CARLOS CHAGAS -
Enquanto Madame anda de bicicleta, a indústria automobilística
atropela o bom senso, a lógica e até as leis do mercado, sem que o
governo tome qualquer providência. Porque se os pátios estão abarrotados
de carros novos é pela ausência de compradores sem dinheiro por conta
da crise econômica. O que aconselhariam Keynes e seus seguidores? Que se
baixassem os preços. Que se reduzissem os lucros.
O que fazem as montadoras? Começaram a demitir em massa seus operários. E o governo, faz o quê? Nada.
O dever maior do poder público é zelar pelo bem estar de seus
cidadãos. As demissões punem o trabalhador e intranquilizam a sociedade,
sendo estultice dizer que a economia é assim mesmo, submetida aos
postulados da oferta e da procura. Azar o de quem perde o emprego? A
indústria visa o lucro e para preservá-lo julga-se no direito de
demitir, sob a ilusão de estar reduzindo custos e diminuindo a produção.
Só que mecanismos existem para evitar as demissões e preservar as
empresas. É quando entra o Estado, que existe para isso, dispondo de
condições não apenas para socorrer as montadoras, mas para manter os
empregos. Como?
Proibindo demissões em massa e intervindo nas empresas que insistirem
nessa prática. Exigindo que se declararem inviáveis. Numa palavra hoje
proscrita da dita moderna economia: estatizando. Apoderando-se do
patrimônio das montadoras depois de mandar seus dirigentes para casa ou
para a cadeia. Aplicando recursos públicos para solucionar o impasse
através da transformação dos operários em sócios proprietários. Pode ser
drástica essa iniciativa, mas que outra existirá a não ser aceitar as
inaceitáveis demissões? Diante de tal hipótese ou ameaça, certamente a
indústria automobilística refluirá de sua incompetência e de sua
ambição. Admitirá lucrar menos, até entregando os anéis para salvar os
dedos. O que não dá é o Estado assistir impassível a degola de seus
cidadãos.
Torna-se necessário não ter medo do que se convencionou como heresia,
muito pela ação da mídia. Estatizadas estão as eleições, por exemplo.
Teria a iniciativa privada condições de realizá-las, a não ser para
institucionalizar e ampliar a corrupção, já evidente no regime atual? O
poder público não tem que ser ineficiente, muito menos esbanjador. Pelo
contrário, é do outro lado que surgem práticas deletérias como as que
ainda agora emergem do escândalo da Petrobras. Em suma, é preciso
implodir tabus e falsas verdades hoje absolutas. Em especial se for para
preservar os empregos de milhões de trabalhadores.



