariais.
Diminuição do número de partidos, nem pensar. Redução ou ampliação
dos mandatos de senador, nunca. Extinção dos suplentes de senador,
também não. Proibição de coligações partidárias? Jamais. Unicameralismo,
sem chances, assim como qualquer das outras propostas aventadas no
reino da fantasia, do tipo constituinte exclusiva para as mudanças
constitucionais. Mandatos fixos para ministros dos tribunais superiores,
só se vaca tossir, da mesma forma como cotas para mulheres se
candidatarem.
Saiu tudo pelo ralo, ou quase tudo. Prevaleceu o interesse imediato
dos legisladores. O Brasil não vai mudar de nome, nem de práticas e de
costumes adotados ao longo das décadas.
Quem mais percebeu esse resultado foi o Lula, apesar de seu relativo
mutismo. Quer voltar em 2018, possibilidade que apenas nos Estados
Unidos seria impedida pela lei. Nosso país é esse mesmo, mas ao menos
uma vantagem isolada decorre do imobilismo: estamos vacinados contra
golpes e alterações violentas no regime. Não há lugar para aventuras
extemporâneas, a menos, é claro, no caso das duas hipóteses acima
referidas, da falência do Estado brasileiro ou da rebelião das massas.
Dizer “melhor assim” parece uma temeridade, mas é verdadeiro.
PEDALADAS PERIGOSAS
Madame comprou uma bicicleta, desde que o dono da fábrica não se
tenha decidido a doá-la, coisa que não costuma acontecer com outros
objetos de cunho pessoal. A conclusão será de que, de preferência, vai
pedalar nos jardins do palácio da Alvorada, ainda que possa, como no
sábado, arriscar uma incursão além das grades. O episódio revela que
mesmo aos trancos e barrancos, a presidente se dispõe a seguir adiante,
sem renúncia nem impeachment. O diabo são os tombos e as escorregadelas.



